Michael Harrington desistiu de apresentar seu trabalho em Boston diante do custo imposto à arte canadense na entrada do país
Uma exposição que Michael Harrington preparava para novembro em Boston foi cancelada antes mesmo de começar. O artista de Ottawa decidiu retirar seus trabalhos da mostra na Ellen Miller Gallery depois de calcular o impacto de uma tarifa de 50% sobre obras de arte canadenses que entram nos Estados Unidos.
A decisão veio após Harrington conversar com uma colega de uma galeria de Montreal. Ela relatou que havia perdido a venda de uma pintura avaliada em US$ 10 mil (aproximadamente RS$ 50 mil) para um comprador de Illinois justamente diante da possibilidade da nova cobrança. Com a tarifa, o custo poderia chegar a US$ 15 mil (cerca de R$75 mil). “Ninguém vai pagar esse valor de imposto em uma pintura”, afirmou Harrington à CBC. O episódio o levou a investigar como a medida afetaria sua própria exposição.
O ponto decisivo apareceu em uma conversa com sua representante em Boston. Harrington perguntou quem seria responsável pelo pagamento. A resposta, segundo ele, indicava que a galeria teria de arcar com a tarifa quando as obras atravessassem a fronteira, antes mesmo de serem vendidas. “Eu não esperaria que ela fizesse isso. É muito complicado e caro”, disse. Os dois chegaram então a uma conclusão prática: suspender a exposição até que a questão comercial seja resolvida.
O impacto potencial vai além de uma única mostra. Segundo a CARFAC National, organização sem fins lucrativos que representa artistas profissionais canadenses, a arte corresponde a cerca de 5% das exportações anuais do Canadá para os Estados Unidos. A entidade alerta que as tarifas podem provocar o cancelamento de exposições, reduzir vendas, limitar oportunidades profissionais e dificultar colaborações internacionais. Para a diretora executiva nacional interina Jenna Faye Powell, artistas independentes não têm a mesma capacidade financeira de grandes empresas para absorver custos adicionais. “Isso não é apenas uma questão econômica. As artes desempenham um papel vital na cultura e na sociedade canadenses”, afirmou em comunicado.
Harrington já levou a questão ao governo canadense. Depois de procurar o gabinete do primeiro-ministro Mark Carney, recebeu a informação de que suas preocupações seriam encaminhadas aos ministros das Finanças e do Comércio. Entre as possibilidades discutidas pelo artista está a suspensão do HST, imposto sobre vendas aplicado a bens e serviços no Canadá, para obras de arte. Enquanto as negociações comerciais seguem, a tarifa já produz um efeito imediato no circuito artístico: uma exposição internacional pode se tornar inviável antes mesmo que a primeira obra seja colocada na parede.


