Bergamin & Gomide inaugura segundo espaço expositivo em São Paulo

José Resende, Sem título [Untitled], 2010 | FOTO: Edouard Fraipont

Em 22 de maio, a Bergamin & Gomide inaugura seu segundo espaço expositivo, localizado a poucos metros da tradicional galeria no bairro dos Jardins, em São Paulo. A casa, que permitirá à galeria dobrar seu programa de exposições, foi projetada em 1933 pelo multifacetado artista Flávio de Carvalho e apresenta um ensaio de Guilherme Wisnik, crítico de arte e arquitetura.
O espaço abre ao público com a primeira exposição individual de José Resende na Bergamin & Gomide, que acontece de 22 de maio a 03 de julho de 2021. A exposição conta com duas instalações inéditas produzidas pelo artista, uma externa na fachada lateral e uma interna que ocupa a área central da nave da Casa, além de uma seleção variada de obras que datam desde 1975. As instalações que José Resende concebeu para a Casa sugerem ao público a intenção de realizar um percurso pelo espaço e chamam atenção de quem passa pela rua, dirigindo o olhar do transeunte para a laje circular do chapéu de sol na entrada da galeria.

Com mais de 50 anos de carreira, José Resende possui extenso currículo, participou de quatro Bienais de São Paulo (1967, 1983, 1989, 1998), da 43ª Bienal de Veneza (1988) e da Documenta IX (1992). A produção do artista-arquiteto – assim como Flávio de Carvalho – é caracterizada pelo interesse em estabelecer uma experiência autêntica entre a matéria e as tensões desta com o espaço, que são notáveis pelo poder de síntese da forma. A prática do artista é predominantemente escultórica, na qual investiga materiais e seus desdobramentos. A partir do constante diálogo entre a arquitetura e o espaço urbano, José Resende produziu ao longo de sua trajetória relevantes obras públicas como a escultura Passante (1996) do Largo da Carioca, ou Sorriso (2015) criada para a sua individual na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

“Uma casa branca, com um volume semicircular protuberante na fachada, coroado por uma marquise redonda apoiada numa coluna central, que atravessa todo o volume da casa e se solta no andar térreo, marcando o plano de entrada. Assim a construção demarca sua curiosa presença na cidade.” Guilherme Wisnik.

FOTO: Leonardo Finotti

Para os sócios Antonia Bergamin e Thiago Gomide, abrir um espaço expositivo em uma casa histórica sempre foi um sonho. A indicação de uma amiga de que a Casa estava disponível era o que faltava, ao visitarem o espaço foi amor à primeira vista, ali seria o segundo espaço da Bergamin & Gomide.

A renovação buscou, criteriosamente, preservar as características modernistas do imóvel que faz parte de um conjunto de 17 residências projetadas e incorporadas por Flávio de Carvalho em um terreno de sua família, entre a Alameda Lorena e a Rua Ministro Rocha Azevedo. A Vila América – atualmente conhecida como Vila Modernista – é hoje um polo de arte e cultura onde se encontram galerias de arte e escritórios de arquitetura.

Para Wisnik, “É louvável que, nos dias de hoje, instituições privadas, como galerias de arte, estejam empenhadas em restaurar obras residenciais que são patrimônios da nossa arquitetura moderna, devolvendo-as à fruição coletiva.” Com efeito, a estratégia em abrir um novo espaço faz parte de um investimento no futuro da cultura e da arte em São Paulo. Embora galerias de arte ainda sejam vistas como espaços de luxo, os sócios almejam que a expansão contribua para uma maior disseminação da expressão cultural na cidade e que atinja a pluralidade do público apreciador de arte.

Considerando a situação que o Brasil experimenta, como as graves consequências econômicas em decorrência da pandemia da Covid-19 – aliada ao desmonte federal dos bens culturais, da arte e da pesquisa – a expansão da galeria ganha contornos ainda mais ousados.

Se para o radical e provocador Flávio de Carvalho a cidade seria a verdadeira casa do “homem de amanhã”, abrir este espaço depois de mais oitenta anos de sua inauguração significa para a Bergamin & Gomide preservar a memória da cidade e contribuir para que arte e a cultura continuem estimulando a construção do pensamento crítico de hoje e de amanhã.

Jose Resende, Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2015

Sobre a galeria:

A Bergamin & Gomide foi fundada por Antonia Bergamin e Thiago Gomide em 2013, com sede em São Paulo. Desde então, a galeria vem expandindo seu escopo de trabalho, que atualmente abrange artistas nacionais e internacionais associados aos movimentos de arte concreta, neoconcreta e conceitual, e artistas representados, como Marcelo Cipis, José Resende, Lenora de Barros, Pedro Caetano e Francisco Brennand. Prestes a abrir um novo espaço expositivo a poucos passos da sua sede, a casa modernista projetada em 1938 pelo artista e arquiteto Flávio de Carvalho permitirá à galeria ampliar o seu programa de exposições.

