Presidente da Bienal de Veneza diz que repetiria sua decisão, mesmo após críticas do governo italiano e a retirada de R$ 12 milhões em financiamento da União Europeia
Pietrangelo Buttafuoco não recua. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o presidente da Fundação Bienal de Veneza defendeu novamente a participação da Rússia na 61ª Bienal, realizada neste ano, e afirmou que faria “tudo” outra vez. A decisão provocou reação do Ministério da Cultura da Itália, mobilizou grupos de protesto e levou a Comissão Europeia a retirar um financiamento de € 2 milhões (aproximadamente R$ 12 milhões) destinado à instituição.
A presença russa havia sido anunciada em março, em meio à continuidade da invasão da Ucrânia. A Fundação sustentou que a Bienal não deveria excluir países ou artistas por razões políticas e afirmou que rejeitava qualquer forma de censura ou exclusão da cultura. Segundo Buttafuoco, sua atuação respeitou integralmente as regras. “Não há uma única vírgula que viole leis e regulamentos”, declarou ao Corriere. Documentos divulgados antes da abertura mostraram que a administração da Bienal já trabalhava com o curador do pavilhão russo desde junho de 2025 para definir as condições da participação.
A controvérsia ganhou dimensão institucional. O ministro italiano da Cultura, Alessandro Giuli, solicitou à Fundação a troca de correspondências mantida com a Federação Russa para verificar se a instalação respeitava o regime de sanções da União Europeia. A Comissão Europeia também pressionou a organização e, em julho, confirmou a retirada do financiamento, sob o argumento de que recursos públicos europeus deveriam “promover e proteger valores democráticos”. Giuli decidiu ainda não participar das datas de prévia da Bienal e chegou a afirmar que “Putin ganhou a Bienal”. A Rússia, contudo, acabou sem concorrer ao Leão de Ouro e seu pavilhão permaneceu fechado ao público durante a exposição. Nos dias que antecederam a abertura, Pussy Riot e Femen realizaram protestos contra a guerra diante do espaço.
Buttafuoco responde à crítica com uma inversão direta. “Putin não ganhou, a arte ganhou”, afirmou. Para ele, a força da decisão está na própria história da Bienal, que, segundo suas palavras, ao longo de 131 anos continuou recebendo participantes de diferentes países mesmo durante períodos de conflito. O presidente também questionou o argumento ético usado pela União Europeia. Se o código europeu de conduta fosse aplicado de maneira literal, disse, cerca de 87% dos países que participam da Bienal poderiam não cumprir os critérios, incluindo o Vaticano.
O debate, porém, não terminou na Rússia. A edição também foi marcada pela controvérsia em torno de Israel, com protestos, greve e pedidos de boicote, além da renúncia de integrantes do júri. A Fundação defendeu o artista israelense Belu-Simion Fainaru, escolhido para representar o país. Na entrevista, Buttafuoco citou ainda Naza (2026), filme dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, da equipe de No Other Land, afirmando que a obra expõe os mecanismos por trás do assassinato em massa de civis palestinos em Gaza. A disputa em torno da Bienal, assim, permanece também dentro da própria instituição, entre a defesa de uma plataforma cultural aberta a todos os países e a pressão crescente para que suas escolhas respondam explicitamente aos conflitos políticos do presente.


