Obra de Barrão para o projeto Caixa de Pandora, 2018 | FOTO: Everton Ballardin

Dinastia: a família Yunes, três gerações de Stakhanovistas do mundo de arte

Esta é a história de uma dinastia cultural. Após a morte de Jorge Yunes, a coleção da família tornou-se agora a aventura de um “matriarcado”. Dasartes leva você a São Paulo para contar a odisseia de três gerações de mulheres notáveis ​​que trabalham com muita inteligência em torno de uma coleção enciclopédica, transformando-a em diversos […]

Esta é a história de uma dinastia cultural. Após a morte de Jorge Yunes, a coleção da família tornou-se agora a aventura de um “matriarcado”. Dasartes leva você a São Paulo para contar a odisseia de três gerações de mulheres notáveis ​​que trabalham com muita inteligência em torno de uma coleção enciclopédica, transformando-a em diversos projetos generosos e dinâmicos para melhor pensar a arte das origens até os dias atuais.

 

Apenas um dever: compartilhar e transmitir

O amor pela arte está, sem dúvidas, no DNA desta família. A paixão transbordante e sorridente pelo colecionar, que é como um sopro em Ivani e Jorge Yunes, imediatamente ecoa de sua filha, Beatriz Yunes Guarita. Enquanto coleciona arte contemporânea a nível pessoal, como boa condutora cultural, esta última vem organizando os tesouros da coleção familiar desde 2017, da qual é embaixadora em instituições nacionais e internacionais. A filha de Beatriz, Camila, também se arriscou naturalmente ao dar um toque muito pessoal ao projeto “Caixa de Pandora” que convida artistas contemporâneos a interagirem in loco com esta coleção excepcional.

Vamos definir o cenário: ‘o castelo’

Entre a arquitetura e o tamanho, a casa que abriga a coleção Yunes, construída em 1935 pelo arquiteto franco-brasileiro Jacques Pilon (1905-1962), tem o aspecto de um castelo. Este casarão tem o mérito de estar em um dos corredores culturais do bairro Jardim Europa da cidade de São Paulo. Era conhecida como ‘Casa da Manchete’, em homenagem ao título de uma das revistas da editora Adolpho Bloch que a possuía antes que Ivani e Jorge Yunes a comprassem nos anos 1990. A casa foi ampliada para abrigar parte do acervo e também acrescentaram uma capela à construção. Os jardins são da autoria do genial paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994).

Ana Dias Batista no projeto Caixa de Pandora, 2018 | FOTO: Everton Ballardin

CIJY (Coleção Ivani e Jorge Yunes) ou a coleção de coleções

Pense grande! Esperem (pendurem os cintos!)! : com um apetite desordenado pela cultura e todas as formas de arte, em 50 anos Jorge e Ivani Yunes reuniram, em suas muitas viagens e passagens por antiquários e leilões, cerca de 90.000 objetos, pinturas, esculturas de todas as épocas e procedentes do cinco continentes… em um artigo é difícil dar um relato fiel desse ‘inventário ao estilo Prévert’, dessa coleção que lembra um mini-Louvre e a caverna de Ali Babá onde encontramos objetos de marfim, um presépio napolitano, muitos objetos religiosos de todas as partes do mundo (cálices, incensários, crucifixos, livros das horas, pinturas de retábulos renascentistas…), vidros (Gallé na liderança), livros raros, instrumentos musicais de todas as esferas da vida, inúmeras canecas , ícones de todas as épocas e de todos os países… Ásia, arte africana, Espanha colonial também estão representados neste conjunto babelesco deslumbrante que remonta ao século III aC e aos anos 1970. Durante os muitos anos de crescimento da coleção, esta casa foi um cenário perfeito para as aulas de história da arte que eram dadas para a família e cerca de 20 amigos amadores. Com os Yunes é sempre uma questão de curiosidade e inclusão.

