Mostra reúne artistas brasileiros e estrangeiros para investigar o clima, o mito e as forças que moldam um planeta em crise
Em 1933, o geógrafo Reinhard Maack instalou uma estação meteorológica em plena selva paranaense. Ao lado de sua esposa, a pesquisadora Margarete Neussel, registrava diariamente pressão, temperatura e ventos para entender a “respiração do planeta”.
Quase um século depois, a exposição Céu-Eclipse, no MUPA (Museu Paranaense), retorna a esse legado para refletir sobre a situação crítica da Terra, tomando o céu — esse espaço entre ciência, mito e poder — como território sensível e em permanente negociação.
Pensada como laboratório especulativo, a mostra não oferece respostas prontas. Em vez disso, convida o público a atravessar obras que expandem os limites da imaginação e tratam a arte como aliada na elaboração simbólica da crise climática. Ao longo do processo, o Museu contou com a consultoria da cientista Marina Hirota, da filósofa Déborah Danowski e do artista e xamã yanomami Sheroanawe Hakihiiwe, reunindo saberes fundamentais para escutar o céu como entidade viva.

Foto: Vitor Dias/Mar Aberto Produtora. Cedidas pelo Museu Paranaense.
A MOSTRA
Céu-Eclipse articula diferentes temporalidades e linguagens para refletir sobre o clima como campo de forças — físico, cosmológico e político.
Entre fotografias, instalações, performances, desenhos e esculturas, o percurso apresenta obras que assumem a atmosfera como matéria, medem o ar, convocam ventos, invocam trovões e criam dispositivos sensíveis de relação com o planeta.
A fotografia histórica de Davi Kopenawa e Ailton Krenak, realizada após um raio chamado pelo xamã durante as celebrações da homologação da Terra Indígena Yanomami, abre o conjunto com uma imagem ambígua: um arco-íris que é ao mesmo tempo bênção e perigo. A equivalência entre meteorologia e cosmologia percorre toda a exposição — lembrando que o que chamamos de “clima” ou “tempo” envolve não apenas medições, mas também forças invisíveis operadas por outras gramáticas e outros modos de viver.
No coração da mostra está Temporali, instalação de Alberto Garutti cujas lâmpadas acendem sempre que um raio atinge o território italiano. O Museu torna-se, assim, estação sensível à eletricidade global, conectando diferentes céus em um único circuito.

Temporali, instalação de Alberto Garutti. Foto: Vitor Dias/Mar Aberto Produtora. Cedidas pelo Museu Paranaense.
Outros trabalhos investigam a relação entre corpo e escala planetária:
— Francis Alÿs corre em direção ao centro de um redemoinho de poeira;
— Guido van der Werve caminha diante de um navio quebra-gelo no Ártico;
ambos gestos que testam o limite da presença humana diante das forças naturais.
Na obra de Erika Verzutti, o vento se inscreve diretamente na escultura, inclinando ou tombando peças que parecem responder a turbulências invisíveis.
Flora Leite cria um risco quase imperceptível formado por abelhas — um relógio movido por saberes não humanos.
Na pintura de Laís Amaral, camadas são escavadas até que a luz emerge de dentro da matéria, como um “céu subterrâneo”.

Flora Leite, o trabalho das horas, 2025. Foto: Vitor Dias/Mar Aberto Produtora. Cedidas pelo Museu Paranaense.
Já Marcelo Conceição recolhe objetos pelas ruas do Rio de Janeiro — rolhas, varetas, bijuterias, madeiras — para recompor estruturas leves que flutuam no ar, como se contivessem ainda resíduos das forças que os moveram.

