Fotógrafo galês acusa a artista, a David Zwirner e a Sotheby’s de violação de direitos autorais por obra vendida por aproximadamente 10 milhões de reais.
A artista americana Elizabeth Peyton está sendo processada pelo fotógrafo galês Justin Thomas por suposta violação de direitos autorais em uma pintura baseada em uma fotografia de Liam e Noel Gallagher, integrantes do Oasis. A ação, apresentada em 20 de agosto no Tribunal Distrital Sul de Nova York, também inclui a David Zwirner Gallery e a Sotheby’s. Segundo o processo, a obra Earl’s Court (Liam + Noel), de 1996, seria uma reprodução excessivamente fiel de uma fotografia feita por Thomas em 1995.
A imagem original registra os irmãos Gallagher em um raro momento de proximidade, abraçados quando a relação entre os dois já era marcada por conflitos. A fotografia ganhou projeção durante a explosão do britpop no Reino Unido e voltou a circular em destaque no livro How Does It Feel? Oasis 1995/2002, lançado por Thomas em 2024. Na tela de Peyton, o enquadramento se aproxima de um recorte da fotografia, preservando a posição dos músicos e o instante retratado. A principal alteração, sustenta a acusação, estaria no próprio meio, além da mudança de cores, pinceladas e pequenos elementos, como uma manga azul estampada.
O advogado de Thomas, Terry Parker, classifica a pintura como uma “cópia servil” da fotografia. O processo argumenta que Peyton teria reproduzido não apenas a composição, mas também a construção visual da cena. “Ela copia o momento icônico capturado, os famosos irmãos Gallagher em um beijo”, afirma a petição, que também aponta a semelhança entre o perfil de Liam, à esquerda, e Noel, voltado para o observador, à direita. A disputa gira justamente em torno do grau de transformação exigido pela legislação americana para que uma nova obra baseada em uma imagem protegida seja considerada legítima.

Captura de tela do item 24 do documento da ação judicial.
Tradução: Quando o Autor viu pela primeira vez uma cópia de Earl’s Court (Liam + Noel), não foi surpresa o motivo pelo qual um representante de Peyton instruiu a Sotheby’s a remover a Obra Protegida por Direitos Autorais do catálogo do leilão. Eles estavam tentando esconder as origens da pintura. Se Peyton tivesse permitido que sua pintura fosse justposta à Obra Protegida no leilão, os participantes teriam visto que a obra Earl’s Court, 1996, de Peyton, é apenas uma cópia servil da Obra Protegida. Ela copia o momento icônico capturado, os famosos irmãos Gallagher — conhecidos por suas desavenças — em um beijo. Ela copia o tema, os astros do rock embrutecidos flagrados em um momento de ternura. Ela copia a composição: o ângulo de perfil de Liam à esquerda e o ângulo de frente de Noel à direita são idênticos. Ela copia as expressões deles, a expressão facial, a coloração contrastante dos lábios e o fato. Ela copia a inclinação da cabeça, o cabelo, as sobrancelhas, o posicionamento das mãos e braços, a iluminação. O anel usado na mão de Liam permanece visível no mesmo posicionamento perto da gola de Noel. As semelhanças são inúmeras e tão impressionantes que é impossível que Peyton…
A Sotheby’s vendeu a pintura por US$ 1,92 milhão (cerca de 10 milhões de reais) em maio, e imagens da obra continuam disponíveis nos sites da casa de leilões e da David Zwirner. Para Thomas, as duas instituições também teriam reproduzido, distribuído e obtido ganhos financeiros com a obra. A ação inclui ainda cinco réus identificados provisoriamente como John Doe, pessoas ou entidades que, segundo o processo, ainda não foram identificadas. Até o momento, Sotheby’s e David Zwirner não haviam respondido aos pedidos de comentário feitos pela imprensa.
O caso amplia uma questão que já acompanhou Peyton em outras ocasiões. Em 2014, o fotógrafo Dennis Morris acusou a artista de usar sem autorização uma fotografia de Sid Vicious, dos Sex Pistols, como base para um desenho. A disputa terminou em acordo extrajudicial. Dois anos depois, Morris voltou a ameaçar uma ação por outra fotografia, desta vez de John Lydon, e a Sotheby’s retirou a pintura correspondente de um leilão.
Conhecida por retratar músicos, celebridades e pessoas próximas em pinturas de pequena escala, Peyton construiu uma carreira internacional entre Nova York e Paris, com exposições no National Portrait Gallery, em Londres, e no New Museum, em Nova York. Seus trabalhos já alcançaram US$ 2,88 milhões em leilões. Agora, uma de suas pinturas mais diretamente ligadas à cultura pop dos anos 1990 coloca novamente em primeiro plano a fronteira entre apropriação, transformação e cópia na arte contemporânea.


