Em sinal de luto, Bienal de São Paulo cobre obras de Jaider Esbell

Obras de Jaider Esbell cobertas em sinal de luto na 34ª Bienal de São Paulo (4/11/2021) | IMAGEM: Reprodução

Encontrado morto em uma pousada em Juquehy, enquanto trabalhava em um projeto com amigos (LEIA AQUI), o artista indígena Jaider Esbell é um dos grandes destaques da atual Bienal de São Paulo. Em forma de luto, as obras do artista foram cobertas por tecidos pretos, e flores foram colocadas embaixo de cada uma. No site da instituição, os curadores Jacopo Crivelli Visconti e Paulo Miyada, publicaram o seguinte texto:

Jaider Esbell transformava mundos e pessoas com sua presença provocadora e generosa. Não vinha para pacificar ou para simplificar, mas para tensionar incansavelmente soluções e arranjos cristalizados, concebidos para manter um status quo violento e opressor. Desmascarava hábitos colonizadores introjetados nas rotinas institucionais, desafiava aqueles que o cercavam a colocar em dúvida suas certezas e, invariavelmente, oferecia modos de resolver impasses, promovendo esforços de diplomacia e tradução com uma energia criadora que parecia inexaurível. Não trilhava caminhos conhecidos ou sequer concebidos antes dele, mas mostrava e demonstrava a necessidade de outras parcerias, outras maneiras de trabalharmos juntos. 

Era decidido, firme e objetivo, nunca condescendente. Era sempre construtivo, principalmente quando demolia visões ultrapassadas do mundo e da arte. Nos longos meses de preparação da Bienal, poucos momentos foram tão intensos quanto a fala em que Jaider, no pavilhão ainda vazio e silencioso, compartilhou conosco, publicamente, seus sonhos, reafirmando sua atuação fundamental na articulação da cena da Arte Indígena Contemporânea. Fundamental, isto é, para todos, para que chegue mais cedo o momento em que as mudanças que sabemos serem necessárias e inadiáveis possam de fato acontecer. 

As conversas e trocas com ele foram decisivas na definição da participação de artistas indígenas na Bienal, na realização da mostra Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea no MAM São Paulo e na programação pública batizada por ele como “Bienal dos Índios”.  Sem seu exemplo, teria sido muito mais árido pensar a possibilidade da Relação como qualidade definidora da arte e da experiência humana. O sentido geral da mostra se tornou outro pela sua presença, e agora ele se transforma outra vez por sua ausência. Mas essas trocas tiveram um impacto ainda mais amplo, para além da 34ª Bienal: Jaider Esbell é um dos catalisadores de uma mudança irreversível no debate da arte, da cultura e da diferença no nosso continente. 

Seus braços iam longe, abraçavam seres, pessoas, saberes, visões de mundo e povos em encontros inaugurais, em que a diferença não era um fim em si mesmo, mas um princípio ativo para iniciativas contracoloniais. Seus olhos brilhavam com a convicção de uma missão a ser vivida, a qual ele podia resumir compartilhando um sonho, criticando os princípios do sistema da arte ou defendendo o sentido ativista e político da atuação tática de artistas indígenas contemporâneos. 

Para nós, será impossível pensar nesses anos de trabalho e convívio sem sentir saudade do olhar desse artista, curador, escritor, agitador, pensador… desse amigo, desse txai. Sem ele, ficamos com a dor de uma perda gigantesca e irreparável. Ficamos também com a responsabilidade de levar adiante, coletivamente, o que ele iniciou. De seguir no caminho que ele concebeu e demonstrou ser possível. Ficamos com a tarefa de não deixar que o processo que a sua sabedoria soube iniciar se detenha ou regrida, de lutar para que se mantenha contínuo, irreversível e transformador. 

Jaider Esbell partiu, mas continuará entre nós sua energia, que provoca efeitos imediatos, mas também rearranjos profundos e mudanças duradouras.

Em sua memória, estendemos os braços a todas e todos que foram tocados por sua presença, em especial seus familiares, amigos e aliados de longa data.

