E as galerias de arte em uma crise pós-pandemia?

Rodrigo Pedroso, Campo de Batalha (Galeria Andrea Rehder)

A pandemia veio modificar nossa forma de agir e traçou limites, antes inconcebíveis, para a economia global.

Infelizmente este é um momento que não vai passar tão rapidamente, pois a liberdade que tivemos até meados de fevereiro voltará, com muita sorte, daqui a um ou até dois anos, quando estaremos vivendo um novo normal.

Como o mercado cultural em geral depende de plateia e de público, sendo parcialmente comprometido com sua ausência, a pandemia pode ser ainda mais devastadora. Para o nicho das artes, mais especificamente para as instituições artísticas e galerias, ela está afetando eventos, exposições e feiras.

Entretanto, ela seria menos agressiva se tivesse havido mais investimento em Internet. Aliás, esta é uma pergunta que sempre me fiz: por que as grandes galerias, que às vezes tem até mesmo escritórios em outros países, possuem um site padrão com o mínimo de recursos de marketing? E mais: por que empresas milionárias não têm uma estrutura digital digna do seu potencial? Por que não existe um mercado de arte profissional na Internet?

Apesar de me questionar, ainda não consegui achar uma resposta para isso. O que sei é que hoje, mais do que nunca, vemos uma variedade de galerias que não sabem o que fazer no universo digital. Vemos um nicho que investiu muito pouco financeiramente em Internet, nunca teve interesse em inovar e agora está no meio da comunidade digital sem saber para onde seguir, em um movimento parecido com o livro “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago.

E consigo ser ainda mais pessimista em todo o meu raciocínio quando chego à conclusão de que não temos profissionais qualificados para liderar projetos inovadores em mercadologia no ambiente digital. Isso fica escancarado quando vemos todo mundo fazer live, que virou a modinha da vez. O que os desavisados não sabem é que live já existe há mais de 14 anos.

Fazer live é legal, mas ela precisa gerar valor para a empresa, o que não acontece com 80% delas. Além disso, 70% nem atingem o público-alvo do negócio, ou seja, a meu ver, ainda mais absurdo. A verdade é que a live deve estar inserida em um contexto mercadológico e ter um papel dentro da estratégia de marketing. O ideal é nós pensarmos em ROI (retorno sobre investimento), pois somente assim ela será útil ao negócio.

No entanto, hoje ela virou um produto aleatório dentro de um planejamento de marketing que não foi planejado. Todos os dias podemos assistir a um monte delas. Lógico que algumas são muito interessantes. Eu mesmo venho assistindo a bons conteúdos. Mas muitas estão perdidas no espaço/tempo, a maioria fala de assuntos que já são discutidos há 70 anos, como “Processo Criativo”, e o pior, inovar na temática — como fez, à sua época, Picasso, com seu documentário “O Mistério de Picasso”, de 1956 – é uma coisa que não estão conseguindo. Entretanto, o problema maior não está nem relacionado a isso, e sim a um modelo que não se sustenta sozinho em longo prazo.

O que vemos então são artistas e galeristas que não parecem ter soluções práticas para seu negócio e estão apelando para lives sem nenhuma estratégia.

Mas o que fazer então?, alguém pode se perguntar. Sinceramente, entendo que nossa reflexão daqui pra frente deve ser outra, pois temos uma pandemia pela frente que vai travar todos os negócios durante no mínimo 12 meses.

Exposição de Samuel de Saboia, A Bird Called Innocence de 06 Jun – 15 Ago na Galeria Kogan Amaro em Zürich

O grande problema que estamos enfrentando é que ninguém estava preparado para este momento e, mesmo com a Internet coexistindo há quase duas décadas, nosso mercado, com raras exceções, nunca investiu em projetos digitais de verdade. Isto é, novos espaços físicos foram construídos, porém nada foi feito para o espaço virtual.

Quando um importante curador assumiu o MASP, depois de um tempo eu disse o seguinte a ele: “Cara, se você tem uma diretora da área de fotografia incrível e altamente qualificada, você tem também que ter um diretor de Internet com o mesmo grau de qualidade. A Internet deve andar paralelamente a todas as outras áreas. O profissional da Internet deve ter ‘as mesmas’ qualidades técnicas – com as devidas proporções de área – que sua diretora de fotografia”, na época, a artista plástica brasileira Rosângela Rennó.

Disse isso a ele porque pra mim a Internet já deveria estar inserida no contexto das artes há muito mais tempo. Mas ao contrário disso, o que tivemos de mais inovador na arte em relação a Web nos últimos anos foi a migração dos leilões para as plataformas digitais, que, cá entre nós, não pode ser colocada como algo inovador. Nesse sentido, nossos exemplos são tão mínimos que isso se torna significativo comercialmente.

