Busão leva ciências em artes visuais à população de São Paulo

Jaider Esbell

O pintor Paul Klee definiu arte como uma forma de “tornar visível o invisível”. A frase ganha outro sentido no Busão das Artes, um caminhão de 15 metros adaptado para receber experimentos interativos de abordagem científica e projetos de artes visuais. O Horto Florestal é o primeiro parque do Estado a receber o projeto, que ficará três meses na capital paulista e com entrada gratuita.

Idealizado pelo curador e criador interdisciplinar Marcello Dantas, em parceria com o físico Luiz Alberto Rezende de Oliveira, um dos idealizadores e ex-curador do Museu do Amanhã, o Busão é um projeto realizado por Renata Lima, que dirige a Das Lima Produções, e a dupla Lilian Pieroni e Luciana Levacov, da Carioca DNA. A iniciativa apresenta duas vertentes: uma ambiental, que trata das bactérias e seu papel no ecossistema, e outra científica, abordando temas relacionados ao organismo humano. O propósito do Busão é ampliar a compreensão do público sobre o universo, o corpo humano, as bactérias (tanto as benéficas quanto as perigosas) e a relação dos indivíduos com o meio ambiente. Tudo isso com instalações artísticas e interatividade, mostrando como as manifestações da vida biológica se relacionam com tudo que há no planeta. Quem guia o visitante por esse universo tão rico e pouco explorado está invisível aos olhos: fungos, bactérias e vírus.

Quem for ao Busão vai descobrir, com uma pitada de humor, que há mais de um quatrilhão de bactérias na Terra, dos quais 100 bilhões habitam o corpo humano, e 99,99% ainda sequer foram descobertas. Todos os seres vivos estão profundamente interligados, e suas existências se definem pelas linhas de fronteira e de intercâmbio entre cada ser. “A luta ancestral entre fungos, bactérias e vírus, que estão relacionados ao início e ao fim da vida. E é esse conceito que o Busão pretende divulgar. Não nos damos conta de que temos mais bactérias no organismo do que há estrelas no céu”, comenta Oliveira.

Busão das Artes

Com obras dos artistas Jaider Esbell, Piero Manzoni, Ricardo Carvão, Ricardo Siri, Suzana Queiroga, Vik Muniz, Vivian Caccuri e Walmor Corrêa, o projeto iniciou em 2021, no Rio de Janeiro, onde o Busão das Artes realizou cinco paradas até 2022 (Praça Santos Dumont, Parque Madureira, Praça Mauá, Cidade das Artes e Bangu Shopping).

“O Busão propõe uma experiência sensorial e cognitiva para levar informação adiante, mostrando como a diversidade integra todos os grupos. Nós tanto pertencemos a um ecossistema exterior, que fora da gente nos nutre e nos sustenta, assim como cada um de nós é em si um ecossistema. O Busão busca apresentar um conceito original do século XXI: a diversidade integra unidades. Não podemos falar apenas em seres diversos. Cada um desses seres é, em si, uma fonte de diversidade. O que estamos levando a São Paulo é, para nós, uma missão de responsabilidade social”, conta Marcello Dantas.

Com tantos conceitos novos em discussão, é possível que o Busão deixe mais dúvidas do que certezas. Pensando nisso, na parte externa, haverá recipientes com perguntas, para que os visitantes possam refletir sobre o que viram e sobre a própria condição humana: “Só somos humanos, porque somos inumanos”, provoca Luiz Alberto.

Para os criadores do Busão, a ideia de circular por praças da cidade traz novos elementos de análise. Eles consideram estes espaços públicos um local de conversa em que, pela diversidade de seus frequentadores, há uma intensa troca bacteriológica. “Esta é a dimensão ética e política do Busão. Ao não colocar fronteiras entre a ciência e a arte, e criar diálogo com as pessoas estamos também propondo uma revisão do próprio sentido de cidadania”, finaliza Oliveira.

Sobre as obras

Piero Manzoni

“A vida vem da luz invisível — Os povos que moram no nosso corpo” é a obra de Jaider Esbell (1979-2021), indígena da etnia Macuxi, e mostra a interação entre fungos e bactérias – uma das mais antigas colaborações e competições da natureza.

“Merde Essenciel” foi criada por Piero Manzoni (1933-1963) e fala sobre o destino das fezes na Natureza, ao tornarem-se um ambiente de nutrientes e bactérias que impulsionam novas vidas enquanto preservam sua identidade biológica.

“Como conversar com árvores”, de Ricardo Carvão, é composta por esculturas de materiais reutilizados que mostram como as substâncias atravessam e se transformam dentro de cada célula do corpo, bem como nas árvores.

“Polonizando ideias” é a de Ricardo Siri, que traça um paralelo entre os humanos e as abelhas a partir da biologia e da essencial arte de polinização, permitindo que o ciclo reprodutivo das flores seja completado.

“Curiosar”, de Suzana Queiroga, traz uma experiência tridimensional dos corpos se entrelaçando com camadas de culturas bacterianas em escala humana.

“Umbigos” é a mostra de Vik Muniz, com a mais completa biometria de um ser humano: a microflora do umbigo (mais identitária do que qualquer outra forma de tornar o indivíduo único).

“Sesmaria Soundsystem”, de Vivian Caccuri, é um sistema de som modelado puramente a partir de rapadura obtida da cana-de-açúcar, reinterpretando derivados da cana em mídia de reprodução de som que ecoam barulho das folhas da cana, das queimadas e dos insetos que gravitam em torno do material.

“Pikaia” é a instalação de Walmor Corrêa, que oferece a imagem do beijo imaginário da Pikaia gracilens – animal marinho extinto que viveu há 505 milhões de anos, no período Cambriano na forma de cartazes e adesivos.

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