Como Julio Le Parc transformou luz e movimento em uma das revoluções visuais do século XX

Créditos: Kaloian / Ministerio de Cultura de la Nación, CC BY-SA 2.0 , via Wikimedia Commons

Morto aos 97 anos em Paris, o artista argentino deixa um legado que redefiniu a relação entre obra, espaço e espectador, influenciando gerações de criadores ao redor do mundo

A arte contemporânea perdeu um de seus grandes arquitetos da percepção. Morreu em Paris, aos 97 anos, o artista argentino Julio Le Parc, figura central da arte cinética e óptica internacional, responsável por transformar luz, cor e movimento em experiências imersivas que mudaram profundamente a forma como o público se relaciona com a obra de arte. A notícia foi confirmada por familiares e instituições ligadas ao artista, que enfrentava um progressivo agravamento de seu estado de saúde nos últimos anos. Radicado na França desde 1958, Le Parc construiu uma trajetória que atravessou mais de seis décadas de experimentação e reconhecimento internacional.

Nascido em Mendoza, na Argentina, em 1928, Le Parc teve uma infância marcada por dificuldades econômicas antes de iniciar sua formação artística em Buenos Aires. Após conquistar uma bolsa de estudos, mudou-se para Paris, onde encontraria o ambiente ideal para desenvolver uma pesquisa que desafiava os limites tradicionais da pintura e da escultura. Em 1960, tornou-se um dos fundadores do Groupe de Recherche d’Art Visuel (GRAV), coletivo que defendia uma arte participativa, acessível e capaz de romper a passividade do espectador. Seus relevos luminosos, instalações suspensas e ambientes interativos transformaram a percepção em matéria artística, fazendo do visitante um elemento ativo da obra.

O reconhecimento global veio em 1966, quando recebeu o Grande Prêmio Internacional de Pintura da Bienal de Veneza, distinção que consolidou seu nome entre os principais artistas de sua geração. Desde então, suas obras passaram a integrar coleções de instituições como o Museum of Modern Art, o Centre Pompidou e a Tate Modern. No Brasil, sua presença foi fortalecida por uma longa parceria com a galerista Nara Roesler, que apresentou exposições do artista em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York.

Julio Le Parc - Palais de Tokyo - 2013

Julio Le Parc – Palais de Tokyo – 2013

Mesmo nos últimos anos, Le Parc manteve intensa atividade criativa. Entre seus projetos recentes estavam experiências digitais e uma grande retrospectiva panorâmica, Julio Le Parc: Light. Colour. Action., cuja abertura está prevista para este mês na Tate Modern. Segundo familiares, o artista acompanhava com entusiasmo os preparativos da mostra, que agora ganha contornos de homenagem póstuma. Defensor incansável da participação do público e da democratização da experiência artística, Le Parc deixa uma obra que continua a desafiar certezas e a expandir os limites da percepção visual.

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