Janet Vollebregt, Chão. Foto: Jennifer Brito

Fluxos de Janet Vollebregt

Esta arquiteta de formação sabe como ninguém se apropriar dos espaços, nos quais as instalações e esculturas apresentadas são odes às filosofias orientais, combinadas com o espírito das pedras, ou mesmo com a revolução neoconcreta humanista e sensorial brasileira

POR MARC POTTIER

Gostaria de abordar a importância de estarmos atentos ao invisível, porém sensível: a energia. Aquilo que não vemos — e sobre o que pouco falamos — determina muito do que fazemos e criamos. Gostaria de oferecer às pessoas ferramentas para que possam perceber e melhorar o fluxo de energia.
Janet Vollebregt

A obra de Janet Vollebregt assemelha-se a uma força de Coriolis interagindo com a circulação atmosférica global. Com a exposição Fluxos, ela imerge o público em uma obra de arte participativa que aborda a energia regenerativa. Arquiteta de formação, a artista sabe como poucos se apropriar dos espaços, nos quais as instalações e esculturas apresentadas funcionam como odes às filosofias orientais, combinadas ao espírito das pedras e também à revolução neoconcreta humanista e sensorial brasileira.

Nesta exposição, gostaria de me concentrar no trabalho com energia, aprimorando o fluxo energético tanto no espaço quanto nas pessoas que o ocupam, usam ou transitam por ele. Esse sempre foi o tema central do meu trabalho desde os meus estudos de Arquitetura na Universidade de Tecnologia de Delft. Além da Arquitetura, estudei Feng Shui chinês (o funcionamento da energia no espaço) e Jin Shin Jyutsu japonês (o funcionamento da energia no corpo e ao seu redor), o que também me levou a estudar filosofia e religiões japonesas. Meus trabalhos carregam e comunicam influências desses estudos.
Janet Vollebregt

A visão da artista para esta exposição de caráter museológico é uma verdadeira jornada que, além da força estética das obras apresentadas, oferece uma experiência sensorial capaz de afastar os visitantes do cotidiano e conduzi-los ao espiritual. Da entrada da galeria, com o Jin Shin Jyutsu Parlour (Salão de Jin Shin Jyutsu), aos Prayer Wheels (Cilindros de Oração) e seus Energy Benders (Dobradores de Energia), Janet propõe uma arte que se funde com a vida e com o corpo. Não seria possível descrever aqui todas as obras apresentadas na mostra; por isso, concentrar-nos-emos naquelas que definem o seu ritmo geral.

Janet Vollebregt. Foto: Jennifer Brito

Meu trabalho oferece ferramentas para tomar consciência do mundo energético.
Janet Vollebregt

Trabalho com energia sutil para harmonizar tanto o usuário do espaço quanto o próprio espaço. Minhas instalações e objetos de arte buscam provocar uma consciência energética no público. Por meio do poder invisível dos campos de energia, meu trabalho procura estabelecer harmonia e conexão com um todo maior, ampliando a sensação de acolhimento e nutrição no ambiente em que é inserido.
Janet Vollebregt

Em seu fluxo criativo, permeado por referências filosóficas chinesas e japonesas, sua imersão no Brasil faz com que, mesmo sem um contato aprofundado com a obra da grande Lygia Clark (1920–1988), o trabalho de Janet dialogue com o mesmo espírito. Assim como essa figura fundamental da arte contemporânea brasileira, Janet busca transformar sua obra em um organismo vivo, e não em um mero objeto estático. Tanto Lygia quanto Janet redefinem a arte ao converter o espectador passivo em participante ativo, colocando a interação sensorial e corporal no centro de suas pesquisas. Seus objetos relacionais visam “desmistificar” a arte, conectando-a simultaneamente a uma filosofia civilizatória.

Com a exposição Fluxos, Janet desafia fronteiras artísticas, psicológicas e sociais por meio de experiências sensoriais e relacionais. Ela promove situações que envolvem os participantes em uma relação íntima com seus objetos (Salão Jin Shin Jyutsu, cilindros de oração, João Zen, etc.), incentivando a reconexão consigo mesmos e com os outros. Sua abordagem participativa está enraizada em um contexto político e estético de libertação corporal e expressão individual, transformando o cotidiano por meio da experiência artística.

