Artista brasileiro realiza mostra em Veneza com artistas PCD

A exposição NAUFRAGI – APPRODI, do artista brasileiro César Meneghetti, e das Oficinas de Arte da Comunidade de Sant’Egidio, com curadoria de Alessandro Zuccari, é uma exposição que nasceu das reflexões que grupos de
artistas com deficiência elaboraram e compartilharam com Meneghetti sobre as jornadas dos migrantes e sobre a tragédia dos muitos que perderam a vida tentando chegar à Europa: nomes, histórias, números.

A exposição acontece no átrio do museu, onde os reflexos da água brincam no mosaico do chão e no revestimento de mármore das paredes. NAUFRAGI – APPRODI é dedicado à memória das 3.129 crianças e adultos que fugiram das guerras, da pobreza e de emergências climáticas, que perderam a vida em 2023 no Mediterrâneo e ao longo do
Rota dos Balcãs.

O encontro direto com a realidade dos migrantes e refugiados visa encorajar uma visão ativa de mundo através da arte e estimular o interesse e o conhecimento de questões altamente atuais, como desigualdade entre os povos e solidariedade.

Em uma das obras, composta por um mosaico desenhado por Giorgio Franchetti para evocar os das basílicas
dos primeiros cristãos, existem 3.129 pequenos barcos de papel, frágeis como botes ou escunas, criado por pessoas com deficiência. À beira da água do Grande Canal, Marianna Caprioletti (artista com síndrome de Pendred) propõe uma paródia gráfica de A Jangada da Medusa, de Thédore Géricault, sobre o naufrágio que ocorreu em 1816 na costa da África. Roberto Mizzon, que desafia suas dificuldades motoras, inverte o destino da “jangada”: seu tríptico é dedicado ao possível local de desembarque criado pelos Corredores Humanitários, graças aos quais mais de 7.000 refugiados chegaram de forma segura e legal à Europa.

César Meneghetti e os Laboratórios Sant’Egidio, convencidos de que a arte não deve excluir ninguém, ativam um processo inclusivo de superação de preconceitos, incluindo o do sistema artístico. Desta forma, a fragilidade destes artistas transforma-se numa força comunicativa, contrastando com um sisetma que faz daqueles que são mais fracos objetos de isolamento, rejeição ou prisão, em vez de sujeitos ativos e integrados. É um processo que transforma todos os envolvidos, removendo todo tipo de barreiras.

Meneghetti investiga desde 2010 com os Laboratórios os limites que dividem as pessoas do nosso tempo, para tornar audíveis as vozes que não ouvimos. Assim emergem palavras e pensamentos desconhecidos, mas também experiências de libertação, redenção e esperança.

 

VEJA ABAIXO ENTREVISTA EXCLUSIVA COM O ARTISTA

O que é a mostra na Galeria Giorgio Franchetti na Ca’ D’Oro em Veneza?

A mostra NAUFRÁGIOS – DESEMBARQUES (em italiano Naufragi – Approdi) é dedicada à memória das 3.129 pessoas que fugindo das guerras, da pobreza e das emergências climáticas numa tentativa desesperada de entrar ilegalmente na Europa perderam a vida no Mediterrâneo em 2023.

A exposição como acontece há mais de 10 anos  é fruto de uma sinergia entre o meu trabalho e aquele dos artistas portadoras desabilidade intelectual e física dos Laboratórios de arte de Sant’Egídio na periferia de Roma.

No átrio do palácio Ca’ D’Oro (que significa Casa de ouro, hoje um museu), no mesmo nível do mar e do Canal Grande, o visitador se depara com minha videoinstalação NAUFRÁGIOS – DESEMBARQUES, uma enorme parede de Led (10 metros de comprimento) e entra em contato direto com a tragédia dos migrantes e refugiados. O vídeo, vemos um mar criado em 3D por Fabio Iaquone que é vermelho e se torna quase preto e sombrio. Nenhuma imagem ou som são realistas, e ao longo dos 11 minutos esse mar começa a desintegrar-se, até virar puro fluxo, de luz, de pixels, de uns e de zeros. Uma alusão intencional à era numérica, dos algoritmos, a Inteligência Artificial, aos processos determinísticos, probabilísticos, randômicos onde a imagem nos engana, onde nada é real, mas tudo é resultado de ficções homologadas. O áudio surdo, quase silencioso, solene, criado a partir do sampler de vários sons de Tiberio Pandimiglio, quer abrir neste mar fictício, neste “não-lugar” – algo entre a palavra escrita e o silêncio. A videoinstalação NAUFRÁGIOS E DESEMBARQUES explode assim nestes quatro elementos quase estáticos: a sequência de imagens de luz, o som, os nomes, os pequenos barcos: uma anti-narração, uma presença imponente que nos sinaliza que estas pessoas já não existem, não são anónimas e merecem nosso respeito.

