Com curadoria de Marcia Pastore e Daniel Donato, “Apenas o vento” propõe novas relações entre arte contemporânea, paisagem, natureza e memória
O Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, na zona sul de São Paulo, recebe pela primeira vez uma exposição de arte contemporânea distribuída por sua extensa área verde. Com abertura prevista para 24 de outubro, Apenas o vento reúne obras de 20 artistas em um percurso a céu aberto que se estende pelos mais de 300 mil metros quadrados do parque. Com curadoria de Marcia Pastore e texto crítico de Daniel Donato, a mostra permanece em cartaz até 31 de janeiro, com entrada gratuita, e propõe uma experiência de visitação que aproxima a produção artística das paisagens e das diferentes atividades realizadas no local.
Em vez de ocupar salas expositivas convencionais, a mostra distribui esculturas, desenhos, pinturas e trabalhos site-specific por diferentes áreas do Cerejeiras, incluindo espaços de reflorestamento, o orquidário e o meliponário. O público poderá seguir um mapa com a localização das obras ou descobrir os trabalhos livremente durante a caminhada. A seleção não parte de um tema único nem se concentra diretamente no luto. Segundo Donato, os artistas foram convidados a estabelecer relações com aspectos ambientais, arquitetônicos e paisagísticos do território, considerando também as experiências cotidianas que coexistem no espaço funerário.
A iniciativa retoma uma relação histórica entre cemitérios e artes visuais, presente na tradição da arte tumular, em mausoléus, esculturas, lápides e monumentos de mármore e bronze. De acordo com Daniel Arantes, diretor do Memorial Parque das Cerejeiras, a consolidação do conceito de cemitério-parque, com ênfase em áreas verdes e paisagens abertas, reduziu a presença de determinadas manifestações artísticas tradicionalmente associadas aos espaços funerários. A exposição busca reaproximar essas duas dimensões por meio de uma proposta contemporânea, integrada à natureza e à dinâmica do parque. Uma das obras deverá permanecer no local após o encerramento da mostra; a continuidade das demais será avaliada posteriormente.
Entre os participantes estão artistas com trajetórias consolidadas no circuito de arte contemporânea, como Marcia Pastore, José Spaniol e Marcius Galan, ao lado de nomes como João Machado, Rafaela Foz, Vinicius Barajas, Licida Vidal, Juliana Maia, Manuela Costa Lima e Marcelo Venzon. A seleção também inclui Nicolas Braz, morador da região que trabalha como entregador de aplicativo, e João Batista de Jesus, agente funerário do Cerejeiras há seis anos, que desenvolveu habilidades em desenho e trabalhos manuais. A diversidade de percursos amplia o alcance da proposta, aproximando artistas de diferentes experiências profissionais e relações com o território.
A exposição integra um movimento de aproximação do Memorial Parque das Cerejeiras com a produção cultural e a comunidade da região. O espaço já promove apresentações de música clássica durante o Dia de Finados e mantém obras de artistas como Túlio Pinto e Hugo França em seu acervo. Em Apenas o vento, a arte passa a ocupar o parque de maneira expandida, em diálogo com a vegetação, a arquitetura e os usos cotidianos do lugar. A proposta convida o visitante a perceber o cemitério para além de sua função funerária, reconhecendo as relações entre criação artística, preservação ambiental e memória.
A mostra Apenas o vento fica em cartaz de 24 de outubro a 31 de janeiro, das 8h às 18h, no Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, na zona sul de São Paulo. A entrada é gratuita.