O fato é que isso não acontece somente no Brasil. Eu, como estudioso desse mercado, vejo constantemente os mesmos problemas em galerias do mundo inteiro. Pouquíssimas empresas de arte direcionadas para a comunidade digital tiveram aporte financeiro. Uma delas foi a Artsy, que no ano de 2018 recebeu algo em torno de 139 milhões de dólares. A Sotheby’s e a Christie’s, por sua vez, talvez sejam uma das poucas empresas do mercado de arte que adquiriram empresas e diversificaram o leque de negócios.

Outra grande falha do nosso mercado interno é a centralização comercial em um único produto. E, de novo, o conceito de diversificação de produtos e serviços da Sotheby’s e da Christie’s segue o caminho que empresas disrruptivas traçaram para seus negócios. Um modelo de negócio, aliás, que nunca inspirou nenhuma empresa brasileira – e aqui não estou pedindo para galeria virar imobiliária: tanto a Sotheby’s como a Christie’s, além dos tradicionais leilões, têm seus próprios cursos de mestrado em artes com universidades físicas e on-line. A Christie’s, em particular, possui um aplicativo para colecionadores, o Collectrium, e a Sotheby’s tem serviços de estocagem de arte, entre outros produtos.

Conclusão: o mundo mudou e nós temos que mudar com ele. As empresas devem tentar criar seu próprio ecossistema de produtos e serviços. Quer dizer, a dedicação exclusiva a um único produto está com os dias contados.

E a pergunta que não quer calar é a seguinte: agora, na era da pandemia, como as galerias irão sobreviver?

Quem tem capital de giro para acima de dez meses sobreviverá; quem não tem vai ter que fechar e rever seu modelo de negócio ou esperar um pouco. Essas são as minhas sugestões. Não existe outra saída: os empréstimos estão com juros altos e atingem somente uma minoria (e também, convenhamos, não é a melhor forma de financiar um negócio por um longo período de tempo). Se estivéssemos falando de três, quatro meses, tudo bem, mas trata-se de um ano, um ano e meio, dois anos para o mercado voltar ao normal. Então neste momento o melhor é ser realista e traçar estratégias para três anos.

As galerias com sua principal agenda voltada para exposições e feiras têm urgência em repensar seu modelo, pois eu duvido que aconteçam eventos públicos nos próximos meses. E nesse sentido acredito que a volta ao normal será dura para empresas que dependem de público.

Mas existe uma luz no fim do túnel. Está difícil de enxergá-la porque nós aprendemos a aceitar que exposições e feiras só têm um formato, e por isso agora não conseguimos olhar para frente ou dar um passo adiante.

A tecnologia é uma delas: ela nos traz inúmeras soluções. Basta ousar e acreditar em novos formatos. Aliás, agora é o melhor momento para experimentar sem medo de errar. A meu ver, não é hora de cancelar exposições, e sim de reformatá-las. Um ótimo momento para explorar novas soluções com os artistas.

Eu posso dar um bom exemplo de ousadia do mercado criativo: enquanto todos os lançamentos de filmes foram adiados, a Universal Pictures, que já tinha gastado milhões na divulgação de sua animação, Trolls 2, resolveu lançá-la mesmo assim, só que no streaming, cobrando algo em torno de 20 dólares por 48 horas de locação. E o que aconteceu? Foi um sucesso, e em poucos dias atingiu a marca de 100 milhões de dólares nas três semanas após a estreia.

E não para por aí: para quem conhece o mercado do cinema sabe bem que se esse lançamento fosse exibido, $50 milhões ficariam para o estúdio e os outros $50 milhões para a exibidora. Mas no streaming é diferente: ficam 20% para a plataforma e 80%, para o estúdio. Isto é, um modelo muito mais atrativo para os estúdios, mas infelizmente avassalador para as salas de cinema. Mas vejam como a ousadia pode mudar o modelo de negócios dos estúdios.

Por isso, aceitar o momento atual e se comprometer a reconsiderar paradigmas é o primeiro passo para se chegar ao entendimento do que é uma exposição de arte no mundo atual, como podemos reformatar uma exposição em uma era de pandemia e, depois, pós-pandemia. O desafio é que não sabemos ainda o que virá. Isso é um fato. Então já temos que planejar o agora e o depois considerando que o contato social será mínimo daqui pra frente.

Outra problemática que sempre vi nas galerias e nos artistas é a falta de investimento em comércio eletrônico. Poxa, e-commerce já existe há quase 20 anos! Os principais leilões do país vendem mais pela Internet do que no evento presencial. É hora então de sair dessa letargia de que não dá para realizar vendas de artes pela Internet.

