Delírios solares (2025). Foto por Ding Musa.

Gabriela Melzer, Delírios Solares

Em entrevista com o curador Marc Pottier, Gabriela Melzer revela como sua exposição “Delírios Solares” une o controle e o imprevisível, e como sua vida se torna a matéria-prima de seu trabalho.

POR MARC POTTIER

“Vejo essa exposição como um desdobramento natural do que tenho explorado nos últimos tempos, mas com uma energia nova, um elemento extra. Trouxe o sol como símbolo central, não apenas como luz ou calor, mas como potência, vitalidade e força transformadora. Ao mesmo tempo, mantive diálogos que sempre estiveram presentes na minha pintura: limites e continuidade, fluidez e tensão, contrastes e opacidades, movimento, encontros e desencontros. Há também uma aceitação mais consciente da imperfeição, do inesperado”, explica a artista que apresenta oito obras, todas produzidas esse ano especialmente para essa exposição no Rosewood. É um conjunto pensado como um corpo único, mas com obras que também têm força individual. 

“Delírios Solares”

“Porque o sol concentra uma tensão que me interessa: um organismo de energia em constante mutação, imprevisível, mas consistente. Ele se transforma todos os dias, sempre de maneira única. Mesmo no auge da vida, ele já carrega o percurso do próprio colapso, um ciclo que alterna permanência e transformação dialogando diretamente com meu trabalho.
O “delírio” nesse contexto é sobre a suspensão do controle, é sobre atravessar um processo aberto, onde forma e direção se constroem no percurso, permitindo que o resultado surja de forças que ultrapassam a intenção inicial. As formas e paletas nascem desse espaço entre impulso e deliberação: gestos intuitivos que se tornam estrutura a partir de decisões conscientes, num equilíbrio constante entre o imediato e o calculado.
O título sintetiza essa relação entre certeza e instabilidade e traduz o modo como essas obras foram concebidas: respostas inevitáveis a impulsos que, como o próprio sol, oscilam entre previsibilidade e surpresa. É também, de certa forma, um reflexo do que me fascina no diálogo entre caos e cosmos: a maneira como forças distintas constroem juntas a própria possibilidade de existir.”

Dança magnética (2025). Foto por Ding Musa.

Gabriela Melzer (1999) vive e trabalha em São Paulo. Morou em Nova York, onde aprimorou sua técnica de pintura e desenho através de cursos na The New School e Art Students League. Criando formas orgânicas que se constituem a partir da alternância do movimento e da cor, Melzer busca ir de encontro ao imediatismo e à aceleração dos eventos na contemporaneidade. No rastro do abstracionismo lírico, ela absorve o seu entorno ressignificando e interligando os elementos do mundo com os seus contornos densos e arredondados. 

Melzer se interessa em proporcionar um repouso para a visão, construindo paisagens interiores que jogam com o intangível, com o que está para além da nossa apreensão imediata. Encontra inspiração nas formas ao mesmo tempo aleatórias e padronizadas com as quais nos deparamos na natureza, com suas imperfeições e seus fractais. Como em um diálogo permanentemente aberto, a dança das cores e seu fluxo orgânico convidam o espectador a desvendar as possibilidades da obra navegando pelos insterstícios que a composição em grades produz.

Como se define como artista

Quando pergunto para ela como se define como artista, ela responde: “Eu me sinto uma artista profundamente humana e, ao mesmo tempo, do mundo. Preciso viver, viajar, explorar paisagens e encontros para então absorver o que me nutre e devolver isso em forma de pintura. Meu processo criativo começa muito antes de chegar no ateliê, ele nasce nas conversas, nos lugares, nas atmosferas que eu experimento. É como se a pintura fosse a minha maneira de processar o mundo e retribuir o que recebo dele.”

A pintura

“Minha relação com a pintura é profunda e quase física. Pinto desde muito cedo — já são mais de dez anos trabalhando com óleo, e antes disso já pintava em acrílica. Sinto que a pintura é uma extensão do meu corpo; não lembro de mim sem o ato de pintar. Quando fico muito tempo longe do ateliê, começo a sentir falta física, como se algo estivesse em falta. Isso não significa que não queira explorar outros materiais. Já tenho experimentado, mas ainda de forma muito inicial, sem a maturidade para compartilhar. Acredito que, para mim, a experimentação acontece mais na escolha de diferentes suportes do que no abandono da pintura.”

Seis desenhos

“Ocupam o território mais experimental da exposição. Minha relação com a pintura, na verdade, começa no desenho, foi com ele que aprendi a estruturar o gesto, muito antes de me aproximar do óleo. Esses trabalhos funcionam como recortes de um universo maior que venho construindo: estudos que exploram variações cromáticas e gestuais, como pequenas cartografias desse espaço pictórico. Embora compartilhem da mesma lógica compositiva das pinturas, aqui o gesto se mantém mais cru e orgânico, explorando a relação corporal, gestual e cromática.”

O aleatório

“O acaso sempre me fascinou porque acredito que ele é um espelho do próprio funcionamento do universo. A origem dos planetas, a formação das estrelas, o surgimento da vida, tudo isso envolve encontros improváveis, caos e harmonia coexistindo. Me interessa especialmente essa relação entre caos e cosmos: um diálogo eterno entre o imprevisível e a ordem, entre forças que parecem opostas, mas que, na verdade, se completam. Na minha pintura, busco recriar esse espaço de tensão fértil, onde o gesto e a matéria se movem entre o controle e a liberdade. Gosto de criar condições para que o inesperado aconteça.” 

Os títulos das obras

“Todas as minhas obras têm títulos, e eu os vejo como fios condutores — uma ponte entre o universo subjetivo que existe dentro da minha pintura e a experiência de quem a observa. Não gosto de títulos excessivamente explicativos, porque acredito que isso pode limitar o campo de imaginação e interpretação do espectador. Prefiro que o título funcione como uma chave de entrada, um convite para que a pessoa construa seu próprio significado, sem fechar demais o sentido da obra.”

Os seus mentores

“Tenho uma admiração profunda pelo Hieronimus Bosch, pela força narrativa e pela densidade simbólica que ele consegue construir. Georgia O’Keeffe me fascina pela maneira como transforma a natureza em algo ao mesmo tempo íntimo e monumental. Leda Catunda, para mim, é um dos trabalhos mais originais, honestos e humanos que já vi. Hilma af Klint me encanta com seu simbolismo, sua espiritualidade e o misticismo que atravessa toda a sua obra. São artistas muito diferentes entre si, mas que compartilham algo que admiro profundamente: coragem. Todos estavam à frente de seu tempo, livres de tendências e modismos, comprometidos com uma visão muito pessoal. Isso me provoca e me inspira a manter a minha própria integridade criativa.”


Gabriela Melzer, Delírios Solares
Galeria Filomena do Hotel Rosewood São Paulo
Com parceria com a galeria Galatea
Curadoria de Marc Pottier
Até 03 de novembro de 2025

 

Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, curador do novo espaço cultural A.Galeria. em Florianópolis, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional do projeto do Pompidou-Paraná.

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Fotos por Ding Musa

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