A galeria possui flexibilidade para trabalhar com um amplo número de artistas e exposições de diferentes temas, períodos e movimentos. Entre os artistas estão Alfredo Volpi, Aluísio Carvão, Amadeo Luciano Lorenzato, Amilcar de Castro, Glauco Rodrigues, Hélio Oiticica, Ivan Serpa, Joseph Beuys, Lucio Fontana, Lygia Clark, Lygia Pape, Manfredo de Souzanetto, Marcel Giró, Maria Leontina, Maria Lira Marques, Martin Kippenberger, Mira Schendel, Nelson Leirner, Norberto Nicola, Oswaldo Goeldi, Raymundo Colares, Roberto Burle Marx, Sergio Camargo, Takesada Matsutani, Tunga, Waltércio Caldas e Willys de Castro.

Entre as exposições mais relevantes, individuais e coletivas, destacam-se: “E você nem imagina que Epaminondas sou eu” (2014), com obras de Amadeo Luciano Lorenzato e curadoria de Rivane Neuenschwander e Alexandre da Cunha; “Atributos do Silêncio” (2015) com curadoria de Felipe Scovino, “BEUYS” (2016) a primeira exposição individual do artista alemão em galeria no Brasil; “Fabio Mauri (Senza Arte)” (2017), “Mira Schendel: Sarrafos e Pretos e Brancos” (2018), “Estratégias Conceituais” (2018); com curadoria de Ricardo Sardenberg; “Antoni Tàpies” (2019); “Bruce Conner: Breakaway” (2019); Bruno Munari: Sempre Uma Coisa Nova”(2020); “Glauco Rodrigues: Acontece que somos canibais” (2021).

Os principais objetivos da Bergamin & Gomide são a valorização e internacionalização da arte brasileira, promovida principalmente através de importantes feiras de arte internacionais das quais a galeria participa, como: as três feiras de Art Basel, TEFAF, FIAC, entre outras. O compromisso com a diversidade e a expressão cultural da arte é praticado através da elaboração de projetos baseados na pesquisa curatorial e no conhecimento dos percursos dos artistas, levando em conta uma abordagem voltada para um público amplo e plural. Com esses princípios em mente que a galeria desenvolve seu programa de exposições e artistas representados.

jOSÉ rESENDE

O artista José Resende (São Paulo, 1945), em resposta à pergunta o que te instiga, o que te move?, enuncia sem hesitar: a vida. Com um percurso artístico iniciado há quase seis décadas, Resende progressivamente buscou, atravésde suas esculturas, uma intervenção no espaço público urbano que pudesse agir no cotidiano dos passantes de modo a confrontar a tendência dessensibilizante que reside na repetição dos dias. Dessa forma, obras como o Passante (1996) do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, e a Vênus (1991) localizada na Rua do Rosário, no Rio de Janeiro, tornaram-se personagens da cidade, interagindo com quem passa por ali, seja no ir e vir da rotina de trabalho, seja dançando junto, movendo-se com os trancos dos corpos
dos foliões nos ensaios e saídas de blocos carnavalescos.

Para Resende, todas essas ativações e impactos recebidos e causados pelas obras a partir do lugar em que elas estão situadas são os aspectos que dão sentido à sua presença no espaço comum, que completam, complementam e adicionam camadas de significação ao seu trabalho.

Seja através dessas obras que preenchem o espaço através de placas de cobre, metal, aço, através de contêineres e vagões suspensos, empilhados ou blocos de concreto orquestrados em uma edificação da alternância; seja através do que o artista chamou de “desenhos tridimensionais”, linhas de tensão formando ângulos agudos entre fios de couro, barras de ferro, pedregulhos e espaços vazios – o trabalho de José Resende convoca o outro em uma experiência corporal que começa por um estranhamento mental, dada a dificuldade de colar à maioria de suas obras atribuições do comum, de um repertório de imagens e construções pré-estabelecidas. O seu interesse vem do que na obra é desconhecido, a convocatória vem do que o trabalho tem a ensinar sobre a imaginação do impossível, sobre a manipulação das coisas duras, sobre o fascínio da tensão. Nesse sentido, há momentos em que cruza com o chamamento corporal dos neoconcretos como Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas as propostas logo se distanciam quando estes não abdicam do comum como recurso e como convite à experiência corpórea que conta sobretudo com os sentidos e
com o movimento que o outro agrega à obra.

De importância incontornável no cenário contemporâneo brasileiro, o comprometimento de José Resende para com a arte sempre foi exercido não só através da sua produção, mas também do seu engajamento no debate por meio da participação e fundação de jornais, revistas como a Malasartes (1975-76), A Parte do Fogo (1980) e o Centro de Experimentação Artística Escola Brasil (1970-74), tendo iniciando sua atividade profissional na Rex Gallery & Sons, que existiu entre junho de 1966 a maio de 1967. Podendo ser associado a diversas correntes artísticas relevantes do século XX, como a arte minimalista, conceitual e povera, devido à variedade de dimensões e formas das quais lançou mão e ao uso de materiais de naturezas distintas, como a parafina e o concreto, como o vidro e o aço, o que mais chama a atenção no trabalho de José Resende é a sua singularidade que nunca permitirá restringi-lo ao programa de um movimento específico. Nesse ponto, Resende reivindica à sua obra aquilo que sua grande amiga e artista Mira Schendel também reivindicou: um poder de autonomia e síntese, um descompromisso com a comunicabilidade imediata, já que ambos exercitam, por meios distintos, a linguagem artística como potência condensada.

José Resende, Sem título [Untitled], 1980 | FOTO: Edouard Fraipont

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