Poucos artistas conseguiram construir uma trajetória tão influente quanto David Hockney e, ao que tudo indica, nem mesmo sua despedida escaparia da coerência que marcou sua vida pública. Realizado discretamente na semana passada, o funeral do pintor britânico ocorreu de forma estritamente privada e contou com apenas dois presentes, uma decisão tomada pelo próprio artista antes de sua morte e que agora lança uma nova luz sobre a personalidade reservada por trás de uma das obras mais reconhecíveis da arte contemporânea.
A cerimônia reuniu apenas Jean-Pierre Gonçalves de Lima, companheiro de Hockney há décadas, e Richard Hockney, sobrinho-neto do artista, fotógrafo e colaborador próximo que frequentemente atuava como assistente e modelo em seus trabalhos. Ambos também exercem funções como curadores da David Hockney Foundation, instituição criada em 2008 para preservar e ampliar o alcance de sua produção artística.
A notícia surge poucos dias após a morte do criador de The Splash, ocorrida em 11 de junho, aos 88 anos, em sua residência. Desde então, manifestações de reconhecimento partiram de diferentes esferas da sociedade britânica, incluindo o primeiro-ministro Keir Starmer e o rei Charles III, que destacaram a capacidade de Hockney de renovar continuamente sua linguagem visual ao longo de mais de seis décadas de atividade.
Embora a despedida tenha ocorrido longe dos holofotes, a dimensão pública de seu legado será celebrada em uma série de cerimônias memoriais já confirmadas para os próximos anos. Segundo a porta-voz do artista, Erica Bolton, o primeiro grande tributo acontecerá em Londres na primavera de 2027, seguido posteriormente por eventos em Yorkshire, Paris e Los Angeles, cidades profundamente conectadas à trajetória pessoal e criativa do pintor.
A escolha por uma cerimônia mais reservada não surpreende aqueles que acompanharam sua carreira de perto. Em uma entrevista concedida em 2003 ao jornal Telegraph & Argus, de Bradford, Hockney explicou por que havia recusado um título de cavalaria oferecido pela Coroa Britânica anos antes. Na ocasião, afirmou não apreciar formalidades excessivas nem valorizar premiações, enfatizando que atribuía maior importância aos amigos e às relações pessoais.
Ao mesmo tempo em que o universo cultural organiza homenagens, o destino de parte significativa de sua coleção privada começa a ser definido. De acordo com representantes do espólio, grande parte das obras permanecerá acessível ao público por meio de fundações e instituições culturais internacionais, reforçando um legado já consolidado por milhares de trabalhos produzidos ao longo da carreira. Estima-se que Hockney tenha criado cerca de 35 mil obras, além de ter transferido aproximadamente 8 mil peças para sua fundação, conjunto avaliado em mais de um bilhão de libras esterlinas em 2024.
O impacto de sua ausência também já se faz sentir no mercado. Durante a última edição da Art Basel, realizada poucos dias após sua morte, colecionadores iniciaram uma intensa corrida por obras do artista. Analistas do setor relatam um aumento excepcional na procura, impulsionado pela percepção de que a relevância histórica de Hockney tende a ganhar novas proporções nos próximos anos. Enquanto exposições já programadas seguem em cartaz em Londres e novas retrospectivas são preparadas pela Tate Britain e pela Tate Modern para 2027, a despedida silenciosa escolhida pelo artista parece ter produzido um efeito paradoxal: quanto mais discreto foi seu adeus, maior se tornou a atenção voltada para sua obra.


