Apesar da pandemia, agentes do setor de arte apresentaram desempenho positivo em 2020

Luiz Zerbini. A árvore do viajante, 2020. Fortes D'Aloia & Gabriel.

O ano de 2020 foi incomum e difícil para todos os setores econômicos e a expressão “se reinventar” foi a que mais se fez presente entre empresários e trabalhadores. Uma parcela dos agentes do mercado de arte contemporânea no Brasil, de menor porte, que movimentou até R$500 mil em 2019, consegue hoje enxergar resultados positivos, sendo eles iguais ou melhores em 2020, mesmo em um ano conturbado.

As informações são de uma pesquisa realizada de janeiro a setembro com o objetivo de avaliar o impacto da pandemia no mercado da arte contemporânea. O estudo foi uma iniciativa do Projeto Latitude, realizado pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea – ABACT em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – Apex-Brasil; e foi conduzido e desenvolvido pela Além Consultoria em Cultura. Com o objetivo de aumentar sua abrangência na América Latina, a pesquisa foi realizada em colaboração com Meridiano/Cámara Argentina de Galerías de Arte Contemporáneo (Argentina), Sísmica/Asociación de Galerías de Arte Contemporáneo (Chile) e a feira ArtBO/Cámara de Comercio de Bogotá (Colômbia). A análise foi realizada com agentes do mercado de arte – em sua maioria galerias – do Brasil e dos mercados da Argentina, Chile e Colômbia.

No Brasil, entre os 54 agentes que responderam à pesquisa, há empresas que movimentaram até R$500 mil em 2019 e há um grupo que movimentou mais de R$10 milhões no ano passado. Em comparação ao último ano, a maioria dos respondentes brasileiros (58%) indicou ter tido um volume de negócios igual ou superior, de janeiro a março. Já de abril a junho, 56% disse que registrou variação negativa do seu volume de negócios. E no trimestre seguinte, houve uma recuperação do setor, e 55% dos respondentes indicaram uma variação positiva dos negócios efetuados no período. As empresas maiores, atuantes no mercado de arte, que movimentaram mais de R$10 milhões no ano passado, em sua maioria viram as vendas equivalentes ou melhores no 1º trimestre; piores no 2º trimestre; e melhores no 3º trimestre.

Com relação às vendas internacionais, 7 entre 13 dos respondentes que movimentaram até R$500 mil não realizaram vendas para o exterior em 2020 e aqueles que realizaram, reportaram que as vendas se mantiveram no mesmo patamar em relação ao ano passado. Já a maioria das empresas do grupo dos que movimentaram mais de 10 milhões realizaram vendas para o mercado internacional em 2020 (6 entre 7). Porém, as galerias desse grupo reportaram que as vendas para o exterior diminuíram em relação ao mesmo período em 2019. Dos que fizeram vendas ao mercado internacional, 21% informou que o número é maior do que as vendas realizadas em 2019, no mesmo período (janeiro a setembro).

A pesquisa revelou que o impacto da pandemia foi mais grave para as empresas que movimentam um maior volume de recursos, que trabalham com um ticket médio mais elevado, marcam presença nas feiras de maior prestígio e que têm maior inserção internacional. As pequenas estruturas, supostamente mais frágeis, tiveram melhor desempenho e registraram perdas menores do que o grupo das galerias com as maiores receitas.

Mesmo com o cancelamento de eventos presenciais, as galerias de arte não pararam de participar de feiras internacionais, que se moldaram para formatos virtuais. 83% dos agentes do mercado de arte nacionais aderiram às feiras online, como exemplo a Latitude Art Fair, promovida pelo Projeto Latitude e realizada em setembro, que assim como alguns outros eventos digitais nasceram neste novo contexto imposto pelas medidas de isolamento social. Mais de 50 galerias brasileiras participaram da Latitude Art Fair e assim como outras feiras nacionais, apresentou resultados positivos. Conclui-se então que, dentro da atual conjuntura, a presença em eventos virtuais culminou em resultados positivos a uma parcela expressiva do mercado.

O gráfico abaixo ilustra como foram as vendas em geral do mercado de arte brasileiro de janeiro a setembro de 2020 quando comparadas ao mesmo período de 2019.

