Alessandra Rehder recria a floresta como experiência sensorial no Museu Lasar Segall

Alessandra Rehder, Museu Lasar Segall. Foto: Guilherme Cruz.

Exposição reinventa o olhar sobre a natureza com obras que atravessam fotografia, instalação e memória ambiental

O Museu Lasar Segall recebe a nova exposição de Alessandra Rehder, Xaiure maaraesé xasaysu ndé (Eu vim porque te amo): das cinzas à criação, um projeto que propõe uma experiência sensorial e reflexiva sobre a relação entre imagem, natureza e atenção.

Mais do que apresentar fotografias, a artista cria atmosferas imersivas que tensionam os limites entre ver, sentir e imaginar os ritmos de um mundo em transformação. Em suas instalações, a floresta deixa de ser representação e passa a ser um organismo visual — vivo, pulsante, instável.

Alessandra Rehder, Museu Lasar Segall. Foto: Guilherme Cruz.

A MOSTRA

A exposição se estrutura como um percurso sensorial: camadas de imagens, volumes recortados, dispositivos de memória e temporalidade compõem um ambiente que convida o público a desacelerar e reaprender a ver.

Em Imersão Amazônica, milhares de folhas recortadas se sobrepõem a uma imagem real da floresta primária do Pará. A fotografia deixa de ser plano e se torna volume, corpo, matéria — um dispositivo que exige deslocamento físico e sensível do visitante.
Já em Círculo do Tempo as seções de troncos revelam os anéis de crescimento das árvores como registros de um tempo não humano. O vídeo em time-lapse inverte a ordem de crescimento, propondo uma arqueologia reversa que reflete sobre finitude, desaparecimento e intervalos como forma de pensamento.

No trabalho Rolo da Floresta, Rehder desloca a fotografia para o território dos dispositivos: rolos, testes, negativos e registros de múltiplos biomas são expostos ao lado de uma televisão que exibe ensaios e erros. A natureza aqui não é fixada como paisagem, mas revelada como processo — narrativa em construção.

A exposição nunca se fecha em denúncia ou literalidade. Em vez de reforçar mensagens ambientais prontas, propõe um campo de atenção, ética e presença. A floresta, nesse contexto, não é símbolo, mas uma entidade complexa que respira e resiste.

Alessandra Rehder, Museu Lasar Segall. Foto: Guilherme Cruz.

A ARTISTA

A prática de Alessandra Rehder se destaca por tensionar o limite entre a fotografia e a escultura, entre a imagem e a experiência. Sua pesquisa atravessa biomas, temporalidades e materiais, buscando modos de devolver ao mundo natural a densidade que o olhar contemporâneo frequentemente esvazia.

Entre acúmulo, escavação e recomposição, a artista cria uma poética que articula rigor formal, afeto e experimentação. Seu trabalho dialoga com artistas como Tacita Dean, Ana Teresa Barboza, Zoe Leonard e Caio Reisewitz — criadores que investigam os limiares entre paisagem, memória, política e percepção.

A CURADORIA

Segundo o curador Luiz Armando Bagolin, a exposição pertence a uma linhagem rara: a das mostras que não apenas exibem obras, mas instauram atmosferas. Em Xaiure maaraesé xasaysu ndé, ver torna-se um ato ativo, quase ritualístico, em que a fotografia migra da captura para a escuta.

Bagolin destaca que o gesto de Alessandra é o de restituir à natureza sua complexidade e opacidade originais — qualidades frequentemente apagadas pela repetição técnica das imagens ecológicas e pela saturação do discurso ambiental.
A mostra reivindica uma “pedagogia da atenção”: um convite para contemplar o ambiente e sua instabilidade poética, para se demorar, reconstruir e deixar-se afetar.

O uso de um título em língua originária — “Eu vim porque te amo” — aponta para uma relação ética com os povos que há séculos guardam e conhecem as florestas brasileiras. Não se trata de apropriação, mas de reconhecimento e deslocamento: amar a floresta, aqui, exige escuta e transformação.

Alessandra Rehder, Museu Lasar Segall. Foto: Guilherme Cruz.

UMA EXPOSIÇÃO SOBRE O TEMPO, A ESCUTA E O VÍNCULO SENSÍVEL COM A NATUREZA

Ao propor uma dramaturgia do visível que se constrói folha por folha, anel por anel, Alessandra Rehder inscreve sua obra entre o estético e o político.
Em tempos de devastação acelerada e banalização da imagem, a artista oferece o que talvez seja o gesto mais radical: devolver ao olhar sua capacidade de sentir, imaginar e cuidar.

Xaiure maaraesé xasaysu ndé (Eu vim porque te amo): das cinzas à criação fica em cartaz até 28 de fevereiro de 2026, no Museu Lasar Segall, na Rua Berta, 111, Vila Mariana, São Paulo, SP. A entrada gratuita, de quarta a segunda, das 11h às 19h. Mais informações e agendamento pelo (Whatsapp): +55 61 3521-4138

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