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Os krafts coloridos de Maxwell Alexandre, arauto inclusivo da emancipação negra brasileira

[Descobrindo os artistas de hoje] Da Rocinha, favela do Rio, aos muros da prestigiada galeria londrina David Zwirner (até 30 de janeiro de 2021), aos 30 anos, Maxwell Alexander está desfrutando de um sucesso meteórico, o que não o separa de sua vocação estética comprometida com as minorias negras brasileiras. Uma ascensão meteórica do campeão […]

[Descobrindo os artistas de hoje] Da Rocinha, favela do Rio, aos muros da prestigiada galeria londrina David Zwirner (até 30 de janeiro de 2021), aos 30 anos, Maxwell Alexander está desfrutando de um sucesso meteórico, o que não o separa de sua vocação estética comprometida com as minorias negras brasileiras.

Uma ascensão meteórica do campeão de patinação

No final de 2018, o ex-campeão de patinação de 28 anos chegou forte em sua primeira exposição na galeria A Gentil Carioca, no Rio de Janeiro. Intransigente, debulhava os aspectos absurdos da vida das comunidades locais, à maneira às vezes crua e descomplicada de um James Ensor (1860-1949). Seus toques de pinturas em cores elaboradas, seus formatos muitas vezes imensos refletiam uma visão radical, sarcástica e insolente da inanidade da violência brasileira… e impunha essa massa muito pessoal que constitui os grandes artistas.

 

“Artista do ano 2020” para o Deutsche Bank

Em menos de dois anos, o artista da Rocinha, maior favela do Rio, onde mora e continua trabalhando, agora está em alta demanda, com convites de bienais, museus e colecionadores. Podemos saudar a visão do MAC de Lyon, que em março de 2019 dedicou uma exposição individual a ele…. Ele se junta ao grupo de uma das maiores galerias internacionais, David Zwirner. O Deutsche Bank o mantém como um dos três “artistas do ano de 2020”. Aquele que afirma ter entrado na arte como se entra na religião parece já ter chegado ao céu!

Uma visão alternativa às narrativas oficiais da mídia

Seu material vem do que surge em seu caminho: folhas de papel kraft montadas ou elementos de demolição (portas, janelas…) com os quais ele faz enormes composições, instalações, ou até mesmo uma piscina inflável para uma de suas performances. Sua inspiração vem de sua experiência diária no Rio de Janeiro e, em particular, da favela da Rocinha, conhecida por ser supostamente a maior e mais populosa do país.

Uma visão inclusiva

No início, Maxwell fez aulas com o pintor Eduardo Berliner (1978), artista obcecado em desenhar, que faz anotações tudo sobre o que o cerca, reinterpretando de forma surreal. Maxwell também vai além da simples transcrição da vida cotidiana, desde os inevitáveis confrontos comunitários até a questão do racismo. Oferece uma visão alternativa formidável. Seus personagens não estão confinados a uma visão arquetípica; negros, criminosos ou vítimas. Pelo contrário, seus afrescos coloridos incorporam as muitas facetas da cultura negra brasileira. Um autorretrato engajado através da popular inquietude brasileira.

Um enxame inteiro de informações, figuras e símbolos como Jérôme Bosch (1450-1516) compõem suas obras “pop”, em uma paleta extravagante de cores como Andy Warhol (1929-1987) ou Keith Haring (1958-1990). Carrega intransigentemente, entre outras coisas, a violência e os abusos infligidos pelas autoridades governamentais e milícias que vivem em comunidades desfavorecidas.

Os movimentos de rua que ele retrata são representados sem definição facial, com pele negra e cabelos loiros (símbolo de emancipação, imitando as estrelas da música e do futebol). O uniforme escolar do município do Rio é comumente visto em bairros carentes, grandes monumentos da cidade do Rio, um caleidoscópio de super-heróis, videogames, brasões militares, logotipos, bandeiras de cidades e marcas internacionais que despertam os desejos de adolescentes e crianças… Muitas vezes, um padrão ondulado ocupa a maior parte do fundo das obras. Esta é a estampa de piscinas de plástico populares, encontradas em todos os lugares nos terraços das favelas.

