Em chamas: Trágedia atinge a história da Cinemateca Brasileira

Na noite de quinta-feira, 29 de julho de 2021, a Cinemateca Brasileira foi engolida pelas chamas na zona oeste de São Paulo, onde o prédio de 6.500 metros quadrados abrigou grande parte do legado cinematográfico do país por décadas. A organização foi fundada em 1940 e atua como o maior arquivo de filmes da América do Sul, com 250.000 rolos de filme, 90.000 títulos, um milhão de documentos e materiais históricos como os primeiros projetores.

Os primeiros relatórios sugerem que o incêndio, o segundo a atingir o complexo em seis anos, foi causado por um curto-circuito no sistema de ar condicionado. No entanto, muitos na comunidade brasileira foram rápidos em denunciar o incêndio como culpa do governo, que eliminou o financiamento para a Cinemateca no início de 2020 e fez com que permanecesse abandonada desde então.

Embora ainda seja muito cedo para determinar a extensão total dos danos, os primeiros relatórios do local mostram que, embora não houvesse vítimas no incêndio, o incêndio consumiu uma grande parte do prédio onde ex-funcionários dizem que muitos arquivos foram mantidos.

No início deste mês, no Festival de Cinema de Cannes, o membro do júri e cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho abordou as preocupações em torno do arquivo durante uma entrevista coletiva de abertura. “A Cinemateca Brasileira está fechada há pouco mais de um ano”, disse. “Todos os técnicos e especialistas foram demitidos. Esta foi uma demonstração muito clara de desprezo pela cultura e pelo cinema”. 

A resistência ao abandono da Cinemateca por parte do governo vem crescendo no ano passado. No verão passado, ativistas da Associação de Cineastas de São Paulo fizeram vários protestos em frente ao prédio na esperança de aumentar a conscientização sobre a situação. As manifestações também ocorreram na esteira da pressão do país para eliminar o financiamento da Ancine, sua agência reguladora central para a indústria cinematográfica nacional.

“No ano passado, temíamos que isso acontecesse, então nem parece um acidente”, disse Mendonça por e-mail durante o incêndio. “Isto é uma tragédia.” Ele acrescentou que, embora os cineastas tenham manifestado interesse em retirar seus materiais do arquivo para guardá-los em outro lugar, isso exigiria a ajuda de ex-funcionários que não são mais empregados pela instituição. “O prédio principal da Cinemateca é um belo prédio onde existia um matadouro, totalmente restaurado e semelhante a uma fábrica”, disse ele, citando duas salas de projeção de última geração, além dos depósitos. “Conheci este lugar por meio do Festival Internacional de Curtas de São Paulo dos anos 2000. Um ótimo lugar de cinema. Em 2019, percebemos que as coisas haviam mudado quando uma temporada de filmes com tema militar foi anunciada. 

De acordo com Debora Butruce, pesquisadora e preservacionista audiovisual que atua como presidente da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, o único caminho a seguir é o governo implementar seu plano de trabalho emergencial para permitir que os funcionários avaliem os danos. “No Brasil, parece que tragédias precisam acontecer para que ações urgentes sejam tomadas”, disse ela. 

Hoje, ex-trabalhadores da Cinemateca Brasileira divulgaram uma carta aberta abordando o incêndio. É reimpresso na íntegra a seguir.

Depoimento de trabalhadores da Cinemateca Brasileira sobre o incêndio no site Vila Leopoldina

O incêndio que atingiu o prédio da Cinemateca Brasileira, na Vila Leopoldina, na noite de 29 de julho, foi um crime previsto, que culminou na perda irreparável de um número incalculado de obras e documentos da história do cinema brasileiro. Essas facilidades são fundamentais e complementares em relação ao espaço da Vila Clementino onde está armazenada a maior parte do acervo da Cinemateca Brasileira. Recentemente, em fevereiro de 2020, uma enchente já havia afetado grande parte do acervo documental e audiovisual ali armazenado.

Há mais de um ano advertimos publicamente contra a possibilidade de incêndio nas instalações da Cinemateca por falta de trabalhadores de documentação, preservação e difusão. Houve um alerta sobre a possibilidade de um acidente na coleta de nitrato na Vila Clementino, sendo o filme de nitrato um material altamente inflamável que pode sofrer combustão espontânea sem inspeção periódica. Não foi o que aconteceu neste caso, o quinto incêndio na história da instituição. No entanto, as causas são as mesmas. Certamente, muitas perdas poderiam ter sido evitadas se os trabalhadores estivessem empregados e participando do dia-a-dia da instituição.

