Cerca de 30 artistas transformaram modelos anatômicos costurados à mão em fantasias sobre corpo, religião, saúde e identidade diante de 400 convidados
Na nave da First Congregational Church, em Long Beach, Califórnia, uma procissão pouco convencional tomou conta do espaço em 15 de agosto. Cerca de 30 artistas da região de Los Angeles desfilaram vestidos com enormes vulvas feitas à mão durante a segunda edição da Vulva Gala, evento criado pelo School of Sexuality Project. Os modelos receberam intervenções tão variadas quanto piercings, referências religiosas e mensagens de protesto, incluindo uma obra que denuncia a violência do ICE contra mulheres grávidas. Aproximadamente 400 pessoas participaram da noite.
A ideia vem de Bridgett Khoury, mãe queer palestino-mexicana de três filhos, que fundou o School of Sexuality Project em 2020. O projeto busca afastar a educação sexual do formato exclusivamente médico e transformar o aprendizado em uma experiência coletiva, com arte, humor e encontro. “Nós colocamos o humor e a arte no centro para tornar um assunto desconfortável um pouco mais acessível”, disse Khoury. As fantasias são parte recorrente desse método. Seu pai costura os modelos anatômicos à mão, criando uma variedade de tons de pele e formatos, que depois são entregues aos participantes para que cada artista decida o que fazer com eles.

Foto: Lucas Gordon, cortesia de The School of Sexuality
Neste ano, os trabalhos começaram a ser distribuídos em fevereiro. A proposta era simples: partir de uma estrutura em branco e transformá-la em uma narrativa pessoal. “Dar essas telas em branco aos artistas deu a eles a oportunidade de contar sua história”, afirmou Khoury. Muitas das peças acabaram discutindo a influência da religião sobre a maneira como os corpos são vistos e regulados. A escolha de realizar a gala dentro de uma igreja foi deliberada. Para Khoury, o espaço permitia confrontar essas experiências diretamente, mas também abrir espaço para cura. Entre as criações apareceram referências à mandorla, forma associada a representações da Virgem Maria e da Virgem de Guadalupe.
Outros trabalhos partiram de experiências ligadas à saúde e à sexualidade. Infecções sexualmente transmissíveis, vulvodínia e deficiência entraram em cena, assim como a afirmação de que pessoas com deficiência também podem viver sua sexualidade. Houve ainda peças dedicadas ao consentimento e às relações entre xenofobia, racismo e sexismo dentro da medicina e em outras estruturas sociais. A anatomia, nesse contexto, deixa de ser apenas objeto de explicação para virar suporte de memória, denúncia e identidade.
Khoury já planeja a próxima etapa. A intenção é ampliar a gala no ano que vem e estimular versões do evento em outras cidades dos Estados Unidos, incluindo Washington, DC. As fantasias desta edição também devem ganhar uma exposição acompanhada pelas histórias de seus criadores antes de serem leiloadas para ajudar a financiar novas atividades do projeto. A questão financeira ganhou peso depois das mudanças promovidas pelo governo Trump no Teen Pregnancy Prevention Program, que retiraram recursos de iniciativas que não adotam exclusivamente a educação sexual baseada na abstinência. Para Khoury, a arte tem uma função concreta nesse cenário. “A arte ajuda as pessoas a construir empatia”, disse. “Ajuda a contar suas histórias, a se expressar e a criar conexões entre pessoas, gerações e comunidades.”