Novas estratégias se tornaram necessárias

A atuação dos agentes do mercado de arte antes da pandemia se resumia muito a visitas às sedes das galerias e na presença em exposições e feiras de arte nacionais e internacionais. Como mencionado anteriormente, a participação em feiras no formato digital foi bastante representativa neste ano, e os resultados positivos apontam para uma tendência de manter este formato como alternativa mesmo quando houver a possibilidade de ocorrerem eventos presenciais.

Outro dado apurado pela pesquisa é de que algumas mudanças foram implementadas nas empresas, como a melhoria e ampliação da presença digital. Além da participação em feiras online, as ações mais citadas foram: renovação do site, investimento em novos conteúdos digitais, maior presença em plataformas digitais, participação em marketplaces, desenvolvimento de viewing rooms e um maior investimento e atenção às mídias sociais, além do contato mais próximo e direto com colecionadores via whatsapp, telefone e email.

Para enfrentar a crise os países também contaram com recursos e políticas públicas e no Brasil, 71% dos respondentes se beneficiaram desta ajuda. No Brasil destacam-se as iniciativas do projeto Latitude, que beneficiaram mais de 30% dos respondentes, o crédito emergencial de apoio à manutenção de empregos e o adiamento de prazos para pagamento de impostos, utilizados por 18,1% dos respondentes.

Parcerias e colaborações também se mostraram um método eficiente. 66,1% dos agentes do mercado brasileiro informaram ter realizado novas parcerias no contexto da pandemia com foco na coletivização das soluções, com novas práticas, como a divisão de meta de venda com outras galerias, por exemplo. Uma iniciativa de parceria citada por 21% dos respondentes foi a p.art.ilha – grupo aberto de galerias de arte e agentes culturais afetados pela crise do Covid-19 para criar estratégias de fortalecimento do mercado de arte. Outras ações coletivas citadas foram promovidas e desenvolvidas por meio da ABACT e aproximação com outros agentes multiplicadores como art advisors e arquitetos.

Pensando no futuro

Para 2021 o grupo de empresas que viu os negócios neste ano surpreenderem, mesmo com tantas adversidades, está mais otimista, esperando um cenário de estabilidade e crescimento para os próximos meses. O sentimento de incerteza, porém, ainda está presente, principalmente entre as galerias de maior porte. Enquanto algumas acreditam que em 2021 será um ano de maior estabilidade e crescimento, impulsionadas pela recuperação das vendas no 3º trimestre, outras ainda acreditam que haverá redução de lucro. No entanto, de modo geral, a pesquisa permite um prognóstico otimista, ancorado na resiliência e capacidade de resposta dos agentes do setor ao contexto de crise.

Sobre o Latitude – Platform for Brazilian Art Galleries Abroad

O Latitude é um programa desenvolvido por meio de uma parceria firmada entre a Associação Brasileira de Arte Contemporânea – ABACT e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – Apex-Brasil, para promover a internacionalização do mercado brasileiro de arte contemporânea. Criado em 2007, conta hoje com 58 galerias de arte do mercado primário, localizadas em sete estados brasileiros e Distrito Federal, que representam mais de 1000 artistas contemporâneos. Seu objetivo é criar oportunidades de negócios de arte no exterior, fundamentalmente através de ações de capacitação, apoio à inserção internacional e promoção comercial e cultural.

O volume das exportações definitivas e temporárias das galerias do projeto Latitude vem crescendo significativamente. Em 2007, foram exportados US$ 6 milhões e, de acordo com a última Pesquisa Setorial Latitude publicada, em 2017 atingiu-se mais de US$ 65 milhões. As galerias Latitude foram responsáveis por 42% do volume total das exportações do setor no ano.

Desde abril de 2011, quando a ABACT assume o convênio com a Apex-Brasil, foram realizadas 48 ações em mais de 26 diferentes feiras internacionais, com aproximadamente 300 apoios concedidos a galerias Latitude. Neste mesmo período, foram trazidos ao Brasil aproximadamente 250 convidados internacionais, entre curadores, colecionadores e profissionais do mercado, em 23 edições de Art Immersion Trips. Além dessas ações, o Latitude realizou cinco edições de sua Pesquisa Setorial, com dados anuais sobre o mercado primário de arte contemporânea brasileira.

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