No dia 8 de agosto fará um ano que a Cinemateca Brasileira foi abandonada pelo Governo Federal e teve todo o seu corpo técnico demitido, mesmo sem receber seus salários e verbas rescisórias da gestora anterior, a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (ACERP) . Mesmo assim, foi relatada a contratação de equipes de manutenção, combate a incêndio e limpeza. Embora sejam necessários para um arquivo de filmes em funcionamento, não são suficientes para suas demandas específicas, como evidenciado neste dia fatídico.

A situação torna-se ainda mais crítica quando começamos a pensar nas consequências irreversíveis que os materiais fílmicos sofreram e no seu estado de conservação no ano e mudam sem a atenção de um técnico especializado. Igualmente irrecuperável para a destruição de impressões diretamente pelo fogo é a vida útil agora drasticamente reduzida de vários materiais, especialmente a perigosa deterioração do estoque de filme de nitrato e acetato. Somente com o retorno da equipe especializada será possível avaliar a extensão das perdas e danos e, então, tentar retomar e iniciar novas atividades de conservação.

A coleção que ficava armazenada na Vila Leopoldina, embora em número menor, tinha relevância e importância igual à da Vila Clementino. Abaixo listamos alguns dos materiais possivelmente perdidos ou afetados no incêndio de 29 de julho de 2021:

Do acervo documental: grande parte dos arquivos das extintas empresas e instituições cinematográficas Embrafilme – Empresa Brasileira de Filmes SA (1969-1990), integrante do Arquivo do Instituto Nacional do Cinema – INC (1966-1975) e Concine – Conselho Nacional de Cinema (1976 – 1990), bem como um número adicional de documentos de arquivo em fase de avaliação. Para evitar que novas enchentes cheguem ao acervo, parte desses materiais foi transferida do primeiro andar para os galpões climatizados do segundo andar, principal área afetada pelo incêndio. A medida ocorreu após uma forte enchente em fevereiro de 2020. Parte do acervo documental veio do arquivo Tempo Glauber, no Rio de Janeiro, incluindo duplicatas da biblioteca Glauber Rocha e documentos da própria instituição.

Do acervo audiovisual: parte do acervo da distribuidora Pandora Filmes, contendo cópias de filmes brasileiros e estrangeiros em 35mm. Matrizes e cópias de cinejornais, trailers, anúncios, documentários, filmes de ficção, filmes nacionais, todos potencialmente as únicas cópias existentes de seus respectivos títulos. Esta parte da coleção já havia sido parcialmente afetada pela enchente recente. Parte do acervo da ECA / USP – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo a partir da produção discente em 16mm e 35mm. Faz parte da coleção de vídeos do jornalista Goulart de Andrade.  

Do acervo de equipamentos e móveis de cinema, fotografia e processamento laboratorial: além de seu valor museológico, muitos desses objetos foram fundamentais para a reparação de equipamentos em uso, pois, para expor ou mesmo duplicar materiais de filme ou vídeo, máquinas obsoletas sem reposição em o mercado é necessário.

O incêndio de ontem à noite é mais um motivo pelo qual não podemos esperar para acabar com a política de terra arrasada e apagar a memória nacional! Estamos de luto, pela perda de mais de meio milhão de brasileiros, e agora pela perda de parte de nossa história. Vivemos incêndios devastadores na Cinemateca Brasileira em 2016, no Museu Nacional em 2018 e novamente na Cinemateca em 2021. Além de todas as mortes por pandemia evitáveis, nossa história tem sido continuamente extirpada. Infelizmente, perdemos mais uma parte do patrimônio histórico e cultural do Brasil.

A Cinemateca Brasileira não pode continuar à mercê de calamidades evitáveis. A outrora terceirização da gestão da instituição por meio de uma organização cultural privada (no caso, a ACERP) mostrou como essa relação pode ser frágil e que tal modelo não dá conta da complexidade de um órgão cultural desse porte. O vazio comunicado público do governo federal, dado sem espaço para debate, transparência, participação da população, dos trabalhadores culturais em geral e, sobretudo, do coletivo de ex-trabalhadores da instituição, não dará solução. Queremos também deixar claro que o orçamento anunciado no referido comunicado é um valor significativamente inferior ao necessário. A estabilidade e a garantia de uma equipe técnica de longo prazo são necessárias para a Cinemateca,

Sem trabalhadores, os arquivos não podem ser preservados!
Trabalhadores da Cinemateca Brasileira               
São Paulo, 30 de julho de 2021.

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