Ciclo promovido pelo Sesc São Paulo reúne especialistas, artistas e gestores culturais para discutir práticas inclusivas que transformam a criação, a mediação e a experiência das artes visuais e da cena contemporânea
Na reta final da quarta edição da Frestas, Trienal de Artes realizada em Sorocaba, a acessibilidade deixa de ocupar um espaço complementar para assumir protagonismo na programação do evento. Entre os dias 6 e 9 de agosto, o Sesc São Paulo promove o ciclo Acessibilidade Cultural em Debate, experiências e inspirações, iniciativa que amplia as discussões propostas pela exposição do caminho um rezo e coloca em evidência os desafios e as possibilidades de construir uma produção artística verdadeiramente comprometida com a diversidade de públicos. A programação foi concebida pela pesquisadora e consultora em políticas públicas Gislana Monte Vale, com articulação territorial de Anderson Nascimento, integrante da AFENDA, associação que acompanha o projeto de acessibilidade da Trienal desde sua concepção.
Em cartaz até 16 de agosto, a mostra reúne 102 participantes, entre artistas e iniciativas comunitárias brasileiras e internacionais, além de 188 obras, das quais 26 foram especialmente comissionadas para esta edição. O projeto curatorial incorpora a acessibilidade como parte da própria experiência expositiva, integrando recursos que dialogam diretamente com diferentes formas de percepção e fruição. Audiodescrição, conteúdos em Braille, videoguia em Libras, legendas acessíveis, recursos táteis, piso direcional, sinalização inclusiva e visitas mediadas com intérprete de Libras fazem parte do percurso, reafirmando uma proposta que reconhece artistas com deficiência como protagonistas da produção contemporânea e rejeita abordagens estereotipadas sobre a deficiência no campo das artes.
Ao longo de quatro dias, pesquisadores, educadores, artistas, gestores culturais e coletivos de diferentes regiões do país participam de mesas de debate e oficinas voltadas à reflexão sobre o direito à cultura, os processos criativos inclusivos e os caminhos para ampliar o acesso às produções artísticas. Entre os convidados estão representantes do Museu Paulista da USP, especialistas do Sesc São Paulo, integrantes da AFENDA, artistas e pesquisadores que compartilham experiências relacionadas à acessibilidade estética, à comunicação cultural, aos festivais de arte e às políticas públicas voltadas à inclusão. As atividades também abordam o desenvolvimento de estratégias para ambientes culturais mais acolhedores, capazes de incorporar a acessibilidade desde o planejamento até a mediação com o público.
A programação se estende para além dos encontros teóricos e investe em experiências que aproximam diferentes linguagens artísticas. A mostra audiovisual Sessão Curtíssimas reúne produções que exploram novas possibilidades de percepção sensorial e promove conversas sobre cultura, protagonismo e diversidade após as exibições. A agenda inclui ainda o show da Banda MVM e apresentações que incorporam recursos acessíveis à própria linguagem cênica, como o espetáculo Hereditária, protagonizado por Moira Braga, cuja dramaturgia integra audiodescrição, interpretação em Libras e recursos sonoros à narrativa, além de oferecer visita tátil ao cenário para pessoas cegas e com baixa visão. Encerrando o ciclo, A Voz de Maria Amazonina, da Coletiva de Palhaças, transforma memória, ancestralidade e tradição popular em uma experiência que aproxima comicidade, espiritualidade e identidade cultural.
Com entrada gratuita para a maior parte das atividades, mediante inscrição antecipada ou retirada de ingressos nos casos indicados, o ciclo reforça um movimento cada vez mais presente nas instituições culturais brasileiras, que compreendem a acessibilidade não apenas como um conjunto de adaptações técnicas, mas como um princípio estruturante da criação artística e da participação social. Ao incorporar diferentes perspectivas sobre inclusão e reunir profissionais que atuam diretamente na transformação das práticas culturais, a programação consolida a Frestas como um espaço de experimentação, troca de conhecimento e reflexão sobre o futuro das políticas de acesso à arte no país.


