Conheça Bruna Pessoa de Queiroz, presidente da “Usina da Arte”

Ancorada numa tradição cultural “artistocrática”, a família Pessoa de Queiroz revive desde 2015 uma antiga fábrica de cana-de-açúcar perto do Recife, transformando-a num parque-jardim botânico e artístico. Uma das mais belas iniciativas culturais brasileiras do momento!

Bruna Pessoa de Queiroz – FOTO Andrea Rego Barros

A Usina de Arte

Num país que relegou a Cultura a uma modesta secretaria dependente do Ministério do Turismo, com uma política que parece mais temer a Cultura do que acreditar nas suas capacidades revigorantes, a salvação vem da iniciativa privada, que há anos garante no Brasil uma vida cultural dinâmica. Hoje gostaríamos que você conhecesse e admirasse “A Usina de Arte” (inaugurada em 2015), uma grande iniciativa da família Pessoa de Queiroz no nordeste brasileiro de Pernambuco.

Arte no DNA

A presidente da Usina da Arte é Bruna Pessoa de Queiroz. Personalidade jovem e de sorriso radiante, desde o primeiro encontro, Bruna Pessoa de Queiroz dá a impressão de ter se tornado “sua nova melhor amiga”. Esta “artistocrata” casada com o seu primo Ricardo (que nas horas vagas também é artista) pertence, portanto, mais do que ninguém a esta família dinástica nordestina, para quem a arte e a cultura são como uma segunda pele. Seu bisavô embaixador tinha, entre outras obras, uma das mais importantes coleções do pintor holandês Frans Post (1612-1680) cujas pinturas são testemunhos únicos da vida dos colonizadores portugueses e das paisagens brasileiras. Sua família também tem semelhança com os famosos irmãos Brennand, Francisco, cujo incrível museu-oficina pode ser visitado perto de Recife, e Ricardo, cujo castelo-instituto vizinho contém uma das mais preciosas coleções brasileiras de antiguidades e arte milenar. Deixaremos de listar a árvore genealógica dessa família, indicando que também são parentes de Nara Roesler, cuja galeria é uma das maiores do Brasil com filial em Nova York.

Reativada pela arte, a Usina Santa Terezinha está relançando um novo ciclo de desenvolvimento em uma região localizada a cerca de 100 quilômetros de Recife.

O projeto “A Usina da Arte” é um símbolo de renovação, um incrível ato de resistência à resignação do passado, que dá novas perspectivas a esta antiga fábrica de açúcar cujas atividades cessaram em 1998. Esta última abriga hoje um parque artístico e privilegiado da botânica. Uma nova forma de ocupação ambiental, econômica e cultural da região. Pertencente à família Pessoa de Queiroz, começou a operar em 1929. Bruna lembra que nos anos 1950 a fábrica era a maior produtora de álcool e açúcar do país. Localizada no município de Água Preta, Zona da Mata Sul de Pernambuco, a fábrica possuía ferrovia própria, com cerca de 100 quilômetros de linha, 21 locomotivas e mais de cem vagões, utilizados para o transporte de cana-de-açúcar, açúcar e álcool. Atingida por uma grave crise, teve que fechar. Quase duas décadas depois, esse triste cenário de falência dá lugar a uma paisagem artística tão efervescente quanto emocionante.

Um projeto completo que vai da botânica à arte e à educação

A antiga fábrica foi transformada em um projeto com uma sucessão de oficinas e salas de aula, em diálogo com a flora e a fauna locais. Foi criado um projeto internacional de residência artística (artes visuais e literatura), com a produção de obras que interagem diretamente com o ambiente da antiga fábrica. Paralelamente, foram iniciados os trabalhos de reflorestamento e recuperação de habitats silvestres da região, com o objetivo de reverter o desgaste sofrido por décadas de uso do solo com plantações de cana-de-açúcar. O parque botânico de arte, que possui cerca de 5.000 espécies distintas. Não é apenas um jardim de esculturas, mas um espaço de vivências e interações com um festival anual de música e programa educacional para alunos de escolas locais. Bruna não para de listar as numerosas atividades, em um entusiasmo comunicativo. Neste artigo, estamos apenas focando na parte artística.

