Obra coletiva de 7 metros foi apresentada no Capitólio de Minnesota como protesto contra ações do ICE e mobilizou mais de cem participantes
Uma colcha de 7 metros de comprimento tomou o espaço central do Capitólio de Minnesota em 22 de setembro. Batizada de Stolen Neighbors, a obra reúne cerca de 11 mil quadrados de tecido, cada um associado a uma pessoa que, segundo os organizadores, foi detida ou desapareceu em operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) no estado. O trabalho foi produzido ao longo de cinco meses por mais de cem voluntários.
A iniciativa foi organizada pelo Minnesota Immigrant Rights Action Committee (MIRAC) e nasceu depois da chamada Operation Metro Surge, operação que mobilizou mais de 3 mil policiais e agentes do ICE em Minnesota. Segundo os ativistas, três pessoas foram baleadas por agentes durante o período, entre elas Renee Nicole Good e Alex Pretti, mortos durante protestos em Minneapolis. O venezuelano Julio Cesar Sosa-Celis foi atingido na perna e sobreviveu. Para Owen Lubozynski, integrante do MIRAC e responsável pela concepção da colcha, a obra surgiu como uma maneira de impedir que a violência fosse absorvida pela rotina. “Queria criar uma representação visual de cada vizinho roubado, algo impossível de ignorar”, afirmou ao Hyperallergic.

Foto: Minnesota Immigrant Rights Action Committee
A estrutura da obra remete diretamente à tradição norte-americana das colchas de protesto, sobretudo à AIDS Memorial Quilt, criada para preservar a memória das vítimas da epidemia de HIV/AIDS. Lubozynski iniciou o projeto em abril, utilizando tecidos doados por estabelecimentos locais e organizando encontros de costura nas Twin Cities. A mobilização, entretanto, rapidamente ultrapassou Minnesota. Painéis foram enviados por participantes de Nebraska, Montana, Califórnia, Carolina do Sul, Washington e Flórida, enquanto o Minnesota Textile Center funcionou como ponto de coleta e distribuição das peças.
A construção também envolveu crianças e adolescentes. Em julho, a equipe do Stolen Neighbors promoveu uma oficina em parceria com a organização Art Buddies durante o programa de verão da Whittier International Elementary School. Estudantes produziram ilustrações para os quadrados da colcha, incluindo referências às comunidades atingidas pelas operações do ICE. Outros painéis foram dedicados nominalmente a pessoas específicas, como Victor Manual Diaz, imigrante de Minnesota que, segundo os organizadores, foi sequestrado pelo ICE e morreu em circunstâncias consideradas suspeitas enquanto estava detido em uma instalação no Texas. Como muitas histórias permanecem desconhecidas, diversos quadrados trazem apenas identificações como “Mother”, “Daughter”, “Son” e “Father”.
A apresentação no Capitólio exigiu uma mudança no plano original. A ideia era desenrolar a colcha sobre o mezanino, mas suas dimensões poderiam atingir luminárias do edifício. Os integrantes do MIRAC então a abriram horizontalmente sobre o piso da rotunda, enquanto entoavam “stand up, fight back”. Durante o ato, os ativistas também pediram ao governador de Minnesota, Tim Walz, uma ordem executiva que impeça departamentos policiais do estado de colaborar ou prestar apoio a agentes do ICE. “O Capitólio pareceu o lugar certo para apresentar essa denúncia visual de sua inação e pedir coragem política”, disse Lubozynski.

Colcha feita por voluntários em homenagem a pessoas detidas pelo ICE em Minnesota.
O projeto permanece aberto à expansão. Os organizadores afirmam que o número de pessoas representadas na obra pode aumentar à medida que novos casos sejam identificados. “À medida que os sequestros continuam, de forma revoltante, talvez tenhamos de acrescentar mais quadrados”, afirmou Lubozynski.


