Um estudo em giz vermelho, encontrado em uma pequena coleção no norte da Itália, pode ser uma obra até agora desconhecida do pintor francês e guarda possíveis vínculos com O Velho Músico
Um desenho de uma criança agachada, executado em giz vermelho, pode acrescentar uma nova peça ao conjunto de obras conhecidas de Édouard Manet. A folha, preservada durante décadas em uma coleção particular pouco conhecida no norte da Itália, foi identificada como uma possível obra do artista pela historiadora da arte Emily Beeny, especialista em pintura e desenho franceses dos séculos XVII ao XIX. A atribuição será apresentada por Beeny e pelo historiador Francesco Baccanelli na edição de outubro da The Burlington Magazine.
A descoberta começou quando Baccanelli, pesquisador especializado em pinturas e gravuras dos séculos XVII e XVIII, visitou a coleção e se deparou com o desenho. No verso do suporte havia uma inscrição que o identificava como obra de Manet, mas o trabalho nunca havia sido analisado por um especialista. Ao receber uma fotografia enviada pelo colega, Beeny reconheceu imediatamente características que associou ao artista. “Muitas pessoas me enviam coisas que imaginam que possam ser de Manet, mas esta foi a única que me deu imediatamente uma sensação de reconhecimento”, afirmou. “Não sei quando o último desenho inédito de Manet foi descoberto, mas certamente já faz muitos anos.”
A folha mede 20,5 por 17,5 centímetros e apresenta características recorrentes nos estudos de observação realizados por Manet nas décadas de 1850 e 1860. O uso do giz vermelho remete ao interesse do pintor pelo desenho renascentista, aprofundado durante seus estudos em Florença. Beeny também aponta para elementos específicos da execução, como as transições abruptas entre luz e sombra e os dedos curtos e afilados das figuras, detalhes que considera particularmente característicos de sua maneira de desenhar. A evidência material mais significativa surgiu com uma análise ultravioleta, que revelou um carimbo de ateliê de Manet, hoje bastante apagado, no canto inferior direito.

O Velho Músico, Manet.
A identidade da criança permanece incerta. Os pesquisadores levantam a possibilidade de que seja Alexandre, um jovem contratado por Manet no fim da década de 1850 para limpar pincéis e paletas e que ocasionalmente posava para o pintor. A figura, porém, parece representar uma menina de aproximadamente seis anos. Beeny considera possível que ela seja a mesma criança retratada em uma posição semelhante e com penteado próximo na versão final de O Velho Músico, pintura em que Manet representou personagens das camadas marginalizadas de Paris. O desenho também foi quadriculado para transferência de uma composição para uma tela, embora nenhuma pintura conhecida de Manet corresponda à imagem.
A trajetória da folha reforça o caráter incomum da descoberta. Pesquisas realizadas por Beeny e Baccanelli indicam que o desenho foi vendido duas vezes durante a década de 1930, primeiro na Alemanha e depois na Suíça, sem chegar a integrar estudos acadêmicos publicados sobre Manet. Seu propósito original continua desconhecido, assim como parte de sua história anterior. A atribuição ainda deverá ser avaliada pelo Wildenstein Plattner Institute, responsável pelo catálogo raisonné definitivo do artista, e os pesquisadores esperam que a obra seja considerada para uma futura edição da publicação.