A energia precede o mundo material. Para construir um mundo melhor, precisamos começar cuidando da nossa própria energia. Temos alguma influência sobre ela, e esse é o primeiro passo. Também podemos cuidar da energia dos outros, mas, sem cuidar da nossa, rapidamente nos esgotamos. Meu trabalho oferece ferramentas para tomar consciência do mundo energético e de maneiras de lidar com ele. Algumas obras propõem instrumentos para a consciência da energia pessoal, física, emocional e espiritual; outras se voltam mais para a percepção do funcionamento da energia no espaço e no ambiente. Às vezes, meu trabalho assume a forma de instalações ou espaços; continuo muito ligado à arquitetura e gostaria de expandir meus horizontes para alcançar um público cada vez maior.
Janet Vollebregt

Janet Vollebregt. Vista da exposição. Foto: Jennifer Brito

Jin Shin Jyutsu Parlour

Lygia Clark provavelmente não rejeitaria o Jin Shin Jyutsu Parlour, esta instalação minimalista e vazada que respeita o fluxo geral do espaço da galeria. A obra pode ser interativa, imersiva ou contemplativa, dependendo da forma escolhida pelo visitante. Aqui, Janet aproxima-se inegavelmente da cultura Zen.

A cultura Zen, um ramo do budismo Mahayana originado do budismo Chan chinês e desenvolvido no Japão, concentra-se na meditação como caminho para alcançar a iluminação (satori). Defende a simplicidade, a austeridade, a presença no momento e o desapego do ego como formas de perceber a verdadeira natureza das coisas. Nesta exposição, Janet oferece um recomeço, uma purificação espiritual, uma possibilidade de renascimento que deixa para trás a violência do mundo moderno. Essa experiência inicial permite que os visitantes continuem o percurso de maneira calma e concentrada, preparados para interagir com as demais obras.

Na instalação, o público é convidado a tomar consciência — ou mesmo experimentar — a atuação da energia no espaço e no corpo. A obra funciona como um “espaço dentro do espaço”. Em seu interior, um tatame ou futon é colocado, e os visitantes são convidados a se deitar e praticar Jin Shin Jyutsu em si mesmos.

Vale lembrar que o Jin Shin Jyutsu é uma arte japonesa ancestral de harmonização energética que utiliza toques suaves das mãos em 26 pontos específicos do corpo, chamados “Travas de Energia”, para liberar bloqueios físicos, mentais e emocionais. Semelhante à reflexologia, porém sem pressão, a prática busca equilibrar o fluxo da energia vital, reduzindo estresse e ansiedade e promovendo autoconhecimento.

Na instalação de Janet, as instruções para aplicar Jin Shin Jyutsu em si mesmo aparecem “na nuvem”: uma estrutura suspensa acima do futon. O salão possui quatro cantos formados por paredes especialmente concebidas para a exposição. A separação entre o espaço de circulação da galeria e o salão é feita por telas semitransparentes que também funcionam como obras de arte. Essas peças fazem referência ao Jin Shin Jyutsu e incorporam pedras de granada que lembram jabuticabas. Enquanto no Japão muitas dessas telas apresentam cerejas e flores de cerejeira, aqui a artista escolheu a jabuticaba para evidenciar a importância do Brasil em sua obra. As jabuticabas nas telas também indicam pontos de bloqueio energético no corpo.

Janet Vollebregt. Vista da exposição. Foto: Jennifer Brito

João Zen

A obra João Zen inspira-se no brinquedo conhecido como “João Bobo”. O brinquedo — também chamado de “sempre-em-pé” — é um boneco de base arredondada e pesada, projetado para balançar e retornar à posição vertical após ser empurrado, sem nunca cair de fato. Frequentemente em forma de animais ou personagens, é utilizado em atividades físicas, alívio do estresse e desenvolvimento da coordenação motora.

A mensagem central é a de nunca desistir, incorporando o espírito de se levantar novamente após uma queda ou diante de obstáculos. Trata-se de uma metáfora tangível para a superação da adversidade. Se os humanos fossem emocionalmente preparados como um “João Bobo”, bastaria que alguém os desequilibrasse para que retornassem ao próprio centro. Na verdade, João não é “bobo”: João é sábio. Por isso a artista nomeia a obra como João Zen.

