Durante mais de seis décadas, o escultor britânico Ray Exworth construiu silenciosamente um dos acervos artísticos mais singulares do Reino Unido sem jamais buscar visibilidade. Em uma pequena propriedade rural na Cornualha, transformou sete galpões e contêineres em espaços tomados por esculturas monumentais, figuras em escala real e composições elaboradas a partir de materiais reaproveitados, como madeira, metal, vidro, tecidos, cera e papel. Apesar da dimensão do projeto, apenas cerca de vinte pessoas tiveram acesso a esse universo criativo, que permaneceu praticamente intocado até a morte do artista, em 2015, aos 84 anos. Mesmo sua esposa, Susie Exworth, hoje com 92 anos, dependia de um convite para entrar nos ateliês onde o escultor passava boa parte de seus dias.
A redescoberta desse patrimônio artístico acontece agora com a publicação de Ray’s Sheds, livro do fotógrafo britânico Jem Southam, amigo de Exworth desde os anos 1980. O projeto levou uma década para ser concluído e apresenta um registro inédito dos ambientes preservados exatamente como o artista os deixou. Depois de experimentar equipamentos digitais, Southam optou por utilizar uma câmera de grande formato equipada com uma lente extremamente ampla, buscando reproduzir a sensação de caminhar pelos corredores estreitos dos galpões, onde esculturas, ferramentas e obras inacabadas dividem espaço em uma organização que parece desafiar qualquer lógica convencional. O resultado ultrapassa o registro documental e transforma os próprios ateliês em protagonistas da narrativa visual.

Foto: © Jem Southam
A trajetória de Exworth ajuda a compreender a natureza profundamente pessoal de sua produção. Nascido em Ipswich, em 1930, ele viveu ainda criança os impactos diretos da Segunda Guerra Mundial, quando duas casas de sua família foram destruídas por bombardeios. Essas lembranças atravessaram sua obra de maneira recorrente, reaparecendo em esculturas inspiradas na infância, em brinquedos, jardins e personagens circenses. Entre seus trabalhos mais ambiciosos está uma reprodução em escala real do jardim reconstruído por seu pai após o conflito, uma instalação de aproximadamente dezoito metros de comprimento inteiramente moldada em chumbo, incluindo flores, hortaliças, ferramentas e estruturas de cultivo, peça de dimensões tão expressivas que permanece armazenada em um contêiner e sequer integra o novo livro.
O circo foi outro tema que ocupou anos de dedicação do escultor. Exworth trabalhou durante uma década na construção de um ambiente cenográfico povoado por mestres de cerimônia, mágicos, artistas, cavalos e malabaristas em tamanho natural. Cada elemento revela uma impressionante combinação de engenhosidade técnica e paciência artesanal. Em uma das esculturas mais emblemáticas, por exemplo, as bolas lançadas por um malabarista foram produzidas a partir de pregos retirados de pallets de madeira, martelados, moldados e soldados até formar um arco suspenso que transmite a ilusão do movimento. A inspiração para esse universo nasceu quando o artista atravessava diariamente a região de Piccadilly Circus durante seu período de serviço militar, experiência que, alimentada pela imaginação, acabou se transformando em um vasto espetáculo escultórico.

Foto: © Jem Southam
Embora tenha exercido papel importante como chefe do departamento de escultura da Falmouth School of Art entre 1959 e 1974 e realizado uma única grande exposição individual na Whitechapel Gallery, em 1975, Exworth jamais demonstrou interesse consistente em promover sua produção. Amigos e antigos colegas o descrevem como um intelectual de amplo repertório, admirador de nomes como Henry Moore e Jacob Epstein, mas absolutamente comprometido com uma visão artística própria, construída sem concessões ao mercado ou às tendências de sua época. Para eles, Ray’s Sheds representa muito mais do que um inventário fotográfico: trata-se do primeiro passo para reposicionar Ray Exworth entre os grandes escultores britânicos do século XX, tornando acessível ao público uma obra que permaneceu escondida durante toda a vida de seu criador e que agora começa, enfim, a ocupar o lugar que lhe foi negado pelo próprio artista.


