Instalação temporária criada por Ali Eyal e David Horvitz transformou um posto de gasolina na Califórnia em uma provocação sobre guerra, petróleo e identidade nacional
Enquanto a 61ª Bienal de Veneza movimenta o circuito internacional de arte com seus pavilhões oficiais e representações nacionais, uma intervenção paralela realizada a milhares de quilômetros da cidade italiana chamou a atenção da imprensa especializada. Em Venice, bairro litorâneo de Los Angeles que compartilha o mesmo nome da célebre cidade italiana, o artista iraquiano Ali Eyal apresentou Welcome to Iraq, um projeto concebido como um “pavilhão iraquiano não oficial”, instalado por apenas um dia em um posto da rede Chevron. A ação foi organizada pelo artista David Horvitz e ganhou destaque em reportagem publicada pelo portal Hyperallergic.

Ali Eyal via Instagram @alieyalnostudio
Nascido em Bagdá e atualmente radicado em Los Angeles, Eyal utilizou elementos autobiográficos para abordar as consequências da guerra e da dependência global do petróleo. A instalação incluía galões pintados, um antigo aparelho de televisão com inscrições em árabe e pequenos desenhos vendidos aos visitantes. O artista relembrou a infância durante a ocupação norte-americana do Iraque, período marcado por escassez de combustível e frequentes apagões. Segundo Eyal, as pequenas velas representadas nos desenhos remetem à única fonte de iluminação disponível para sua família quando a energia elétrica falhava. A escolha de um posto de gasolina como cenário reforçou a crítica às relações entre recursos energéticos, conflitos geopolíticos e memória coletiva.

Ali Eyal via Instagram @alieyalnostudio
O projeto também dialoga com a ausência de um pavilhão oficial do Iraque na Bienal de Veneza desde 2019. Ao criar uma representação simbólica e não institucional do país, Eyal e Horvitz lançam um olhar irônico sobre os mecanismos de representação nacional presentes nas grandes exposições internacionais. O título Welcome to Iraq recupera ainda o nome do pavilhão iraquiano apresentado na edição de 2013 da Bienal. Entre a sátira e a reflexão política, a iniciativa converteu uma esquina comum da Califórnia em um espaço de debate sobre pertencimento, deslocamento e os impactos duradouros das guerras que moldaram o Oriente Médio nas últimas décadas.


