A recente renovação da National Gallery, em Londres, trouxe uma transformação curiosa: os antigos sofás de couro e bancos escuros deram lugar a amplos assentos de madeira clara que lembram esculturas de Donald Judd. Ainda que menos compatíveis com o ar senhorial do edifício, esses novos bancos cumprem sua missão com elegância funcional — são amplos, convidativos e colocados na altura ideal para contemplar as obras, sem ditar um único ponto de vista. Em meio às pinturas venezianas da Sala 9, por exemplo, é possível flutuar, em ritmo de gôndola, de Tintoretto a Veronese, numa contemplação sem pressa.

Os assentos de madeira clara da National Gallery.
Frame do filme “My National Gallery” 2024, de Phil Grabsky e Ali Ray.
Apesar de muitas vezes relegados ao papel de coadjuvantes — como cafés, banheiros e lojas — os assentos também moldam a experiência de visita. Um bom banco pode ser a diferença entre uma passagem apressada e um retorno entusiasmado. Eles sugerem possibilidades: um museu com bancos diz “fique à vontade”, enquanto um sem assentos impõe pressa. Thomas Bernhard captou essa nuance em Velhos Mestres (1985), cujo protagonista passa dias alternados no mesmo banco do Kunsthistorisches Museum, em Viena, diante de uma obra que nem chega a gostar muito. Visitar um museu é também sair da chuva, buscar um sinal de Wi-Fi, impressionar um par ou simplesmente descansar após o almoço — e os bancos reconhecem essa variedade de propósitos.
Segundo o historiador de arte e escritor Ben Street, entre os melhores assentos do circuito internacional, destacam-se as formas suaves da Pinacoteca de Bolonha, os sofás circulares do Ashmolean e os blocos móveis da Ca’ Pesaro, em Veneza, inspirados nos bancos de Frederick Kiesler. O Crystal Bridges, nos EUA, e a Gemäldegalerie, em Berlim, também oferecem verdadeiros oásis para os visitantes. Já o trabalho da artista Finnegan Shannon lança luz sobre a acessibilidade nesses espaços, com bancos azuis e frases como “VISITAR MUSEUS CANSA MEU CORPO. DESCANSE AQUI SE VOCÊ CONCORDA.” Afinal, os assentos importam porque, no fim das contas, o que mais importa nos museus são as pessoas.




