POR MARC POTTIER
“Sonhamos antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só contemplamos com paixão estética as paisagens que vimos primeiro em sonhos… reconhecemos no sonho humano o preâmbulo da beleza natural. A unidade de uma paisagem se oferece como a realização de um sonho frequentemente sonhado… a paisagem onírica não é uma moldura que se preenche de impressões, é uma substância que transborda vida.”
Gaston Bachelard, L’eau et les rêves, 1978
Um olhar apaixonado sobre paisagens vistas pela primeira vez em sonhos
Com as Paisagens Oníricas de Ilca Barcellos, somos imediatamente conduzidos aos pensamentos do filósofo e químico francês Gaston Bachelard (1884–1962). Em suas instalações, a artista — bióloga de formação — busca menos produzir “uma moldura que se preencha de impressões” do que reunir “uma matéria fervilhante” capaz de pôr as coisas em movimento. Em suas paisagens, Ilca apresenta uma obra complexa, composta por mais de 800 elementos cerâmicos suspensos e dispostos com base no estudo do processo de transfiguração pelo qual uma paisagem se constitui.
Transfiguração é uma mudança deliberada de aparência, obtida pela representação ou organização de um lugar, que se torna um signo icônico de algo que o ultrapassa, revelando assim seu potencial. Além disso, enquanto escrevemos estas linhas, nada nos permite antecipar a forma final que Ilca dará às suas composições. Suas paisagens estão em constante transformação e poderiam assumir configurações completamente diferentes caso fossem recriadas em outras datas.

Paisagens Oníricas de Ilca Barcellos na Casa Hurbana
Em filosofia, o termo “onírico” refere-se à natureza dos sonhos, da imaginação e dos estados alterados de consciência, questionando a distinção entre realidade e ilusão. Ilca parece sugerir que é impossível distinguir definitivamente a vida desperta dos sonhos, a realidade da ilusão, abrindo espaço para a dúvida radical. Seu “onírico” manifesta-se em composições estranhas e irreais, que são, sem dúvida, expressões do inconsciente. São sonhos: conjuntos escultóricos que transcendem a realidade, ao mesmo tempo em que a celebram; misturas de imaginação, admiração e insólito que habitam o mundo do invisível.
A artista completa: “Ressignifica-se o conceito de veduta (*1), transformando-o em um olhar para o interior, para o mundo em que se entrelaçam memórias e sonhos. Essas paisagens oníricas fazem alusão tanto às paisagens ficcionais quanto àquelas magicamente transformadas pelas revoadas de estorninhos, que dançam no entardecer em Roma, Istambul ou Berlim.”
“Considero-me uma artista-bióloga, uma pessoa observadora e apaixonada por todas as formas de vida, do mundo micro ao macroscópico.” — diz a artista.

Paisagens Oníricas de Ilca Barcellos na Casa Hurbana
O encontro de Ilca Barcellos (Pelotas, RS, 1955) com a arte ocorreu tardiamente, em 2006, após sua aposentadoria como professora da UFSC (onde se graduou em Biologia, seguindo depois para um mestrado em Biologia Vegetal na Université Pierre et Marie Curie, em Paris). A partir de então, tornou-se possível investigar sua paixão pelas diferentes formas de vida e seus devires.
“A biologia, por mais estranho que possa parecer, permitiu-me desenvolver a habilidade do desenho de observação (a prática de laboratório envolve redesenhar seres microscópicos, por exemplo). Na arte, descobri a possibilidade de inventar meus próprios seres, explorar relações entre eles e com o espaço.” — confidencia a artista.
As cerca de 800 esculturas aéreas de Paisagens oníricas são leves e foram criadas pela técnica do acordelado (*2), com diferentes cores de argila, ao longo de sete meses de trabalho. Essas esculturas são penduradas em diferentes alturas e planos, formando volumes tridimensionais. A leveza dessa composição contrasta com o conjunto de esculturas terrestres, apoiadas diretamente no peitoril das janelas e que recuperam a linha do horizonte.

Paisagens Oníricas de Ilca Barcellos na Casa Hurbana
Dispostas em densidades, cores e movimentos distintos, essas esculturas compõem paisagens — um tecido rizomático, tal como definido por Deleuze: um emaranhado de objetos que se misturam, se interconectam, recriando novos cenários. Ao deslocar-se diante das janelas, a sobreposição de objetos e o contraste entre luz e sombra se alteram. Tal qual uma paisagem, a obra se modifica conforme o movimento do espectador e a passagem das horas.

Paisagens Oníricas de Ilca Barcellos na Casa Hurbana
Algumas das esculturas sugerem formas: pássaros estilizados, animais híbridos e estranhas combinações de animais e plantas parecem emergir, lembrando-nos de que todos os seres vivos estão interligados e de que a humanidade é parte de um todo — o vivo. Preservá-lo, assim como preservar nossos sonhos, parece ser a mensagem subliminar que Ilca Barcellos nos transmite com suas paisagens oníricas.
A mostra Paisagens oníricas de Ilca Barcellos, com curadoria de Marc Pottier, está em cartaz na Casa Hurbana, na Rua Bocaiúva, 2013 – Centro, de Florianópolis, até junho de 2026, das 9h às 23h.