Uma geração de artistas que apoia a emancipação dos negros

Sempre onipresente e inspiradora, a música faz parte de seu universo. Especialmente de uma nova geração de músicos e cantores poetas que surgiram ao mesmo tempo. BK (1989), Baco Exu do Blues (1996) ou Djonga (1994), por exemplo, abordam questões de emancipação negra e vida nas favelas. Muitos dos títulos de suas obras vêm dessas canções.

Pintar os versos dos rappers brasileiros é uma questão política estratégica

“Acho fundamental poder mostrar que minha produção é guiada por poetas negros que têm experiências como as minhas”, afirma o jovem artista. Isso é essencial e uma verdadeira quebra de paradigmas dentro da história da arte, quando sabemos que é comum a maioria dos artistas buscar se alimentar da poesia branca e europeia como fonte de inspiração para suas obras.

Há uma participação estratégica nessa decisão de pintar os versos desses poetas, já que o rap é uma canção conhecida por ser a voz das minorias, das periferias. É o tipo de som que chega na favela e a assimila, enquanto a pintura ocupa um lugar muito exclusivo, dentro de um sistema codificado, elitista e privilegiado. “Aqui onde eu moro, na favela da Rocinha, a arte contemporânea não é um valor, a maioria das pessoas não está interessada ou mesmo sabe o que é. Assim, pintar versos de rap também é uma maneira de tentar diminuir essa lacuna. Eu crio uma chance de atrair o interesse popular da comunidade através do meu trabalho”.

Da exposição à procissão, a força do ícone

Seus conflitos muito controlados também são manifestos reais. Mais do que alinhadas nas paredes, suas grandes composições de papel ficam suspensas por fios que cruzam os espaços das instituições culturais que o recebem. Ele gosta desse contato direto com o visitante e quer que se veja a frente e a parte de trás de seus papéis marrons. Também gosta de forçá-los a estar perto do trabalho, como se fossem parte de um primeiro plano da história que ele apresenta. Esta aproximação também resulta em um transporte fácil de suas grandes pinturas, que, enroladas, podem dar origem a procissões de rua. Como no passado, na devolução dos altares às igrejas, este ritual-performance anuncia e faz parte da exposição.

“Pardo é papel”

Na série “Pardo é Papel”, o título é retirado de uma expressão de ativistas negros em reação ao uso da categoria genérica ‘pardo’ para definir os afrodescendentes. A escolha do papel kraft afirma, assim, uma dimensão simbólica eloquente de sua obra. Mas a mensagem é positiva e Maxwell aborda a ancestralidade africana através da autoestima da sociedade brasileira contemporânea nas favelas. Esta série se concentra na ideia de recuperar o poder e a emancipação.

A Igreja do Reino da Arte

Bem ciente dos códigos e protocolos religiosos associados aos principais ramos do Neopentecostalismo, ele se juntou a um grupo de artistas e designers para criar sua própria igreja não denominacional, a Igreja do Reino da Arte ou ‘A Noiva’ (a esposa). Convencido de que o processo artístico permite o acesso ao divino. Qualquer produção dentro dessa religião pode ser entendida como uma oração, qualquer espaço investido pode ser considerado um templo: oficinas, casas e ruas.

Artistas são apóstolos, profetas, santos e pastores.

Para exercitar essa fé na arte, eles organizam serviços, rituais e cerimônias como batizados ou peregrinações. Já se entende atrair aqueles que nunca pisaram em uma instituição cultural a quem a capacidade da arte de garantir a realização espiritual é sugerida e mostrar que há outras formas de encontrar sentido na vida. Esta é uma tentativa incrível de unir cultura e vida em geral.

Ao se adaptar às expectativas e códigos da arte contemporânea, Maxwell está muito ciente das reviravoltas trazidas em sua vida por esta série de sucessos recentes. Ele está perfeitamente lúcido sobre os perigos de um mercado que às vezes flerta demais com os ditames e especulações.

Ciente do destino de Basquiat (1960-1988), do qual ele não quer ser o clone ou o seguidor, Maxwell se recusa a ser este Ícaro contemporâneo que queima suas asas e alma à medida que se aproxima de um sol prejudicial. Enraizado em sua cidade, ele sabe a importância de se rejuvenescer em casa e se apegar ao seu projeto de igreja coletiva. O futuro nos dirá se combinará identidade e sucesso, autenticidade e fama. Ele parece ter começado bem.

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