O célebre “Cloud Gate”, de Anish Kapoor, ícone espelhado instalado no Millennium Park, em Chicago, tornou-se alvo de uma campanha tão improvável quanto persistente. Um coletivo autodenominado Man in Bean afirma — sem qualquer evidência — que há vinte anos um homem vive trancado no interior da obra, popularmente apelidada de “The Bean”. Segundo o grupo, a escultura esconderia um ambiente isolado, abastecido por dutos de ar e comida, e cujo ocupante poderia ser visto sob a incidência perfeita da luz solar. A acusação, lançada em pleno festival Lollapalooza, veio acompanhada de panfletos e protestos, pedindo à prefeitura que “liberte o homem do feijão”.
Segundo o portal Artnet, as autoridades de Chicago, entretanto, tratam o caso como farsa. O vereador Brendan Reilly negou enfaticamente a existência de qualquer prisioneiro metálico, lamentando o aumento no volume de ligações ao seu gabinete e classificando a mobilização como distração das funções públicas. O artista britânico-indiano Anish Kapoor não se manifestou, mas seu notório rival, Stuart Semple, aproveitou o rumor para lançar um anúncio fictício no AirB&Bean, oferecendo estadias imaginárias dentro da obra e enviando aos “hóspedes” uma “Chave do Bean” assinada, junto a balas de goma.
O grupo Man in Bean, por sua vez, insiste que sua cruzada não é arte performática nem sátira, e que “não há nada de engraçado” em manter alguém cativo dentro de uma escultura pública. Ainda que o caso evoque lembranças de outras lendas urbanas — como o falso documentário Man in a Cube (2013) que mostra a rotina de um homem que mora dentro do Alamo, obra pública de Tony Rosenthal — a narrativa tem encontrado apoiadores improváveis: até uma famosa rede de pizzarias de Chicago entrou na brincadeira, afirmando nas redes sociais que já fez “entregas” ao suposto morador. Entre o mito urbano e a crítica performática involuntária, a história consolida “The Bean” como uma das obras mais fotogênicas, e agora também mais inusitadamente comentadas, da arte pública contemporânea.


