Museu avalia agora os riscos de restaurar a peça após descoberta por raio-X
Por décadas, uma figura nua agachada no canto esquerdo de um relevo de Paul Gauguin escondeu um segredo sob camadas de tinta verde. A obra Te Fare Amu, esculpida para adornar a entrada da casa do artista na Polinésia entre o fim do século XIX e início do XX, chegou aos Estados Unidos em 1954 pelas mãos do colecionador Henry Pearlman. O que ele não imaginava é que, ao tentar “domesticar” a pintura para escapar dos olhos da alfândega americana, criaria um enigma que agora desafia os conservadores do Brooklyn Museum.
A cena é tipicamente gauguiniana: uma mulher nua e recurvada, com pontos vermelhos descendo pela espinha e lábios exageradamente rubros. Na versão original, o artista pintara seus genitais também de vermelho — um detalhe considerado “obsceno” pelas rígidas leis de importação dos EUA nos anos 1950. Para evitar o confisco da peça, Pearlman simplesmente pegou um pincel e cobriu a região com tinta verde. O panel permaneceu censurado desde então, e o ato só veio à tona graças a imagens de raio-X disponíveis no site da Fundação Pearlman.
Quando a obra foi emprestada para a exposição “Gauguin: Artist as Alchemist” no Art Institute of Chicago, em 2017, conservadores identificaram um problema técnico de peso: a tinta verde utilizada por Pearlman aderiu de forma tão profunda ao vermelhão original que qualquer tentativa de remoção poderia danificar irreversivelmente a camada criada por Gauguin. Na ocasião, a intervenção foi considerada “inaconselhável”.
Agora, Te Fare Amu volta ao centro do debate. A peça integra o lote de 29 obras doadas pela Fundação Pearlman ao Brooklyn Museum, como parte da dispersão da coleção que também beneficiou o Museu de Arte Moderna de Nova York e o LACMA. Atualmente em cartaz no museu de Los Angeles (até 19 de julho) na exposição “Cézanne to Modigliani: Gifts of Modern Art from the Pearlman Collection”, o relevo viajará para o Brooklyn no outono do hemisfério norte. É lá que os conservadores prometem reexaminar o problema. “Vamos analisar isso com nossa equipe de conservação”, limitou-se a dizer um porta-voz do museu ao Art Newspaper, deixando em aberto a possibilidade de, enfim, revelar o que Gauguin pintou — e Pearlman escondeu.