A peça, produzida em latão elegante — muito distante do plástico dos brinquedos originais — recebe um elemento de cristal, ponto de contato para que o público possa movimentá-la sem sujar a superfície. Ela repousa sobre uma fina pedra polida que evoca uma poça d’água, integrando-se a uma instalação maior.

A escultura João Zen, com suas três seções arredondadas que se retraem antes do cone superior pontiagudo, remete aos elementos decorativos presentes em telhados de templos tibetanos, semelhantes a vasos do tesouro (Bumpa), localizados em cantos e cumeeiras como símbolos de abundância espiritual e prosperidade inesgotável. Vista de cima, a obra também lembra as ondulações produzidas por uma pedra ao cair na água, propagando energia. João Zen, que assume igualmente a forma simbólica de um corpo, sempre retorna à verticalidade, erguendo-se para enfrentar os desafios da vida.

Prayer Wheels

A filosofia das rodas de oração, especialmente no budismo tibetano (mani wheels), baseia-se na difusão de mantras sagrados para gerar compaixão e energia positiva. Girar esses cilindros — que contêm milhares de orações — equivale a recitá-las, espalhando benefícios espirituais pelo ar e funcionando como proteção contra o mal e instrumento de cura. Essa oração mecânica contínua associa-se frequentemente aos cinco elementos: terra, ar, fogo, água e espaço. O movimento no sentido horário simboliza o ciclo da vida, a meditação e a progressão espiritual.

Prayer Wheels é uma nova série que faz parte da ‘família’ das minhas séries Building Piercings e Pendants, obras que reforçam minha visão de que edifícios são entidades ‘vivas’ e funcionam como talismãs para proteção de construções ou espaços, influenciando tanto o ambiente quanto seus usuários por meio de cristais e de suas vibrações.
Janet Vollebregt

Os cilindros de oração introduzem a energia do movimento no espaço. No Feng Shui, energia estagnada cria sujeira e decadência; o movimento cria fluxo e crescimento. Acho que nosso mundo precisa de muitas orações — não necessariamente religiosas ou específicas —, mas de palavras e pensamentos de atenção amorosa e energia elevada. Meus cilindros de oração incorporam cristais e pedras naturais e incluem frases de diferentes culturas, como ‘gentileza gera gentileza’. Esses textos possuem duplos sentidos e até certo humor, já que literalmente os cilindros ‘giram’ e ‘geram’ energia, mas o principal objetivo é que as pessoas mantenham em mente o significado mais profundo dessas palavras.
Janet Vollebregt

As Prayer Wheels estão fixadas na parede e podem ser giradas pelo público. Os cristais integrados possuem partes ásperas e partes polidas. Com o tempo, à medida que as pessoas tocam as pedras para movimentá-las, as áreas ásperas tornam-se lisas, assim como a energia das orações purificaria o espírito.

(*) “Sou maluco para te amar e louco para te salvar.”

José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza (1917–1996), foi um pregador urbano brasileiro que se tornou conhecido, a partir dos anos 1980, pelas inscrições realizadas em 56 pilastras do Viaduto do Gasômetro, no Rio de Janeiro, nas quais expressava sua crítica ao mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização. “Gentileza gera gentileza” tornou-se sua frase mais célebre.

Janet Vollebregt. Vista da exposição. Foto: Jennifer Brito

Energy Bender

Com Energy Bender, ligada ao Feng Shui, Janet aproxima-se mais uma vez de outra figura icônica da arte contemporânea brasileira: Cildo Meireles, especialmente da série Espaços Virtuais: Cantos, iniciada entre 1967 e 1968. Essas instalações conceituais exploram topologia, geometria e percepção espacial, transformando cantos comuns em lugares de reflexão geométrica e poética. Meireles cria “volumes virtuais” que tensionam a visão do espectador. O canto — geralmente associado a refúgio, solidão ou abandono — torna-se um espaço de ação e tensão, obrigando o público a movimentar-se para compreender a estrutura.

A série marcou um momento importante da arte brasileira ao expandir o movimento neoconcreto e envolver fisicamente o corpo do espectador na construção do significado do espaço. A aproximação com Janet, porém, termina aí: seus ângulos não carregam a conotação política ligada à ditadura presente na obra de Cildo.

