Uma das mais significativas coleções de objetos ligados a Napoleão Bonaparte já ofertadas em leilão movimentou €8,7 milhões (cerca de US$ 9,6 milhões) na sede da Sotheby’s em Paris, na última quarta-feira. Composta por 112 lotes — entre pinturas, mobiliário imperial e artefatos pessoais —, a venda superou amplamente a estimativa inicial de €6 milhões, refletindo o fascínio contínuo em torno da figura do imperador francês. A coleção pertencia ao célebre antiquário Pierre-Jean Chalençon, conhecido como o “colecionador mais famoso da França”, que teria sido forçado a liquidar parte de seu acervo para quitar uma dívida de €10 milhões.
Entre os destaques estavam o único fragmento remanescente do primeiro testamento de Napoleão, escrito durante seu exílio em Santa Helena em 1819, arrematado por €482.600, e uma poltrona imperial de madeira dourada vendida por €406.400. Mas foi o retrato do imperador por Jean-Baptiste Mauzaisse — inspirado em Jacques-Louis David — que mais surpreendeu, atingindo €863.600, vinte vezes seu valor estimado e estabelecendo um novo recorde de leilão para o artista. Já o icônico chapéu bicorne de Napoleão, tido como uma das peças centrais da venda, ficou aquém das expectativas, arrecadando €355.600, abaixo da estimativa mínima de €600.000, envolto em polêmicas sobre sua autenticidade.

Jean-Baptiste Mauzaisse, Bonaparte franchissant le Grand-Saint-Bernard, arrematado por €863.600. Imagem cortesia da Sotheby’s.
Peças íntimas como meias, camisa, roupa de baixo e uma gravata de seda branca usadas pelo imperador também foram leiloadas, atingindo €133.350. “Esse conjunto de vestuário oferece uma conexão visceral com o homem por trás do mito”, comentou Louis-Xavier Joseph, diretor de mobiliário e artes decorativas da Sotheby’s Paris. “A intensa disputa entre compradores presenciais e por telefone demonstra tanto a força de sua procedência — vinda diretamente da oficina de seu alfaiate — quanto o poder de evocar a dimensão humana de uma figura histórica monumental.”
A Sotheby’s recordou que já havia leiloado a biblioteca pessoal de Napoleão em Londres, em 1823, apenas dois anos após sua morte — numa coincidência simbólica, a mesma quantidade de volumes levados para Santa Helena (112) corresponde agora ao número de lotes vendidos. No encerramento da venda, uma reviravolta dramática: seis indivíduos não identificados, portando pastas com brasões do Ministério da Fazenda francês, anotaram os valores dos lotes e, segundo o jornal Le Figaro, solicitaram a apreensão dos lucros. O episódio reforça o tom novelesco que envolve a figura de Napoleão — como bem definiu a própria casa de leilões, uma narrativa “entre campos de batalha e câmaras íntimas, poder e fragilidade, sempre capaz de capturar a imaginação do mundo”.


