Com o manifesto Quem funda o chão conduz o amanhã, artista leva genealogia feminina do samba para a Marquês de Sapucaí
Em 2026, a artista carioca Marcela Cantuária expande sua atuação para o universo do Carnaval ao assumir a identidade visual de um camarote tradicional da Marquês de Sapucaí. Partindo do manifesto Quem funda o chão conduz o amanhã, o projeto reconhece o Carnaval como território coletivo, ancestral e profundamente marcado pelo protagonismo feminino — mulheres que sustentam o rito, guardam o tempo e conduzem o canto como base viva da cultura carnavalesca.
Criada para estampar as camisetas do camarote, a obra parte do corpo como arquivo e território de memória. Nomes de grandes Damas do Samba atravessam a narrativa visual como continuidades de uma genealogia feminina que manteve o samba pulsando mesmo sob vigilância e repressão. “Das tias às madrinhas, o samba segue passando de corpo em corpo”, afirma a artista, que enxerga quintais, cozinhas e terreiros como espaços históricos de articulação política, espiritual e coletiva.
A criação também dialoga com apagamentos simbólicos, como a destruição da Praça Onze, entendida por Marcela como a eliminação de um sistema de relações femininas que sustentava o samba. Ainda assim, para a artista, esse território persiste nos corpos que caminham, cantam e reinventam o chão. “Quase sempre, esse corpo foi o de uma mulher. Minha obra se constrói como território de reaparição.”
Formada em Belas Artes, Marcela conecta sua trajetória à história do próprio Carnaval como linguagem visual e cênica. No camarote — localizado em frente ao recuo da bateria —, sua pintura se transforma em palco para a experiência coletiva da festa. A artista também destaca o posicionamento do camarote em relação à acessibilidade, reforçando o caráter inclusivo do projeto e ampliando o diálogo entre arte contemporânea e cultura popular no coração da Sapucaí.
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