Cronista J. Carlos tem sua obra explorada em formato digital 3D pela Danielian Galeria

Capa para a Revista Para Todos

A exposição J.Carlos – Além do Tempo, com 84 desenhos do  artista e cronista, em um conjunto inédito para o público, reunido pelo curador Rafael Peixoto abre na Galeria Danielian em formato virtual 3D.

Veja mais informações sobre a mostra e Live com o curador no dia 8/8 AQUI.

Acesse a exposição virtual a partir do dia 8/8 as 17h AQUI.

A mostra cobre o período de 48 anos da produção de J. Carlos (1884-1950), como ficou conhecido José Carlos de Brito e Cunha. Para selecionar as obras da exposição, o curador Rafael Peixoto mergulhou nas 300 obras do acervo que pertenceu a Carlos Alberto de Brito e Cunha, neto do artista. “J. Carlos atuou como um cronista visual, traçando os jogos políticos, as dicotomias sociais, e as nuances dos primeiros 50 anos de república no Brasil, temperados por um senso de humor ácido, debochado e crítico”, conta o curador.

Dividida em cinco segmentos – “As capas”, “A política”, “A sociedade”, “A revista” e “Les femmes”, veja abaixo:

Segmentos

AS CAPAS

Capa para a Revista Fon Fon

O crescimento do número de publicações nos primeiros anos da República acompanhou um movimento de modernização da sociedade e uma concentração da população nos centros urbanos. Durantes quase cinco décadas de produção, J. Carlos contribui com a maioria das revistas desse período, mas foi nas capas onde mais elaborou suas composições. Soube adequar a relação entre o público-alvo e os perfis editoriais, alcançando grande alcance popular. Em publicações como “O Malho” e “Careta”, marcadas por seu posicionamento político, apresentou um relato ácido e crítico pertinente aos conflitos bélicos da primeira metade do século XX. Em contrapartida, nas revistas de variedades como a “Fon Fon” e a “Para Todos”, pode-se observar uma maior leveza: na primeira a tendência de um perfil anedótico inspirado na vida cotidiana da cidade e na segunda um verdadeiro Olimpo de figuras femininas, em composições envoltas em uma atmosfera sensual e onírica.

A POLÍTICA

Mussolini, Caricatura politica

A periodicidade na publicação das revistas possibilitou que o conjunto da obra de J. Carlos traçasse um panorama sobre as questões inerentes ao cenário vivido entre as duas grandes guerras mundiais. Nelas, fica clara a sua posição antifascista.

No ambiente de uma ainda frágil república brasileira, o caráter de denúncia de suas obras (carregadas de deboche e sarcasmo) estimulou a reflexão de nossa sociedade pouco habituada à política, fundamentada em bases democráticas instáveis e constantemente ameaçada por dinâmicas de privilégios e por episódios ditatoriais, como foi o exemplo da Era Vargas.

A precisão do seu traço e sua aguda observação fizeram com que muitas vezes seus desenhos alcançassem inclusive repercussão internacional. As suas charges e caricaturas são, portanto, uma fonte para o entendimento histórico desse período tão conturbado.

A SOCIEDADE

Baile de Carnaval, Revista para todos

Os eventos do final do século XIX no Brasil, como a república e o processo de abolição da escravatura, geraram um verdadeiro cabo de guerra em nossas estruturas sociais. De um lado, o protagonismo de uma crescente burguesia mercantil e industrial; e, de outro, um grande contingente populacional que se vê obrigado a buscar a sua subsistência sem qualquer amparo governamental. O adensamento da malha urbana e o desenvolvimento do trabalho informal agravaram a ideia de marginalização social. A cidade transforma-se em palco de tensões e assunto para as crônicas de J. Carlos. Para essa exposição foram selecionadas obras em que aparecem cenas cotidianas de ambas as partes e algumas em que esse conflito se torna o tema central.

O CARNAVAL

A imagem do Brasil como o país do Carnaval origina-se nas primeiras décadas do século e a contribuição de J. Carlos para isso foi fundamental. De forma sensível, o artista voltou seu olhar para as dinâmicas dessa festa popular, em diálogo com o modo de viver da nossa sociedade. A alegria festiva, o humor debochado e certa vontade de subversão refletem-se nos foliões, nas melindrosas e colombinas e na figura urbana do malandro. A despeito de vantagens ou desvantagens, esse imaginário nacional permeia a nossa cultura e vem sendo transformado e desenvolvido por diversos artistas até hoje.

LES FEMMES

Copacabana

Carlos tinha um fascínio pelas mulheres e criou um panteão de musas e personagens femininos. Suas charges e tirinhas revelam a dicotomia experimentada pela mulher na sociedade daquela época: a busca por independência dos padrões patriarcais em choque com uma visão sexualizada da figura feminina, que ainda hoje atravessa as nossas estruturas. A figura da Melindrosa é icônica na obra de J. Carlos. Impressa pelo artista no imaginário nacional, ao mesmo tempo em que insinua malícia e sensualidade também sugere uma libertação moral vanguardista em sua época.

O artista influenciou ainda a estética e a moda. Seus desenhos sintéticos, por vezes, inspiraram a confecção de roupas para a classe burguesa sedenta por novas tendências. Observe-se que em razão desses fatos, a produção de J. Carlos não se limitou apenas a ser crônica de um período histórico, mas sobretudo expandiu seu papel para a formação do gosto e da opinião pública.

A REVISTA

Alo Alo, A Lua e o Sol, Revista Careta, 1 de março de 1946

Carlos era autodidata e assumiu a direção artística de importantes revistas muito jovem. A falta de uma formação acadêmica, que poderia ser fator limitante, foi importante no desenvolvimento de sua liberdade criativa. Orientado por sua sensibilidade estética apurada, influenciou o design gráfico no Brasil. Como diretor artístico, criou identidades visuais que se alinhavam com o público-alvo de cada revista. Dado que contribui ao conceito de perfil editorial totalmente inovador para o ambiente brasileiro. No âmbito da diagramação, propunha soluções e recursos que ainda hoje surpreendem por seu caráter arrojado e dinâmico. Com o uso de vinhetas, elementos gráficos e capitulares, por exemplo, dotou de leveza a experiência da leitura. Na publicidade, elaborou importantes campanhas, como as da Caixa Econômica Federal e as do Cigarros Belmonte, onde chama a atenção a composição de uma cena dramática baseada em imagens domésticas e cotidianas. A concepção de diversas fontes e tipologias, ao longo de sua carreira, aproximou sua produção das principais vanguardas internacionais da época. O olhar panorâmico sobre sua obra mostra que habilidade de J. Carlos como designer ainda merece receber um olhar mais atento.

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