O mercado de arte contemporânea passou a ocupar posição central em uma das mais expressivas disputas judiciais do setor imobiliário canadense. O processo que envolve a incorporadora Coromandel Properties, sediada em Vancouver, ganhou novos contornos depois que obras de artistas como Jean-Michel Basquiat, George Condo e Rashid Johnson foram apontadas como parte de um suposto esquema de desvio de recursos. A ação, que será analisada pela Suprema Corte da Colúmbia Britânica, concentra alegações de fraude, gestão irregular de investimentos e aquisição de uma coleção de alto valor com dinheiro destinado a empreendimentos imobiliários.
A disputa teve início em 2023, quando o investidor chinês Junchao Mo, ao lado de seus filhos Zhao Ming, conhecido como Robert Mo, e Zi Hao, chamado de Calvin Mo, ingressou na Justiça contra Jerry Zhong, então diretor executivo e coproprietário da Coromandel Properties. Segundo os autores da ação, mais de US$ 100 milhões (R$ 514 milhões) foram investidos em projetos imobiliários na região de Vancouver sob a promessa de aplicação direta nos empreendimentos. Em vez disso, os recursos teriam sido direcionados para compras de imóveis, constituição de um fundo de uso pessoal e aquisição de um conjunto de 14 obras de arte avaliado em aproximadamente US$ 4,9 milhões (Aproximadamente R$ 25 milhões). Zhong rejeita todas as acusações apresentadas no processo.
Os documentos judiciais sustentam que a coleção de arte também teria servido como garantia para a obtenção de uma linha de crédito de até US$ 2,4 milhões (Cerca de R$ 12 milhões), em um momento em que a incorporadora já enfrentava grave deterioração financeira. Com uma dívida estimada em cerca de US$ 497 milhões (Aproximadamente R$ 2,5 bilhões), a Coromandel Properties atravessava dificuldades enquanto, segundo os autores da ação, os recursos captados continuavam sendo utilizados em benefício pessoal do executivo. O processo ainda afirma que Junchao Mo, residente fora da Colúmbia Britânica, havia delegado a Zhong a administração de seus interesses comerciais no Canadá, estabelecendo uma relação baseada em elevado grau de confiança.
Outro elemento que amplia a complexidade do caso é o paradeiro desconhecido da coleção. Das 14 peças adquiridas, 12 pinturas e duas esculturas permanecem desaparecidas. Entre elas estão quatro obras de Jean-Michel Basquiat, quatro de Javier Calleja e trabalhos assinados por George Condo, Rashid Johnson, Sam Gilliam, Tania Marmolejo, Tammi Campbell e Jordy Kerwick. As aquisições teriam sido realizadas por meio do Centre of International Contemporary Art Vancouver e da Talisman Gallery, instituições que aparecem vinculadas às transações mencionadas nos autos.
O caso voltou recentemente aos holofotes após decisão judicial que autorizou a reunião de três processos ativos contra Jerry Zhong em um único julgamento, medida que poderá acelerar a análise das acusações e consolidar as provas apresentadas pelas diferentes partes. O episódio também lança nova luz sobre a trajetória da Coromandel Properties, empresa que, antes do colapso financeiro, buscava associar sua imagem ao circuito cultural de Vancouver ao patrocinar exposições de grande repercussão na Vancouver Art Gallery, incluindo mostras dedicadas a Claude Monet, em 2017, e Takashi Murakami, no ano seguinte. Agora, o prestígio construído por meio do apoio às artes divide espaço com uma investigação que une mercado imobiliário, finanças e obras de alguns dos artistas mais valorizados da produção contemporânea.