Gratidão.

( Jacopo Crivelli Visconti e Paulo Miyada)

Também há um texto do artista sendo compartilhado, onde ele fala de sua partida.

Pro dia da minha partida

“Nesta tarde todos devem tomar pajuaru, bebida da minha vida, e assim, elevar suas almas para que estejamos uníssonos.
Quando este corpo estiver lá, solenemente repousado, quando minha cabeça enfim estiver quieta, quero que ele seja coberto com um fino tecido degradável. Por cima desse pano, quero muitas folhas secas, colhidas de grandes árvores nativas. No dia da minha partida, não quero que empenhem toda a dor do mundo no desejo de meu retorno. É chegada a minha hora, que já era esperada desde sempre. Quero que seus corações, agora frios, sintam o ardor das chamas da vida, que aqueçam tanto até despertar seus olhos para toda beleza que ainda existe. Quero que esta dor de morte se transforme, amiúde, em fonte de vida, que seja como numa nascente, ou como as águas das primeiras chuvas no chão esturricado, que vem lentamente encharcando, movimentando os grãos de areia e, quando ensopam, despertam as sementes do sono pretérito para deixarem de assim ser para serem vidas e sair à procura do sol.
Neste momento, minha alma deve estar vendo tudo de cima, assim como sempre sonhei, absolutamente livre sem precisar de proteção, base ou qualquer ligação material. Em baixo, apenas o vazio frio e confortante do infinito. Decerto estarei feliz.
Acompanherei os pássaros, algumas vezes em suas cruzadas. Farei parte da seta que muitas vezes observei por baixo, onde, todos, uma hora, devem assumir a dianteira e ir em frente rompendo o ar. Como uma criança por brinquedo, uma formiga por doce, uma mariposa por luz, estarei sempre seguindo o objeto de meu desejo, que imagino ser insaciável e nunca perca o sabor, ou uma luz que nunca se apagará. Quero estar assim, saudosamente vendo todos voces. Peço, minha gente, um pouco mais de força. Peço mais este favor. Quero que as mulheres da minha família, minhas eternas mulheres, saim nos campos do lavrado a colher flores. Peço que acompanhem estas mulheres, todas as outras que acharem em mim ao menos uma ponta de dignidade, as que estiverem comigo e que consideram esta alma antes cativa. Quero que saiam bem cedo, peguem suas cestas e encham de flores variadas. Que sejam colhidas, ainda orvalhadas, flores virgens, as mais belas e perfumadas. Quero que vejam as belezas do nosso lavrado, que pisem a terra, que deixem seus rastros registrados nestes campos varridos pelo vento. Estes que nunca se apagarão da memória dos que os conhecem. Injustiçados, erroneamente interpretados como terras ruins, que seu capim de nada serve, que ali nada sobrevive. Preguiçoso, como dizem do nativo que nada mais almeja que a comida e a rede. Quero que os homens, meus irmãos, meu pai e os amigos, por quem por menos faria sem medidas, saiam em busca de tronco de mixiri. Quero que tragam a lenha para uma noite inteira de fogueira. O fogo deve estar brilhante. Nesse dia, deve estar ventando e subirão ao céu as faíscas da grande fogueira. Peço que assistam comigo a mais este por do sol e, quando ele descer, vejam as primeiras estrelas brilharem excitadas, as nuvens dispersas amanteigadas. Quero deitar no laranja, na iminencia eterna do recomeço de um novo dia ou de uma nova noite. Quero deitar, nesta hora, no rubor do lusco fusco. Quero que os pássaros ainda me vejam quando estiverem voltando para as suas moradas. Então, me deixem ir. Ponham-me a manta-mãe sobre meu corpo e me entreguem para que eu possa estar novamente entre vós de outras formas. Daqui, partirei logo para estar em outros cantos deste mundo. Vou me dividir, desintegrar em partículas atomicas que um dia ainda se encontrarão e farão parte novamente como sempre será. Parte de mim vai para o mar e, enfim, vou mergulhar com os cardumes, acompanhá-los em suas rotas, percorrer seu território. Posso ir a topo da Terra e congelar num sono hibernal, esperando novamente sentir o calor do sol. Estarei, agora, iniciando mais uma cruzada por este velho mundo. Minha alma já não terá paradeiro neste universo infinito e poderá estar reciclada em outro corpo. Peço que joguem a terra devagar para não destruir as flores, que agora me acompanham nesta ida. Quero ver minha família num só corpo, num só desejo, sonhando o mesmo sonho. Quero que lembrem de mim em meus melhores dias, de quando viram o meu raríssimo e sincero sorriso, de quando sentiram de perto o afago do meu coração, que sempre acreditei existir. Sou novamente uma criança, de fato, sempre fui uma delas e sempre serei. Quero que meu corpo alimente os filhos desta grande árvore que já passo a fazer parte, por enquanto. A fogueira deve estar quente e seus corpos, cansados, serão iluminados. Quero que olhem para as laboredas e acompanhem as faíscas até se confundirem com as estrelas do céu. De lá, vejo a fogueira, uma bola de luz no meio da escuridão, e no céu, acendo a minha estrela para nunca mais se apagar.”

