Quase meio século depois de desaparecerem sob sucessivas camadas de tinta branca, dois murais monumentais do artista chileno Julio Escámez começam a recuperar seu espaço na história. Escondidas desde os primeiros anos da ditadura de Augusto Pinochet, as obras estão sendo cuidadosamente reveladas por especialistas da Unidade de Patrimônio da Prefeitura de Chillán, no centro-sul do Chile. A expectativa das autoridades é concluir a primeira etapa do trabalho até dezembro de 2027, devolvendo ao público um conjunto artístico que durante décadas foi considerado definitivamente perdido.
A trajetória dos murais acompanha um dos períodos mais turbulentos da história chilena. Encomendadas em 1969 pelo então prefeito Eduardo Contreras Mella, integrante do Partido Comunista, as pinturas ocuparam o Hall de Honra da prefeitura após mais de dois anos de execução e foram inauguradas em junho de 1972. Concebidas para dialogar com o pé-direito duplo do edifício, as obras receberam os títulos O Princípio e O Fim e sintetizavam a visão social e humanista de Escámez, profundamente influenciado pelo muralismo mexicano de Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros, artistas que transformaram a pintura pública em instrumento de reflexão política e identidade coletiva.
A narrativa visual construída pelo artista percorre diferentes dimensões da experiência humana. Em um dos murais, trabalhadores aparecem submetidos à exploração das elites até alcançarem sua emancipação por meio da organização e da união popular. No outro, um grupo de mulheres observa o horizonte através de um telescópio, imagem que projeta uma convivência mais equilibrada entre sociedade, conhecimento e universo. A combinação entre crítica social, monumentalidade e simbolismo tornou o conjunto uma das mais ambiciosas intervenções artísticas realizadas em edifícios públicos chilenos naquele período.
A mudança de cenário político interrompeu bruscamente essa trajetória. Após o golpe militar de 1973, que derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, Julio Escámez partiu para o exílio na Costa Rica, onde viveu até o fim da vida. Enquanto o artista reconstruía sua carreira longe do país, os murais da prefeitura de Chillán foram cobertos por sucessivas intervenções de censura, desaparecendo da vista pública e alimentando a crença de que haviam sido destruídos. Somente em 2021, durante um projeto municipal de pesquisa patrimonial, vestígios das pinturas foram localizados sob diversas camadas de tinta, reabrindo a possibilidade de recuperar um patrimônio artístico que parecia irrecuperável.
Desde então, a restauração avança em ritmo meticuloso. O trabalho exige a remoção manual de até doze camadas de tinta branca antes do início das intervenções de conservação propriamente ditas, processo que demanda precisão técnica para preservar a superfície original. Neste mês, quatro novos especialistas passaram a integrar a equipe responsável pelo projeto, reforçando a capacidade de execução da iniciativa. Para o prefeito Camilo Benavente, a ampliação do grupo representa um passo decisivo para devolver à cidade uma obra que transcende seu valor estético e se tornou testemunho material de um período complexo da história chilena, reafirmando o papel da preservação patrimonial como instrumento de reconstrução da memória coletiva.