Uma distribuição bem “azeitada” de funções

Depois da saída de cena de Jorge Yunes, o acervo foi inserido no imenso desafio de inventariar, catalogar, documentar… As milhares de obras, distribuídas em 22 setores, são hoje listadas por uma equipe interdisciplinar de curadores, especialistas, restauradores. Ali, os papéis se distribuem de maneira harmoniosa: Ivani Yunes é presidente honorária da coleção, Beatriz Yunes Guarita, diretora-presidente e curadora-chefe e Camila Yunes Guarita está à frente de Novos Projetos.

Uma coleção que acolhe

Se os Yunes adoram colecionar, eles também adoram compartilhar. Eles sempre responderam favoravelmente aos pedidos de empréstimos de curadores de exposições nacionais e internacionais. Como a coleção está em uma residência particular, a CIJY não é aberto ao público. No entanto, a porta está sempre aberta e a família incentiva fortemente sua interface com instituições museológicas e universidades do Brasil e do exterior. Pesquisadores e alunos são sempre bem vindos. E você nunca deve hesitar em ter uma ideia nova. Com a mente aberta desta família, ela pode ser perfeitamente escolhida!

Vik Muniz no projeto Caixa de Pandora, 2019 | FOTO: Everton Ballardin

Um dever cívico de participar, compartilhar e doar.

No Yunes, temos muitas ideias. Com a Pinacoteca de São Paulo, a CIJY lançou um modelo inovador de colaboração nunca antes utilizado no Brasil. A partir deste ano e há dois anos, a coleção contratou por conta própria uma curadora que trabalhará para a Pinacoteca em diálogo com ela. Depois de receber 261 inscrições de todo o mundo, foi a brasileira Horrana de Kassia Santoz a escolhida por uma comissão mista formada por representantes da Pinacoteca e da CIJY. A generosidade também faz parte das características da família, que em 2020 fez uma grande doação de suas obras da África para o MON de Curitiba. Esta primeira doação será seguida por outras que estão na mira de projetos futuros que estão por vir.

Beatriz, a maestrina

É Beatriz a responsável por ‘dar vida’ ao acervo, por garantir o bom andamento dos inventários, empréstimos e doações em conjunto a uma equipe de especialistas que já reuniu quase 30 especialistas e hoje está limitada a 10. A CIJY para em meados do século 20 e não possui obras de arte contemporânea. É aí que ela entra, assim como sua filha Camila. Levada pelo vírus familiar (obviamente sem cura) Beatriz voltou-se para a arte de sua geração com o olhar internacional característico dos genes familiares e o mesmo tipo de paixão transbordante. Em sua casa, ao lado da CIJY, 80% das obras penduradas nas paredes são de artistas internacionais e 20% são do Brasil. Tomas Saraceno, Gilbert & George, Daniel Buren, Yayoi kusama, François Morellet, Carlos Garaicoa… convivem com os brasileiros Alfredo Volpi, Iole de freitas, Tunga e Sergio Camargo.

Uma embaixadora cultural

Primeira colecionadora latinoamericana a ser convidada, desde 2004 é membro do conselho de administração do MNAM – Centro Pompidou. Como boa embaixadora do Brasil, junto com Catherine Petitgas, famosa colecionadora francesa radicada em Londres, desenvolveram e financiam um projeto que permite que artistas da América Latina sejam incluídos no acervo. Foi o caso de Cícero Dias ou mesmo de uma instalação dos irmãos Campana. Claro que ela também está envolvida com os amigos do Palais de Tokyo em Paris. No Brasil, encontramos naturalmente seu sorriso lindo, generoso e entusiasmado na diretoria da Pinacoteca, nos grupos de patronos do MAM, MASP, do Instituto Tomie Ohtake e do MON.