Janet acredita que, no Feng Shui, cantos vivos são locais onde a sujeira se acumula. Sujeira, para ela, equivale a energia estagnada. Em seus projetos arquitetônicos, a artista cria cantos arredondados justamente por esse motivo. Suas novas obras, Energy Benders (Dobradores de Energia), são esculturas concebidas para serem instaladas em cantos vivos, com o objetivo de melhorar o fluxo energético do espaço.

Talismã

Janet menciona a palavra “talismã” ao falar sobre seus cilindros de oração. Deixemos que ela própria explique:

Um talismã é um objeto ao qual se atribuem poderes ‘mágicos’ ou sobrenaturais capazes de trazer boa sorte, saúde ou proteção ao seu portador — como uma pedra ou um anel, por exemplo. Às vezes, as pessoas confundem talismã com amuleto, mas o talismã serve para atrair energia positiva, enquanto o amuleto tem como principal função repelir o mal, o perigo e as doenças. Vejo meus building piercings, por exemplo, como talismãs para edifícios. Já meus totens são talismãs interativos, quase instrumentos para harmonizar energias — talvez menos ‘sobrenaturais’ e mais científicos do que poderíamos imaginar à primeira vista.
Janet Vollebregt

A filosofia por trás de um talismã reside na canalização de energias benéficas e na materialização de uma intenção ou desejo, funcionando como ponte entre o mundo material e planos superiores ou sagrados. A exposição de Janet Vollebregt foi concebida, ela própria, como um talismã: um convite para que o público recarregue suas energias. Suas esculturas e instalações buscam interagir com forças ocultas, como contratos entre humanos e “divindades” — entendidas aqui como fluxos de energia positiva. As obras apresentadas por Janet tornam-se ferramentas de emancipação pessoal, destinadas a dissipar dúvidas e construir proteção psicológica. Fluxos é mais do que uma exposição: é um manifesto poderoso diante de uma civilização em declínio.

Janet Vollebregt e o Brasil

“Fui convidada para um projeto arquitetônico no Brasil e, nessa ocasião, visitei a Bahia, Floripa, Brasília e a Chapada dos Veadeiros. Eu já buscava um lugar para criar uma ‘esfera de acolhimento’, um projeto que fosse exemplo de ambiente energeticamente harmonioso entre natureza, construções, instalações artísticas, trabalho e convivência saudável. Acho que o lugar nos encontrou, porque nunca planejei viver no interior do Brasil; simplesmente aconteceu.

Na Chapada dos Veadeiros reflorestamos áreas, protegemos antigos poços d’água, reformamos a antiga casa da fazenda e criamos o O.Sítio, um projeto ainda em desenvolvimento.

Lembro-me de ter visto slides da obra de Oscar Niemeyer na Faculdade de Arquitetura e de me apaixonar imediatamente por suas linhas curvas e orgânicas. Nunca imaginei que um dia estaria diante de um de seus edifícios — o Museu Nacional da República, em Brasília — exibindo minhas próprias obras. Também admiro Le Corbusier, Mies van der Rohe e Richard Neutra pela maneira como trabalham superfícies, materiais, luz, alturas e volumes.

Ao chegar ao Brasil, fiquei especialmente encantada com a natureza, com Brasília e com o diálogo entre Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Marx e Athos Bulcão. Tenho um carinho especial por Burle Marx e Rubem Valentim.

Estudei Arquitetura na UnB para validar meu diploma da Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda. Foi lá que conheci a obra de Lina Bo Bardi, depois de já ter construído a Casa Alto Paraíso, no O.Sítio. Identifiquei-me muito com ela. Acho que Lina cria edifícios com boa energia. A Casa Cirell e a Casa de Vidro possuem muitos pontos em comum com as casas que construí. Não conheço profundamente a obra de Lygia Clark; adoro seus Bichos, mas nunca a estudei integralmente. Acho que, na Europa, somos muito influenciados pela arte europeia.”

Janet Vollebregt. Vista da exposição. Foto: Jennifer Brito

Janet Vollebregt e a Natureza

“Sinto-me muito conectada à visão do xintoísmo japonês, em que a Natureza é entendida como Deus e os seres humanos como parte dela. O xintoísmo é voltado para a vida aqui e agora, mas honra os kami: ancestrais, montanhas, pedras, rios e árvores. É uma filosofia centrada na pureza.