Talvez há quem pense: “É, mas ninguém compra obra cara na Internet, não quero expor valores, eu já tive um e-commerce, e não deu certo”. Lógico que não deu certo! Não era o foco, não quis experimentar produtos, não quis pesquisar ou mesmo buscar empresas do mercado digital para se relacionar comercialmente. Aliás, alguém se profissionalizou para gerenciar o comércio eletrônico?

Eu sou pioneiro no mercado das artes pela Internet e, como tal, deveria ter sido procurado algumas vezes por interessados em meu negócio. Durante 14 anos isso aconteceu apenas duas vezes, mesmo sabendo que eu sou um termômetro do que empresas do meu nicho estão pensando, prospectando. Enfim, em todos os outros mercados, as empresas pioneiras são procuradas por empresas maiores quando querem atuar em determinada área que não dominam. É uma regra básica do mercado, apesar de, no caso das artes, eu sempre sentir uma resistência enorme pelas vendas on-line.

Mas agora todo mundo vai fazer venda on-line. E uma coisa terá que mudar: as galerias terão que inventar formas de deixar seus produtos atrativos para oferecê-los digitalmente, seja pelo whatsapp, pelas redes sociais ou por e-mail. E nesse sentido não há que se ter medo, pois eu não acredito que as vendas irão parar, somente que irão diminuir drasticamente, porque ninguém se preparou pro meio digital.

Perceba que vendas on-line não precisam ser necessariamente apenas por comércio eletrônico. Temos inúmeras formas de vender digitalmente, e cabe agora analisar o melhor modelo para seu negócio. O fato é que o comércio eletrônico nunca vendeu tanto e aqui eu falo também do mercado de luxo: não houve abalo, e sim aumento nas vendas.

Por ver que ainda falta muita vontade para algumas empresas se integrarem ao mundo atual, oriento que é fundamental olhar para o futuro e se ajustar a ele para encontrar equilíbrio financeiro daqui pra frente, sejam empresas, sejam pessoas que trabalham no mercado criativo. É certo que a vida que tivemos até meados de fevereiro mudou, que o futuro chegou em março e não podemos dar passos para trás daqui em diante.

Um bom incentivo é que no mês de abril tivemos um adicional de mais de 4 milhões de novos compradores na Web. Ou seja, um mar de oportunidades para quem consegue enxergá-lo. Com relação às empresas que investiram, posso garantir que as que se prepararam para os negócios via web não sofrerão consequências tão devastadoras como as que optaram em permanecer só no ambiente off-line com uma estrutura básica de Internet. Nós acabamos de entrar na era de ouro das vendas pela Internet. E a tendência é só crescer, pois avançamos em poucos meses nessa cultura de compra, algo que talvez demorasse uns 5 anos.

Em relação às feiras de artes, percebo que é outro pilar comercial das galerias e artistas que desmoronou. Nos últimos meses todas elas foram canceladas, inclusive a consolidada SP-Arte. Outro mercado que se recusou a investir em Internet como gente grande e agora amarga consequências devastadoras financeiramente. E os problemas não são só imediatos: as feiras do primeiro semestre do ano que vem estão seriamente comprometidas financeiramente.

Falta investimento em projetos digitais e principalmente em profissionais do mercado digital inseridos no contexto das artes. Detalhe: essa falta vai trazer graves consequências para o setor.

Apesar de todo esse panorama de pessimismo no cenário artístico e cultural, eu ainda consigo enxergar que nosso mercado pode subir de nível em questões tecnológicas e comerciais.

Porque é o momento de sairmos de nossa zona de conforto, sentarmos no escritório de nossas casas e pensarmos em inovação. Procurar pessoas da área da tecnologia e perguntar “e aí, o que dá pra fazer? O que outras áreas estão fazendo?” Quer dizer, é um bom momento para pesquisar e inovar sem medo de errar.

Por isso eu acredito que muitas das soluções que iremos encontrar neste período de distanciamento social estão relacionadas à fusão de áreas. E a criatividade é uma grande aliada para isso: somente com ela conseguiremos buscar novos formatos e modelos de negócios.

 

Wilton Pedroso

Fundador da empresa Movlee Art, foi o criador do primeiro comércio eletrônico de arte no país. Atualmente se dedica ao estudo de novos modelos de negócio nas artes visuais. Um apaixonado por esportes de longa distância, hoje pratica ultramaratona de montanha e em seus momentos de ociosidade toca flauta transversal.

http://wiltonpedroso.com.br/

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