Casa SP–Arte abre as portas com individual de Hélio Oiticica

Hélio Oiticica, B7 Bólide vidro 01, 1963

Mais relevante feira de arte e design da América Latina, a SP–Arte inaugura, no dia 18 de março, seu primeiro espaço permanente, dedicado à realização de exposições e eventos ligados às artes visuais em São Paulo: a Casa SP–Arte. Instalada na Vila Modernista, projetada por Flávio de Carvalho (1899-1973), a Casa SP–Arte ocupará o único imóvel – entre os 17 que compõem a vila – inteiramente restaurado em sua versão original.

“Depois de quase 20 anos de trabalho organizando com sucesso várias feiras de arte, queríamos dar um passo a mais. Abrir um espaço permanente nos permite dar asas a projetos próprios (que são muitos!) e de galerias parceiras”, afirma Fernanda Feitosa, diretora da SP–Arte.

A Casa SP–Arte será inaugurada com a exposição Hélio Oiticica: mundo-labirinto, organizada pela Gomide&Co e por Luisa Duarte, diretora artística da galeria. A mostra reúne obras de diferentes fases da produção de Oiticica (1937-1980), incluindo suas investigações de caráter construtivo sobre o plano bidimensional e propostas experimentais que dialogam sobre arte e vida e sobre arte e cultura pop. Compõem a mostra obras produzidas a partir de 1955, incluindo trabalhos do Grupo Frente, e produções dos anos 1970. Algumas obras do artista, inclusive, ressaltam a arquitetura modernista da casa. É o caso de Relevo espacial (vermelho), 1959-1960.

Entre os destaques, está o desdobramento inédito de uma Cosmococa (CC4) executada por Neville d’Almeida (1941) para a exposição. Trata-se de uma versão doméstica da CC4, algo planejado por Oiticica em vida, mas nunca realizada. Cosmococa é um ambiente multissensorial de experimentação que busca levar a arte ao mundo sensorial.

O projeto CC4 é composto por projeções, água e som. A CC4 tem como referências as obras de John Cage (1912-1992) e dos irmãos Haroldo (1929-2003) e Augusto de Campos (1931). Deste último, faz parte da instalação o poema dias, dias, dias.

A Casa SP-Arte

Além da Cosmococa, mais de 15 obras completam a exposição

Também merece destaque o primeiro Penetrável (PN1), que ocupará o centro da galeria. Construído pelo artista em 1961, a instalação é uma homenagem ao crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981). Em PN1, percebe-se a incorporação do corpo em movimento no interior de uma composição labiríntica – o amarelo se desenvolve em uma estrutura polimorfa de placas que se sucedem no espaço e no tempo, captando tal ideia. Foi esta obra que serviu de inspiração para o título da exposição: mundo-labirinto.

Em um dos escritos de Oiticica, é possível ler: “Parto, nos Penetráveis, da cor no espaço e no tempo, e foi esse caráter que regeu a gênese formal e vivencial do projeto. Nos primeiros Penetráveis o caráter de labirinto aparece claro: a cor se desenvolve numa estrutura polimorfa de placas que se sucedem no espaço e no tempo formando labirintos.”

Hélio Oiticica, B10 Bólide caixa 08, 1964

Uma série de Metaesquemas (MET 021, 023, 025, 026, 090, 098, 106 e MET 107) estará presente. Essas obras já trazem consigo a ideia de movimento, fundamental para a produção de Oiticica que viria a seguir. Assim, é possível entender os Metaesquemas como um prólogo do primeiro Penetrável (PN1), que compõe o centro da exposição. Já os Bólides (B07 Bólide vidro 01, B09 Bólide caixa 07, B10 Bólide caixa 08 e B14 Bólide caixa 11) e Parangolés (P31 Parangolé capa 24 Excrerbuto) podem ser interpretados como prolongamentos das ideias firmadas no PN1, como aquela que apresenta um “corpo da cor”. Uma réplica do P25 Parangolé capa 21 Xoxoba poderá ser experimentada pelos visitantes.

Nas palavras de Fred Coelho, especialista em Hélio Oiticica que escreveu o texto crítico para a exposição: “O que vemos, portanto, na exposição Hélio Oiticica: mundo-labirinto, são algumas das entradas e passagens para o processo criativo de um artista em permanente movimento de transgressão. (…) mundo e labirinto se expandem um sobre o outro e dão continuidade infinita à revolução da cor, do tempo, do espaço e da imagem. Tintas, placas de madeira, pigmentos, tecidos e cocaína formam essa espiral que, ao mesmo tempo que nos apresenta uma história dessa arte, também nos oferece novas formas de contá-la. Da cor viemos e à cor voltaremos.”

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