Uma empresa suíça de inteligência artificial afirma ter reescrito parte da história da arte ao autenticar uma obra atribuída a Caravaggio. A Art Recognition anunciou que O Tocador de Alaúde, pintura até então considerada uma cópia, teria 85,7% de probabilidade de ser um original do mestre barroco italiano, segundo análise feita “apenas a partir de uma fotografia”. A conclusão contraria avaliações históricas de instituições como Sotheby’s e o Metropolitan Museum of Art, que sempre classificaram o quadro como derivado e não autêntico.
A obra em questão, anteriormente parte da coleção do Badminton Estate, na Inglaterra, retrata um jovem de cabelos castanhos tocando alaúde diante de uma mesa de mármore decorada com flores. Outras duas versões do tema são conhecidas: uma, conservada no Hermitage de São Petersburgo, é amplamente aceita como autêntica; a outra, pertencente à Coleção Wildenstein em Nova York, esteve emprestada ao Metropolitan por mais de duas décadas, sendo defendida por alguns especialistas, mas também alvo de ceticismo. A versão britânica, leiloada pela Sotheby’s em 2001 por £71 mil, havia sido atribuída a um seguidor de Caravaggio, possivelmente Carlo Magnone.
A revelação despertou um antigo debate sobre os limites da tecnologia na atribuição de obras-primas. Enquanto a Art Recognition sustenta que seu método já foi aplicado com sucesso em pinturas de mestres como Rafael e Van Gogh, críticos ressaltam que a obra havia sido consistentemente rejeitada por especialistas modernos. O Metropolitan e a Sotheby’s, em nota, reafirmaram suas conclusões anteriores, defendendo a atribuição a um seguidor do artista. O caso, no entanto, evidencia como a inteligência artificial começa a desafiar os critérios tradicionais da história da arte, trazendo novas camadas de controvérsia para o já restrito corpus de Caravaggio, falecido em 1610.


