Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça mostram que Jeffrey Epstein encomendou uma grande reprodução de Massacre dos Inocentes para decorar a entrada de seu rancho no Novo México
Arquivos judiciais recentemente tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam que o financista condenado por abuso sexual de menores Jeffrey Epstein mandou fabricar uma réplica em grande escala de The Massacre of the Innocents, pintura original de 1591 do artista flamengo Cornelis Cornelisz van Haarlem. A obra, que retrata a violência ordenada pelo Rei Herodes na narrativa bíblica — com soldados romanos assassinando crianças — foi feita sob encomenda para a entrada do Zorro Ranch, a propriedade de Epstein próxima a Santa Fe, no Novo México. Um episódio que acende novas questões sobre suas relações com a arte e o gosto pessoal associado a um criminoso condenado.
Segundo um e-mail de julho de 2011 incluído nos Epstein Files, a assistente de Epstein, Sarah Kellen, instruiu um funcionário a enviar pelo correio a grande tela de óleo para o rancho — um quadro de cerca de 2,7 m por 2,7 m que, segundo o documento, deveria ficar à vista na entrada, “onde eles estão matando bebês”. A reprodução foi encomendada de uma empresa que produz cópias de obras clássicas por cerca de US$ 1.999 em 28 de dezembro de 2010, data que coincide com a festa religiosa conhecida em algumas tradições cristãs como o “Dia dos Santos Inocentes”, em referência ao episódio bíblico retratado na imagem.
A cena do massacre — tema recorrente na pintura barroca, também retratada por nomes como Peter Paul Rubens, Tintoretto e Lucas Cranach, o Velho, em diferentes versões ao longo da história — ganha um contexto moralmente carregado quando relacionado a Epstein, cujo histórico de crimes e abuso de menores dominou investigações e debates públicos por anos mesmo após sua morte em 2019. A inclusão dessa encomenda artística nos arquivos reforça a profundidade dos materiais agora acessíveis para pesquisadores e jornalistas, que vêm analisando centenas de documentos, imagens e e-mails como parte do esforço de transparência dirigido pelo Departamento de Justiça.
O episódio acrescenta uma camada adicional à compreensão pública da personalidade de Epstein e de como ele se posicionava em relação à arte e à cultura — ilustrando, com um exemplo visual chocante, o entrelaçamento entre poder, estética e narrativa moral em torno de um dos casos mais controversos do início do século XXI.