No Japão, o xintoísmo é frequentemente praticado em combinação com o budismo, que também aborda a vida após a morte. Identifico-me com ambos, assim como com o taoismo chinês. Essas perspectivas também dialogam com as ideias de Spinoza sobre Deus como Natureza.

O que é Deus? Não acredito que tenhamos uma resposta definitiva. Em essência, penso que todas as culturas e religiões falam da mesma ‘energia’, mas expressam isso por meio de rituais e linguagens culturais diferentes, moldados pelo ambiente, clima e contexto geográfico. Não acredito em Deus como uma grande figura paterna masculina. Acredito que Jesus existiu e deixou uma mensagem bela. Também acredito que Buda existiu. O problema das religiões surge quando elas se tornam estruturas de poder dogmáticas e hierárquicas. ‘Ser’ e viver em harmonia é uma responsabilidade pessoal, tanto consigo mesmo quanto com as entidades maiores e menores ao redor.

Vivendo em contato com a natureza, aprendi que devemos colaborar com ela. Os seres humanos frequentemente acreditam que podem dominar a natureza, mas considero isso um pensamento arrogante. Por isso o Jin Shin Jyutsu tornou-se um pilar importante para mim: trata-se de uma fisiologia voltada ao autoconhecimento e à harmonização da própria energia. É uma fusão entre o conceito grego Panta Rhei (‘tudo flui’) e Gnōthi Seautón (‘conhece-te a ti mesmo’).

Vejo tantos paralelos entre filosofia e religião em diferentes culturas que acredito ser o momento de entendermos que paz e colaboração são as melhores soluções para todos. É isso que procuro expressar por meio do meu trabalho.”

Janet Vollebregt. Vista da exposição. Foto: Jennifer Brito

Quando Janet fala das pedras

“Quando eu era muito pequena, por volta dos cinco anos, meu pai me levou a uma exposição de pedras preciosas. Me deixaram comprar dez pedras por alguns centavos cada. Ainda guardo a caixinha com essas pedrinhas especiais e sempre fui fascinada por elas. Comecei a estudar Arquitetura aos 18 anos. Em certo sentido, arquitetura também é trabalhar com pedras em outro nível.

Um dia li um livro bastante ‘fora da caixa’, a autobiografia espiritual de Elisabeth Haich, escrita em 1960. O livro aprofunda-se muito na ideia de reencarnação — não sei se acredito nisso exatamente da forma como ela descreve —, mas ela fala das pedras como entidades vivas, com vibração mais baixa do que plantas, animais e pessoas. Achei esse conceito extremamente interessante. No xintoísmo, montanhas e pedras também são vistas como kami, pois a energia espiritual permeia os objetos naturais.

Durante cerca de dez anos, passei seis semanas por ano na Ásia estudando budismo e taoismo. Estudei diversas vezes O Livro Tibetano da Vida e da Morte, que trata profundamente da manifestação e da perda de energia. Aprofundei-me no Jin Shin Jyutsu com um mentor e em suas conexões com outros campos do conhecimento. E, claro, no Feng Shui, que possui relação direta com o ambiente construído.

O fato de a vida ter me levado à Chapada dos Veadeiros, para viver sobre uma das maiores placas de cristal do mundo, foi totalmente inesperado e não planejado. Sempre imaginei que acabaria vivendo em algum lugar da Ásia, próximo ao mar — eu era mergulhadora de resgate em águas profundas —, e não no interior, perto de uma cachoeira. Mas sinto-me abençoada por poder experimentar esse lugar mágico de natureza extrema. A beleza é extrema, os perigos também.

Aqui encontrei cristais brotando literalmente do chão. Na Chapada, junto com meu parceiro Xavier de Bode, trabalhávamos no projeto O.Sítio, mas projetos de grande escala levam anos. Durante esse processo, senti necessidade de expressar meu trabalho energético em uma escala menor e mais imediata. As primeiras obras, Art.Chi.Textures, parecem maquetes arquitetônicas feitas de cristais e são parcialmente inspiradas nas composições de Sergio Camargo.”

Fluxos de Janet Vollebregt, está em cartaz na Galeria Luis Maluf, em São Paulo, de 16 de maio a 8 de agosto de 2026.

Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, curador do novo espaço cultural A.Galeria. em Florianópolis, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional do projeto do Pompidou-Paraná

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