Em fotografia: como a pandemia ressignificou o cotidiano

Por Milena Buarque Lopes Bandeira (Itáu Cultural)

Com o mundo em suspensão, olhares vacilantes e temerosos voltaram-se para dentro. O silêncio e a espera passaram a dar o tom das rotinas em isolamento. “Comecei a fotografar esse fluxo contínuo, a partir de uma conexão do sentir”, conta Daniela Dib, autora da série novo dia, mais um dia, um diário fotográfico que imprime um momento de “medo e transformação profunda”.

“Os dias passavam tão parecidos, como um sonho distante. Ao mesmo tempo, os sentimentos eram reais e viscerais. Foram inúmeras as sensações que permearam os primeiros dias de isolamento, mas de repente comecei a ouvir o silêncio. A estar mais presente no que vivia e no que se passava ao meu redor”, diz a fotógrafa sobre a concepção de seu trabalho.

Para Dib, que integra um dos grupos de estudos de Marcelo Greco, um trecho escrito pelo poeta Rainer Maria Rilke poderia traduzir em palavras os seus registros visuais em preto e branco: “(…) relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza – relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de suas lembranças”.

Definindo-se como um “fotógrafo de gente”, um retratista em isolamento também deve lidar com interregnos. Em tempos de saudades e vazios, Pedro espera. Com este título, a série de imagens do fotógrafo Pedro Dias inscreve o perto que não se vê. “Minha fotografia é feita por pessoas e diferentes lugares. Então, de repente, não poder me locomover ou ter contato presencial foi um choque, mas foi justamente o que me abriu os olhos para outras coisas”, afirma. Os registros relatam a passagem do tempo em um só dia, contando de sonhos e visões à localização física e período histórico. Para isso, as fotos transitam entre o abstrato e o literal.

“Em isolamento, a única forma de ter alguém em minha foto era saindo de trás da câmera e encarando minha própria lente, o que nunca havia acontecido e agora é uma nova forma de linguagem que carrego. Falei sobre mim, mas também me usei pra contar a história de outros”, explica o fotógrafo e designer, que já circulou por cinco continentes trabalhando de cozinheiro a carpinteiro. Em casa, Pedro espera e respira o mundo enquanto trancado.

Imagem da série Pedro espera (imagem: Pedro Dias)

Imagem da série Pedro espera (imagem: Pedro Dias)

 

Os sentimentos de desordem, de cessão dos planos futuros e de sufocamento também podem ser encontrados na obra de Keiny Andrade. Em O Ar Que Me Falta, série em cores e feita com flash direto, é possível notar certo sentido de adaptação e ressignificação do banal. “Com as limitações trazidas pelo isolamento, comecei um diário fotográfico onde tento experimentar outra forma de fotografar que não a minha habitual, colocando ordem onde não há e jogando luz para que tudo fique desvelado. Uma abordagem em consonância com a nova forma de viver marcada pelos procedimentos de cuidados contra a contaminação, que me faz olhar para o mundo de forma estéril e ordenada”, conta Andrade, fotógrafo desde 1998.

Segundo o artista, organizar o interno passa por olhar poética e minuciosamente o que está em volta de si. “Ouvi e li muito sobre ser um momento de olhar para dentro e esse trabalho é sobre isso. Tudo o que sentia era uma desordem mental e uma falta de perspectiva. De uma hora para outra, ficou angustiante e sufocante pensar no futuro, planejar qualquer coisa”, explica.

Andrade conta que optou pelo uso do flash de forma direta com o intuito de que nada restasse escondido nas sombras. Suas imagens imprimem um olhar asséptico e também ordenado, em uma contraposição ao desarranjo geral.

“Uma parte do diário foi feita na rua quando tinha de sair para ir ao mercado ou trabalhar. Eu olhava para a cidade ao meu redor com a mesma sensação de confusão interna por conta da pandemia. Além disso, observei como é sufocante a relação natureza e paisagem urbana e como ela era uma metáfora de como vivemos. Ou seja, estamos trancados em nossas casas assim como raízes sufocadas por debaixo do concreto da calçada. A diferença é que a gente raramente se rebela e vive em bolhas. As raízes não: elas se revoltam e arrebentam o concreto. A natureza é indomável.”

Com curadoria de André Seiti e Anna Carolina Bueno, a série analisa algumas fotografias selecionadas pelo edital Arte como Respiro. Os textos são uma pequena amostra do que será apresentado na publicação que reúne todos os escolhidos na categoria Artes Visuais e que será lançada em dezembro de 2020.

Compartilhar:
Notícias - 17/05/2021

Bergamin & Gomide inaugura segundo espaço expositivo em São Paulo

Em 22 de maio, a Bergamin & Gomide inaugura seu segundo espaço expositivo, localizado a poucos metros da tradicional galeria …

Notícias - 17/05/2021

Secretaria de Cultura e Economia Criativa divulga programação para a Semana Nacional de Museus

A Secretaria de Cultura e Economia Criativa participa, de 17 a 23 de maio,  da 19ª Semana Nacional de Museus …

Notícias - 14/05/2021

Exposição apresenta obras de artistas que atuam entre Bolívia e Brasil.

Com abertura no dia 13 de maio, na Nube Gallery, em Santa Cruz de La Sierra, a coletiva Quando não …

Notícias - 14/05/2021

Morre o artista Carlito Carvalhosa

Vítima de câncer no intestino que tratava durante 8 anos, morreu na noite do dia 13 de maio de 2021 …

Notícias - 14/05/2021

CONHEÇA OS GANHADORES DO 10º PRIX PHOTO ALIANÇA FRANCESA

A décima edição do Prix Photo Aliança Francesa, concurso nacional de fotografias realizado pela Aliança Francesa, sob o tema “Reflexos” …

Notícias - 14/05/2021

Governo de São Paulo anuncia investimento recorde de R$200 milhões em projetos culturais

A Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo anuncio um investimento recorde de R﹩ 200 milhões …

Notícias - 13/05/2021

Competição por artistas em ascensão e por Basquiat impulsionam leilão da Sotheby's

A maratona de leilões da Sotheby’s na noite de quarta-feira parecia uma espécie de retorno à normalidade, porque, pela primeira …

Notícias - 13/05/2021

Memorial em homenagem a João Turin é inaugurado com quase 100 obras

O legado que o artista João Turin (1878-1949) deixou para a cultura do Paraná poderá ser apreciado em um grande …

Notícias - 13/05/2021

13ª Bienal do Mercosul lança Chamada Aberta para artistas inovadores

Com o objetivo de oferecer uma vivência imersiva em arte e novas tecnologias, a 13ª Bienal do Mercosul lança o …

Notícias - 12/05/2021

Museu de Arte do Rio hasteia bandeira criada pela artista Sônia Gomes

O Museu de Arte do Rio hasteará, no dia 13 de maio, sua nova bandeira. O trabalho inédito “Andando em …

Notícias - 12/05/2021

Programação cultural 2021 do Inhotim terá superproduções audiovisuais

O Instituto Inhotim apresenta, a partir de 29 de maio, o Inhotim em Cena. Com o patrocínio master do Instituto …

Notícias - 12/05/2021

Historiadores denunciam o plano do Museu de Newark de vender obras na Sotheby's

Mais de 50 historiadores culturais assinaram uma carta aberta denunciando o plano do Museu de Arte de Newark de vender …