Tardes de Agosto, Manhãs de Setembro, Noites de Outubro, Abril 2013, (Jaider Esbell)

Compartilhar:
Notícias - 26/11/2021

Steve McCurry e a resiliência da infância em fotos

De meninas enfrentando o Mar de Sulu a crianças em idade escolar no Afeganistão, no novo livro Stories and Dreams …

Notícias - 26/11/2021

Veja resenha de nova biografia de Magritte, um homem de mistério

Ao contrário de seus contemporâneos surrealistas, René Magritte tendia a manter Freud à distância de sua obra – embora poucos artistas ofereçam …

Notícias - 26/11/2021

A 'amizade íntima' de Basquiat e Warhol é explorada em drama

A exposição prometia ser de tirar o fôlego, com os dois artistas usando luvas de boxe no pôster. Mas a ansiosamente …

Notícias - 26/11/2021

Imagem da semana: Um espírito emerge de um depósito de lixo no Senegal

Outside Dakar, capital do Senegal, é um depósito de lixo com seu próprio nome: Mbeubeuss. O terreno onde fica situado foi …

Notícias - 26/11/2021

A moda esquisita de Helmut Newton - em imagens

As sessões inusitadas do fotógrafo para revistas como Vogue e Vanity Fair tiveram uma influência duradoura nas artes visuais – …

Notícias - 18/11/2021

Frida Kahlo bate recorde em leilão da Sotheby's

Três lágrimas escorrem pelo rosto de Kahlo, seu cabelo solto sobre os ombros, enquanto a imagem de seu marido, o …

Notícias - 18/11/2021

artistas se unem em projeto pela descriminalização do aborto

“Eu acho que a arte sintetiza uma maneira de falar as coisas que atinge o coração das pessoas de um …

Notícias - 17/11/2021

Revelado o comprador do Giacometti de US$ 78,4 milhões

O chinês Justin Sun, de 31 anos, bilionário em tecnologia e fundador da plataforma de criptomoeda TRON, anunciou-se como o …

Notícias - 17/11/2021

Casa Fiat de Cultura abre seleção para a Piccola Galleria

A Casa Fiat de Cultura está com inscrições abertas para o 5º Programa de Seleção da Piccola Galleria. Artistas brasileiros …

Notícias - 17/11/2021

Artistas cubanos boicotam a Bienal de Havana

Antes da abertura da Bienal de Havana deste ano, artistas e ativistas cubanos estão fazendo um apelo veemente ao boicote …

Notícias - 12/11/2021

4ª Bienal recebe Maria Gadú e BNegão em ativação de obra

Um dos destaques da programação pública da 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto são as …

Notícias - 12/11/2021

Galerias brasileiras marcam presença na Artissima XYZ e na Paris Photo

Os eventos de arte continuam em alta pelo mundo e a participação de galerias brasileiras nesse circuito internacional artístico ganha …