A divulgação de uma carta escrita pela pesquisadora Yuko Kikuchi, ex-chefe de programas acadêmicos do Victoria and Albert Museum (V&A), em Londres, colocou novamente a instituição no centro de um intenso debate sobre inclusão e discriminação racial. O documento, enviado em janeiro ao diretor Tristram Hunt e ao comitê de pesquisa do museu, sustenta que a decisão de deixar o cargo foi motivada por um ambiente marcado por racismo sistêmico, episódios de insensibilidade cultural e microagressões que, segundo a acadêmica, comprometeram sua saúde mental durante os quase dois anos em que permaneceu na função.
Nascida em Tóquio e radicada no Reino Unido há mais de três décadas, Kikuchi chegou ao V&A em 2023 para liderar a estrutura acadêmica da instituição, responsável por cursos de graduação e pós-graduação desenvolvidos em parceria com o Royal College of Art. Especialista em histórias transnacionais da arte e nas relações entre o Oriente Asiático e o Ocidente, ela afirma que encontrou resistência desde os primeiros dias de trabalho. Em seu relato, destaca que era a única pessoa não branca entre os dirigentes de sua área e que propostas voltadas à ampliação das perspectivas históricas foram sistematicamente questionadas ou minimizadas.
Entre os episódios descritos está a tentativa de incorporar discussões sobre descolonização ao programa de mestrado em História do Design. De acordo com Kikuchi, colegas defenderam que esses conteúdos fossem adiados para etapas posteriores do curso, preservando inicialmente uma abordagem centrada na tradição europeia. A pesquisadora também afirma ter sido orientada por um superior a evitar o uso de termos como “decolonial” e “pós-colonial” em conversas internas. A carta foi acompanhada por assinaturas de outros acadêmicos e por depoimentos de estudantes que relataram experiências envolvendo discriminação racial, insensibilidade cultural e limitações na abordagem de temas considerados fundamentais para uma formação mais plural.
Os testemunhos anexados ampliam o alcance das críticas ao ambiente acadêmico do museu. Um dos relatos afirma que um curso sobre a Jamaica do século XVIII privilegiava a perspectiva da população branca, deixando de lado as vivências das pessoas escravizadas. Outro menciona que uma discussão sobre a possível restituição dos objetos de Maqdala, levados da Etiópia pelo exército britânico em 1868 e preservados no acervo do V&A há mais de um século, teria sido interrompida por um docente. O tema permanece sensível para a instituição desde que Tristram Hunt rejeitou a devolução definitiva das peças, propondo apenas um acordo de empréstimo de longo prazo ao governo etíope.
As novas acusações se somam a uma série de controvérsias recentes envolvendo o museu. Nos últimos anos, o V&A enfrentou críticas pela retirada de produtos relacionados à comunidade LGBTQIA+ de sua loja, além de denúncias apresentadas por estudantes de uma escola de Bristol, que afirmaram ter sido alvo de abordagens racialmente discriminatórias durante uma visita educativa. Em resposta aos diferentes episódios, a instituição implementou programas de formação em inclusão e criou um fórum dedicado às políticas de igualdade, diversidade e inclusão, iniciativas que buscam fortalecer mecanismos internos de prevenção a práticas discriminatórias.
Em manifestação conjunta, o Victoria and Albert Museum e o Royal College of Art reiteraram o compromisso de combater qualquer forma de discriminação e afirmaram trabalhar para consolidar um currículo acadêmico mais global e inclusivo. As instituições também destacaram que vêm revendo criticamente seu legado colonial por meio de pesquisas, ações educativas e programas públicos. Para Kikuchi, entretanto, essas medidas não foram suficientes para transformar a cultura organizacional que encontrou ao assumir o cargo. Segundo a pesquisadora, o desgaste emocional provocado pela experiência, marcado por insônia e sintomas depressivos, tornou inevitável sua saída, encerrando de forma precoce uma trajetória profissional que, inicialmente, havia despertado grande entusiasmo.