A inteligência de ‘tudo é sempre possível’

O que é importante entender é que este projeto é fruto de uma paixão familiar que os fez mergulhar de novo na arte contemporânea. Com eles, nada é escrito com antecedência. Tudo continua em aberto e os – bons – encontros ditaram os primeiros passos deste projeto que em menos de cinco anos já conseguiu reunir cerca de trinta obras, principalmente produzidas no local. Como veremos mais tarde, não existe preconceito e por isso os projetos mais “arrepiantes” podem encontrar espaço. Na Usina da Arte você pode experimentar de tudo sem limite de tempo e tudo bem se não conseguir montar uma proposta de imediato devido às suas dificuldades ou se a obra for efêmera como uma performance. O que importa é o diálogo. Se os artistas convidados têm total liberdade criativa, a cultura sucroalcooleira permeia grande parte das reflexões e questionamentos oferecidos por seus trabalhos. Muitos enfocam os ciclos, métodos de trabalho, máquinas, vocabulário e arquitetura da indústria canavieira. Mas nesta terra de liberdade, isso nunca é uma condição sine qua non.

Um projeto que tem ritmo próprio

Não há pavilhão, apenas obras que interagem com o meio ambiente e estão espalhadas pelos 33 hectares do local. Mesmo que haja pequenos carros de golfe para levá-lo ao entorno, é bom permitir dois dias de passeios turísticos. Bruna gosta da ideia de que você vivencie pelo menos um pôr do sol ali. Faz parte da experiência e da delicadeza de sua apresentação. O artista plástico José Rufino (1965-) foi até 2019 o diretor artístico e a fábrica possui convênio de parceria com o MAMAM do Recife. Caso contrário, o projeto permanece “família” e sabe captar com muita inteligência as oportunidades que surgem. Assim, um encontro casual na Bienal de Veneza com Lorenzo Fiaschi da galeria Continua permitiu que em breve possamos ver a obra ‘Jardim Fragil ’do artista cubano Carlos Garaicoa (1967-).

Nascimento de residências de artistas

O programa de residências criado em 2013 foi o ponto de partida para a criação da fábrica de arte. As primeiras obras foram do grande designer Hugo França (1954-) com as suas esculturas-bancadas realizadas a partir de troncos de árvores condenadas. O projeto foi formalmente estruturado em 2015, após Bruna conhecer o artista plástico José Rufino, com quem têm uma paixão comum pelas plantas. Ele, que manteve o espírito “flexível” desejado pela família, confidencia: “Eu estava focado em indicar um caminho conceitual. Mas um projeto de residências, festivais e diversas ações educativas e culturais surgiu de forma muito livre e largamente baseada em contatos, colaborações em nomeações de artistas, em particular com Hugo França e Fábio Delduque (artista e realizador de festivais), tal como o do MAMAM de Recife”.

Primeiros conceitos

José Rufino nos conta os primeiros passos da Usina de Arte: “Minha ideia partiu de conceitos de escultura social (Joseph Beuys), estética relacional (Nicolas Bourriaud), objetos relacionais (Lygia Clark), Arte Útil, arte útil em contraste com a arte pela arte (Tania Bruguera e experiências do Queens Museum, Van Abbemuseum e Grizedale Arts), Simpoiesis (Donna Haraway) e outras experiências-conceito de arte social engajadas. Portanto, não pensei muito nas obras, mas principalmente nas experiências entre os artistas e a comunidade. O primeiro convidado foi Carlos Mélo, que se envolveu na vila de Santa Teresinha e, no final, fez um show com a participação de moradores locais. Depois, Daniel Acosta e Lais Myrrha, cujos projetos ainda não foram concluídos, mas cujas experiências locais foram importantes para a gestão das residências e tipologias de obras no parque da Usina da Arte”. Sublinhamos aqui o incrível diálogo que a família Pessoa de Queiroz tem conseguido desenvolver com Rufino, que traduz perfeitamente as suas expectativas.