Obra de Marcelo Conceição. Foto: Vitor Dias/Mar Aberto Produtora. Cedidas pelo Museu Paranaense.
Sheroanawe Hakihiiwe traduz céu e floresta em tramas gráficas de extrema sutileza, articulando cosmologia e natureza em um vocabulário próprio.
A mostra inclui ainda obras de caráter duracional, como o concerto inédito de Arto Lindsay, focado em ecos e interferências celestes, e a performance da atriz Aivan (Grupo Mexa), que reinterpreta Carmelo Bene e Brecht à luz do presente.
OS ARTISTAS
A exposição reúne um conjunto potente de artistas brasileiros e internacionais, entre nomes consagrados e vozes emergentes, em diálogo com: clima e instabilidade atmosférica; cosmologias indígenas e modos de escutar o mundo; temporalidades longas da Terra; o sublime e o risco; o corpo como instrumento de escala planetária; materialidades precárias e poéticas do ar; gestos de medição, registro, observação e invocação.
A pluralidade de perspectivas faz de Céu-Eclipse um observatório expandido, onde cada artista oferece uma lente para compreender — e imaginar — o planeta.
Alberto Garutti
Foi uma das figuras de referência na cena artística italiana e internacional dos últimos 50 anos. Artista e professor, lecionou de 1990 a 1994 na Academia de Bolonha e, de 1994 a 2013, foi titular da cátedra de Pintura na Academia de Brera, em Milão. Sempre interessado em explorar os espaços e as dinâmicas de relação entre obra, espectador e instituição, transformou as formas de fazer arte pública, redefinindo radicalmente os seus processos de concepção. Suas obras são concebidas como sistemas abertos de relação, formas de encontro entre os cidadãos, os espectadores da arte e a paisagem, sutis leituras críticas do nosso presente.
Erika Verzutti
Trabalhando materiais como o papel machê, bronze, gesso, concreto, tinta acrílica, óleo e cera, a artista brasileira ocupa uma zona de contato entre a pintura e a escultura. Explora formas orgânicas em conjunto com um processo empírico de moldagem manual. As superfícies de suas esculturas são frequentemente rugosas, riscadas, escavadas e recortadas. Sua prática encontra um intercâmbio entre propriedades materiais e carga simbólica, reprocessando tanto a escultura modernista quanto a construção vernacular. A rede de alusão criada pelas esculturas de Verzutti produz um campo de ressonâncias entre as figuras construídas e as referências culturais que seus contornos e silhuetas evocam.
Flora Leite
Artista e pesquisadora paulista, explora diferentes linguagens e suportes para transpor seus questionamentos sobre formas e práticas cotidianas. Os materiais empregados em seus trabalhos, aparentemente simples, revelam uma complexidade reflexiva ao serem deslocados de seus usos habituais.
Francis Alÿs
De origem belga e com formação em Arquitetura, mudou-se para a Cidade do México em 1986, onde continua a viver e trabalhar, e foi o confronto com questões de urbanização e agitação social no seu país de adoção que inspirou a sua decisão de se tornar artista visual. Ao transitar entre uma ampla variedade de mídias, incluindo documentários, pinturas, desenhos, performances, animações bidimensionais e vídeos, seus trabalhos revelam uma profunda sensibilidade poética e imaginativa, permeados por questões antropológicas, geopolíticas e culturais que se entrelaçam com cenas do cotidiano de diferentes lugares do mundo.
Guido van der Werve
Artista e cineasta nascido na Holanda, foi desde criança incentivado a aprimorar habilidades musicais. Mais tarde, desenvolveu seus interesses no campo da performance e das artes audiovisuais. Performance, música, texto, esporte e cenas atmosféricas são elementos recorrentes em suas obras, caracterizadas por longas tomadas meditativas e pela recusa em trabalhar com atores.
Laís Amaral
Natural de São Gonçalo, iniciou sua carreira artística em 2017 por meio do coletivo Trovoa, discutindo questões sociorraciais e de gênero e seu impacto no campo das artes. Autodenomina-se uma “artista-artesã” e desafia as fronteiras entre arte e artesanato. Utiliza ferramentas não convencionais, como instrumentos de manicure e pentes, e questiona as noções tradicionais da abstração ocidental. Suas pinturas funcionam como narrativas visuais e empregam técnicas como camadas e raspagem de tinta preta sobre composições coloridas para revelar histórias ocultas, de forma análoga a uma escavação arqueológica.
Marcelo Conceição
Artista fluminense, autodenomina-se um garimpeiro urbano. Os materiais que compõem suas obras são carretéis, miçangas, botões, fivelas, tampas, rolhas, contas, búzios, cascas de coco, argolas de cortina, sobras de instalações elétricas e uma infinidade de outros apetrechos encontrados pelas ruas do Rio de Janeiro. A aparente leveza das composições contrasta com a densidade das articulações que ora sugerem movimentos brandos e elípticos, ora ameaçam com extremidades pontiagudas e bélicas.
Sheroanawe Hakihiiwe
Artista e xamã Yanomami, residente da comunidade indígena de Pori Pori, localizada em Alto Orinoco, na Venezuela. Seus trabalhos amparam-se na memória oral, na cosmologia e nos saberes ancestrais de seu povo. Desenvolve, por meio do desenho, uma linguagem sintética, concreta e minimalista sobre a vasta e intensa relação de sua comunidade com a paisagem que a rodeia. Essas ligações permeiam o âmbito do pessoal e do coletivo, sendo seu trabalho uma revisão contemporânea da cosmogonia e do imaginário Yanomami.
A CURADORIA
A curadoria enfatiza que o céu não pertence a uma única disciplina — ele é partilhado entre meteorologia, cosmologia, arte, política e espiritualidade.
A ponte entre os instrumentos de Maack e o maracá de Kopenawa sintetiza a proposta da mostra: aproximar diferentes modos de escuta e leitura do mundo, todos igualmente válidos na tarefa de compreender um planeta que respira, reage, adoece e se transforma.
Em vez de reforçar a catástrofe como imagem, Céu-Eclipse propõe modos de atenção — procedimentos de presença e relação que reconhecem a crise, mas também a potência das conexões e das formas de vida.
ENTRE A QUEDA DO CÉU E A POSSIBILIDADE DE OUTROS FUTUROS
Para os Yanomami, o céu pode cair quando deixamos de ouvir os espíritos e de cuidar da floresta.
Na mostra, essa ameaça aparece como força física e espiritual, mas não como fim inevitável. Os artistas reunidos não oferecem soluções técnicas — oferecem, antes, modos primordiais de ver, sentir e imaginar.
Em meio ao eclipse, suas obras inauguram novas modalidades de presença.
E talvez seja aí que resida a pergunta central da mostra: o que ainda podemos aprender ao levantar os olhos para o céu?