Regina Silveira no projeto Caixa de Pandora, 2020 | FOTO: Everton Ballardin

O mais próximo possível da criação

Para quem sempre acompanhou os pais em suas viagens e compras, a arte é uma porta de entrada que permite todos os diálogos possíveis. Ela reúne todos e sempre faz novas perguntas que podem ser perturbadoras. É disso que ela gosta e ainda mais da interação com os artistas: “Com eles, aprendi que o trabalho é mais do que aquilo que vemos”, confidencia à Dasartes, ciente de que comprar é apenas uma faceta da riqueza do mundo da arte. É por isso que ela apoia os artistas em seu processo criativo. Quanto à CIJY, considera que “é um dever cívico partilhar o acervo, dando assim a possibilidade de as obras serem vistas pelo mais vasto público possível, gerando assim pesquisas e novos diálogos”.

Kura Arte

Na grande maioria dos casos, uma coleção de arte é a paixão exclusiva de um homem, mulher ou casal. É raro que a transmissão aconteça, e os descendentes muitas vezes se sentem excluídos do que lhes parece ser privilégio de seus pais. Muito pelo contrário com o Yunes, onde testemunhamos uma espécie acelerador de partículas! Depois de ter levado o testemunho dessa corrida de revezamento cultural nas mãos, Beatriz passou para a filha Camila que entrou na dança ao fundar em 2018, a Kura Arte, uma consultoria de arte que tem como objetivo principal ampliar o acesso à cultura. Promove o diálogo entre os diversos agentes do mundo da arte: colecionadores, artistas, galerias e instituições, uma outra família que conheceu por dentro e por fora.

cachorros não são gatos

Com um dinamismo atávico, Camila tornou-se uma malabarista, uma maga cultural cujas ações parecem onipresentes. Impulsionada pela missão de formar verdadeiros amantes da arte, a Kura Arte é uma empresa de 12 amazonas da arte especializada em assessoria artística e atendimento personalizado para colecionadores. Suas atividades incluem ainda a catalogação digital de coleções, apoio a artistas (acompanhamento do processo criativo, discussões conceituais sobre a obra, criação de portfólios, elaboração de textos críticos de obras, projetos e exposições, inscrições nas residências, apoio ao desenvolvimento de projetos, etc.). Sem esquecer uma série de projetos especiais: é assim que, entre outras coisas, a Kura Arte é parceira do Grupo Iguatemi (conhecido por seus grandes shoppings de marcas de luxo), para o qual oferece obras para espaços públicos, mas também cursos, viagens internacionais e visitas guiadas a feiras e exposições; monta exposições para o BNPPARIBAS, entre outros, facilitando o diálogo entre arte e moda na boutique Pinga …

Caixa de Pandora

Como você pode imaginar, Camila não poderia deixar de inventar algo para a CIJY. Com a bênção da família, nasceu o projeto da Caixa de Pandora, trazendo arte contemporânea, o único elo que faltava nesta incrível genealogia artística. Cada edição inclui uma exposição inédita de um artista contemporâneo (atualmente brasileiro), produzida após o artista ter mergulhado na imensidão variada da CIJY. Desde 2018, Kura organizou cinco edições do projeto: depois das propostas de BARRÃO, ANA DIAS BATISTA, VIK MUNIZ, PAULO NIMER PJOTA, hoje é a proposta de REGINA SILVEIRA que podemos ver. Esta parte merece um artigo, pois este diálogo entre esses artistas e o universo Yunes funciona perfeitamente bem e criou novos passeios em uma coleção impossível de descobrir de uma vez.

Paulo Pjota para o projeto Caixa de Pandora, 2019 | FOTO: Everton Ballardin

Com um dinamismo, uma generosidade e uma paixão rara, estas três mulheres excepcionais conheceram-se à sua maneira, complementando-se na perfeição, para dar vida a uma coleção que se torna assim o lugar de histórias a serem contadas, de valorização eficaz das obras e intercâmbios, já que existem poucos nas instituições públicas. Esperamos ser cada vez mais surpreendidos e deslumbrados com seus achados futuros.

Família Yunes em foto de 2021 | FOTO: Everton Ballardin

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