O início de um projeto onde as diferentes disciplinas são interativas e mostram a cultura local.

Com o cheque em branco da família e por afinidade com a própria trajetória poética, em particular com a poesia visual e a arte postal, José Rufino se dedicou à construção de um espaço mais voltado para as experiências linguísticas e os legados pernambucanos e nordestinos. Vanguarda. Um espaço, no rés-do-chão da atual Biblioteca Usina, foi pensado para exposições e eventos destinados a professores da região, de forma a oferecer ferramentas de exploração linguística e sensorial às suas aulas. Assim foi a primeira exposição de Paulo Bruscky (1949-), seguida da mostra do artista uruguaio Clemente Padín (1939-).

Um projeto que vai contra a política governamental

Haveria muito a dizer e, infelizmente, não podemos nos alongar sobre todas as obras deste notável parque de esculturas. O que queremos destacar hoje é a incrível audácia de ter inaugurado há poucas semanas a obra chocante e avassaladora (no bom sentido das palavras) da artista Juliana Notari (1975-). Isso define o ritmo para um projeto dinâmico, ousado e generoso. Diva é uma escultura em concreto de 33 metros de comprimento, 16 de largura e seis de profundidade, pintada em resina vermelho fogo, colocada na encosta de uma colina suave que torna a obra visível a grande distância. Ela parece ser a vulva de uma mulher. A obra destaca questões relacionadas à poesia da artista, que desde 2003, tem se voltado para a anatomia feminina e busca suscitar debates em torno dos tabus sexuais impostos às mulheres. Mas as possibilidades de interpretação da obra também se abrem para outros campos, como a exploração da terra pelo capitalismo. [Veja a coluna de Marc Pottier sobre a obra].

Concluindo, é bom ver que no Brasil, graças à presença da sociedade civil e de projetos como A Usina da Arte, a Cultura está longe de estar morta e continua vivendo bem. A Usina da Arte já é um projeto muito substancial. Lançado em novembro de 2015, ainda está em sua infância. O futuro parece promissor e as chegadas de uma escultura de Saint-Clair Cemin (1951-) ou “Anfiteatro Botânico” de Thiago Rocha Pitta (1980-) já estão no horizonte. A Usina da Arte é em si um destino que vale a pena conhecer. Os sorrisos de Bruna e Ricardo Pessoa de Queiroz esperam por você. Tantos bons motivos para estar feliz e descobrir o Nordeste do Brasil! Para saber mais: o melhor é ir!

Infelizmente o site ainda não foi atualizado: http://usinadearte.org/

Lista de artistas: Marcio Almeida, Frida Baranek, Joan Barrantes, Seu Barrau, Paulo Bruscky, Saint-Clair, Cemin, Flavio Cerqueira Liliane Dardot, Bruno Faria, Bené Fonteles, Hugo França, Carlos Garaicoa, Iole de Freitas, Vadim Karchenko, Georgia Kyriakakis, Arthur Lescher, Vanderley Lopes, Paulo Meira, Denise Milan, Juliana Notari, Ricardo Pessoa de Queiroz, Thiago Rocha Pitta, José Rufino, S. Shigley, Marcelo Silveira, José Spaniol, Ronaldo Tavares, Carlos Vergara, Julio Villani

Para saber mais sobre o primeiro artista curador: http://www.joserufino.com/ e @institutojoserufino

O B & C Club está organizando um Webinar com Bruna Pessoa de Queiroz no dia 4 de maio. Para conhecer o B & C Club, clique aqui.

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