No chão com o mosaico realizado pelo próprio barão Giorgio Franchetti (que comprou e restaurou a Ca’ D’oro em 1894) vemos 3.129 barquinhos de papel, realizados no laboratório, num resgate simbólico de todos os náufragos. A fragilidade do chão, e dos barcos podem a qualquer  momento serem submersos pela “acqua alta”, uma enchente que afoga Veneza,os mosaicos do Cà d’Oro, e também os barcos de papel que partirão ao mar, para recuperar e salvar outras vidas.

Além da minha instalação foram montadas duas telas realizados por dois dos melhores dos laboratórios e que curei duas mostras em Roma: Roberto Mizzon (que foi internado muitos anos num manicômio romano) que leva o titulo de “Corredor humanitário” uma ação que trouxe em segurança mais de 7 mil refugiados na Europa, e Marianna Caprioletti (portadora da síndrome de Pendred) com uma releitura atual de “Le Radeau de la Méduse” de Théodore Géricault.

Como os visitantes reagiram ao trabalho?

Muitas pessoas ao verem a videoinstalação, me falaram que ficaram “emocionados”, mesmo em um trabalho todo “fora de campo”. Uma amiga, Rebeca Shu, me lembra que a origem etimológica da palavra emoção “EMOVERE”, do latim, quer dizer mover para fora, migrar, transportar. Talvez essas duas vibrações de movimento se comunicam em alguma maneira. Das 3129 vitimas, a única referencia que temos são os 240 nomes dos náufragos que foram recuperados por pesquisadores, que lemos e ouvimos, recitados pelos próprios artistas com desabilidade intelectual dos laboratórios de Sant’Egídio. Dos outros 2889 náufragos nada sabemos, não existem estatísticas, não sabemos seus nomes, seus anseios, sonhos, a razão de suas vidas. A obra é uma espécie de sinédoque virtual, onde uma coisa que remete à outra e são só signos e símbolos. E a partir disso entramos num outro campo, o do poder da mídia, de uma certa crítica à I.A., do verdadeiro e do falso. Como na web, nas mídias sociais nos deparamos com realidades fictícias que não existem. Vemos um mar digital realístico que não existe. Esse mar que já não existe, se transforma e se desintegra cada vez mais em dígitos e símbolos abstratos, ou seja, naquilo que ele é realmente: um magma eletrônico que nos dá a impressão de realidade. Quando ouvimos um coro de vozes, numa espécie de “chamada” de escola, com os nomes dos ausentes ouvimos também uma não musica, nomes somente falados ou lidos. Não nenhum apelo ao realismo ou a verossimilhança, nem mesmo enquadramentos de pessoas nos barcos ou mortos. Nada disso, só indícios de uma tragédia, um réquiem.

Qual a relação do teu trabalho e a Bienal 2024?

A inauguração, dia 18 de abril, um dia após a abertura da 60° Bienal de Arte de Veneza de Adriano Pedrosa que tem o título “Estrangeiros em todo lugar” não é uma mera coincidência. A nossa mostra, em paralelo a bienal são “Estrangeiros sem nenhum lugar”, estrangeiros, refugiados, migrantes sem direito a existência”, são náufragos anônimos, que tem uma existência pouco importante segundo os sistemas civilizacionais.

Creio que a mostra entra em cheio com a intenção da 60ª Bienal que abre terreno para fundar as bases de uma história que aceite aqueles que foram marginalizados não apenas em sua narrativa oficial, mas também a sua sobrevivência e permanência em um norte global cada vez mais refratário. Falamos de migrantes provindos da África do norte, da Síria, do Afeganistão entre outros. E os trabalhos foram realizados por um migrante, eu no caso, um brasileiro do Sul Global, trabalhando com pessoas do Norte Global, mas portadoras de deficiência física, mental e intelectual, excluídos na própria pátria. Neste sentido, existe um dialogo simbólico, que provém de outras sensibilidades e compreensões da cultura hegemônica e que fala de um fato objetivo, a migração forçada causada por guerras, desequilíbrio climático e disparidade econômica entre o norte e o sul do mundo.

