Artista sul-africana leva obra censurada à Bienal fora do pavilhão oficial

Após veto do governo, projeto de Gabrielle Goliath é apresentado de forma independente em Veneza, enquanto o espaço nacional permanece vazio

A artista Gabrielle Goliath chega à 61ª Bienal de Veneza em uma situação singular, na qual sua obra não ocupa o pavilhão oficial de seu país, mas encontra espaço na cidade por vias independentes. Inicialmente selecionada para representar a África do Sul, Goliath teve seu projeto cancelado pelo governo poucos meses antes da abertura, após divergências sobre o conteúdo político da obra.

O trabalho, uma nova versão de Elegy, integra uma pesquisa contínua iniciada em 2015 e centrada em práticas de luto coletivo, memória e violência estrutural. Concebido como uma performance e instalação, o projeto homenageia vítimas de diferentes contextos, incluindo mulheres, pessoas LGBTQIA+ e episódios históricos de violência racial, além de incorporar referências mais recentes a conflitos internacionais.

A decisão de cancelar a participação no pavilhão partiu do ministro da Cultura da África do Sul, que classificou a proposta como “divisiva” e inadequada para a representação nacional, solicitando alterações que foram recusadas pela artista. A partir desse impasse, o projeto foi retirado integralmente, levando o país a optar por não apresentar nenhuma exposição oficial na Bienal deste ano.

Mesmo após uma tentativa judicial de reverter a decisão, rejeitada pela alta corte sul-africana, Goliath manteve a realização da obra em Veneza, agora em um espaço alternativo, fora da estrutura institucional da Bienal. Essa mudança desloca o trabalho para uma posição ainda mais simbólica, onde sua própria apresentação passa a refletir as tensões entre prática artística, liberdade de expressão e controle estatal.

Ao comentar o episódio, a artista tem enfatizado que Elegy não depende de um único contexto expositivo, mas de condições que permitam sua ativação como espaço de cuidado, memória e escuta. Nesse sentido, sua presença fora do pavilhão oficial não representa apenas uma solução logística, mas uma reconfiguração do próprio significado da obra dentro do cenário da Bienal.

O caso se insere em um contexto mais amplo de instabilidade institucional nesta edição, marcada por protestos, renúncias e disputas geopolíticas, evidenciando como os pavilhões nacionais continuam a operar como territórios de negociação entre arte, política e representação.

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