POR LIEGE JUNG
A cada dois anos, espero ansiosamente pela abertura para imprensa da Bienal de São Paulo, meu evento favorito. É um prazer ouvir a visão dos curadores e poder encontrar e conversar com os artistas próximos a suas obras.
Este ano não foi diferente. A co-curadora Alya Sebdti trouxe um discurso de fé emanando boas energias. Essa vibração positiva parecia permear a relação entre os curadores e sua gratidão para com a equipe da Fundação Bienal. Na fala do curador-geral Bonaventure, também o desejo de união entre as pessoas. Pena que mal tenha terminado de falar e já tenha sido atacado por uma jornalista que questionava a pouca presença de artistas brasileiros, movida por uma matéria da Folha de São Paulo que destacava o trabalho da britânica Precious Okoyomon e seu estudo do bioma Cerrado.
E foi este o primeiro trabalho que vemos ao iniciar a visita: um morro coberto por uma vegetação utópica, mistura de elementos naturais impossível na natureza, mas que, estranhamente, nos faz respirar e conectar com a terra. Já sei que voltarei a esta obra mais tarde, quando minha mente estiver atordoada por tantas imagens e experiências. Ainda que eu concorde com a jornalista de que não precisamos de estrangeiros para nos ensinar quem somos, foi bom ter a ajuda da Precious para lembrar que somos da terra.
Em seu discurso, os curadores enfatizaram que o conceito para esta Bienal se apresentava como um livro, com capítulos. O primeiro deles está no térreo: Frequências de chegadas e pertencimentos. O poder xamânico dos animais e das plantas, a terra como moradia, identidade e material para instrumentos do cotidiano, e outras formas de presença da terra em nossas vidas são exploradas por vários artistas. Não ficou muito claro o que a instalação de Gê Viana está fazendo aqui: um muro de caixas de som entremeadas com colagens que remetem à história negra e à cena do reggae no Maranhão. Mas a obra em si é um deleite, uma bem resolvida celebração da mistureba que é nosso Brasil. Ao lado, um muro de taipa abriga obras do coletivo Sertão Negro.
O capítulo 2, Gramáticas de insurgências, propõe que ser humano é resistir a todas as formas de desumanização. É uma grata surpresa perceber que a raiva que normalmente encontramos em obras de resistência não está aqui. Os artistas resistem com lirismo, tradição e até sátira: vide o Laboratório de Deberlinização de Mansour Ciss Kanakassy, uma espécie de agência bancária do continente imaginário Gondwana, pela qual o artista se manifesta contra as hegemonias financeiras e geopolíticas que marginalizam a África e suas diásporas, representadas pela Conferência de Berlim (1884-85). No início e no final das rampa de trânsito entre os andares, Otobong Nkanga, estrela da arte contemporânea nigeriana, nos brinda com duas incríveis tapeçarias. Um ótimo início para o capítulo 3, Sobre ritmos espaciais e narrações, que propõe uma reflexão sobre as interações entre humanos e fenômenos espaço-temporais, já que os temas dessas tapeçarias remetem à degradação dos oceanos pelo homem.
Neste momento, tive a sorte de encontrar a marroquina Amina Agueznay em frente à sua obra e pude ouvi-la contar sobre como sempre se interessou em transformar as tradições de seu país em obras de arte, neste caso partindo de bordados usados nas roupas tradicionais. Fato curioso: ela é filha de Malika Agueznay, responsável pelos grafismos que cobrem a primeira rampa. Logo ao lado, Marlene Almeida me guiou por seu “laboratório”: amostras de terra e minérios de muitos rincões do país, que ela usa para tingir os tecidos que compõem a sua impactante instalação.
Navegar uma Bienal não é fácil, mesmo para iniciados. Esta trouxe um desafio a mais, já que a grande maioria dos nomes era desconhecida. Nestas horas, eu peço socorro para nossa colaboradora Alecsandra Matias, minha personal enciclopédia de arte contemporânea e internacional. Entre muitas dicas valiosa, sugeriu prestar atenção ao coletivo brasileiro Vilanismo, e que ótima dica. Seu ambiente traz um conjunto de objetos e obras de arte que formam uma espécie de museu em homenagem à periferia negra e valorizam seu papel na nossa cultura urbana, bem no espírito do capítulo 4: Fluxos de cuidado e cosmologias plurais. Nesta parte da exposição, destaque para duas instalações sonoras, sobre as quais não vou dar spoiler. Vale sentar, ver e escutar.
O tempo da visita está acabando quando eu chego ao último andar, que começa com o capítulo 5, Cadências de transformação. De longe vejo os cordões coloridos de Moisés Patrício e os murais de restos de papel de Antonio Tarsis. Neste andar, as obras são mais esparsas e respiram melhor, mas aqui também é impossível escapar da cacofonia de resíduos sonoros. São muitas instalações com som alto sem o devido isolamento, em um prédio dado à reverberação. Se preciso nomear um defeito nesta Bienal, é este: o barulho.
E que bom finalizar com um capítulo sobre A intratável beleza do mundo. Não é que as obras aqui sejam belas, mas a simples proposta de celebrar a beleza sem bula é bem-vinda no final de um dia de muitos conceitos.
Como sempre, termino a visita cansada, mas hoje também feliz. A Bienal mais uma vez conseguiu unir pensamento e magia, novidade e tradição. Foram muitas as obras que me impactaram e maravilharam. Minha última crítica a uma Bienal, a de Veneza, foi movida pelo desencanto de perceber interesses comerciais acima do dever curatorial com a arte. Impossível falar de qualquer Bienal sem interesses comerciais, como vemos nas muitas etiquetas informando a cortesia das galerias amigas, mas aqui temos prova de que eles podem coexistir com os interesses do público, que serão muito bem servidos por uma mostra múltipla e potente.
Parabéns à Fundação Bienal por mais este acerto! Visitarei muitas vezes mais até janeiro e esperarei ansiosa pela próxima.