Porque você fez esse trabalho, ligado aos temas emergenciais do norte global?

Não faço esse trabalho por oportunismo ou modismo. Trabalho com grupos e realidades em situação de fragilidade social, mental, financeira e humana desde o século passado. É parte do que acredito profundamente, que todos em coletivo podemos mudar o mundo. Que os artistas jogam uma parte fundamental nesse processo de criar novos mundos, modos de existencia, e que sobretudo não estamos aqui para brincar com cores e jogá-las numa tela. Vivi 27 anos na Europa e me tornei um artista brasileiro que atua no campo internacional, mas que tem um pensamento, uma poética, um óculos cultural típico de quem vem do Sul Global. Sempre lutei para uma reviravolta nas diretrizes artísticas fora do norte global hegemonico e ocidental o que vem acontecendo depois da pandemia, com mostras como a Documenta de Kassel, curada pelo grupo indonésio ruangrupa, na Bienal de São Paulo pelo grupo curatorial composto por Grada Kilomba, Hector Menezes e Diane Lima, a Bienal de Adriano Pedrosa reflete em pleno essa inversão de tendencia. Na Europa sou considerado um artista do Sul global e no Brasil um artista do Norte. Estou sempre entre os dois mundos, sendo discriminado às vezes e outras vezes osanado. Acho que isso pode ser positivo se tentarmos unir as forças dos que querem como pauta Krenak evitar o fim do mundo, e não separar com um individualismo extremos, como acontece na sociedade capitalista neoliberal. Acho que temos que aprender muito com os povos originarios do Brasil como pontua o video “Equilibrio” de Olinda Tupinambá em mostra no Pavilhão Brasil.

No meu caso a exposição foi realizada e patrocinada com o apoio da Comunidade de Sant’Egídio e de alguns sponsors privados, e é também patrocinada pelo Itamaraty, através da Embaixada do Brasil em Roma, do IGR (Instituto Guimarães Rosa) que leva cultura brasileira para fora, e também pela Universidade Sapienza de Roma. O mesmo sincretismo artístico foi também implantado na parte da realização e no envolvendo vários atores institucionais e internacionais.

Porque o seu trabalho está ligado ao tema migração? E o que te inspira?

Venho de uma família de imigrantes europeus (Itália e império Austro-húngaro) que foi para o Brasil no início do século XX. Então a minha história de toda a minha família e do processo migratório está impressa no meu DNA e meu trabalho está conectado com questões de trajetórias, memórias, pessoas e viagens desde que nasci.

Trabalhos e propostas principalemente realizadas no campo imaterial como vídeo, fotografia e performance ganharam cada vez mais espaço no incio do século XXI, me apaixonei pelo audiovisual, pela imagem em movimento pois percebi que estes meios eram perfeitos para expressar a minha “condição migrante”, onde imagens, pessoas, vida, estão sempre em movimento.

Lidando com a diferença de culturas, sentimentos de perda, sobrevivendo e ao mesmo tempo sendo muito estimulado por esse novo ponto de vista. A maior parte do meu trabalho centra-se nesta questão, numa forma de observar comportamentos, comparar situações, e aumentar uma certa “relatividade” na objetividade europeia e sistematizar o sincretismo plural da cultura brasileira. A pluralidade de pontos de vista, a imagem em movimento como descodificador de uma visão que nunca pode ser tomada como certa.  Com a ampliação da distância, dos sentimentos de saudade, de solidão, de descentralização da condição humana na confort zone, passei a amar tudo o que era relativo ao “outro”, tudo que ultrapassa as simples fronteiras políticas e pode representar uma nova forma de desenvolvimento. Meu trabalho se resume nesse esforço, de tentar construir uma visão sobre as problemáticas do Sul Global, do Norte hegemônico e relativizar as posições, para ir além e chegar quem sabe a uma realidade sem fronteiras, universal.

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