Foto por Leonardo Finotti

DENISE MILAN. RESPIRAÇÃO DA TERRA

Ela expande e cruza seus conhecimentos enciclopédicos com todas as disciplinas artísticas e científicas para cristalizar seu gesto criativo e nos reconciliar com as pulsações de uma Terra que não conhecemos

POR MARC POTTIER

A respiração da Terra, melhor ainda o universo, e seus mitos, o ‘quando matéria e consciência eram unas’, servem de inspiração para Denise Milan. Ela é uma artista visionária e polímata, um pouco xamã, um pouco alquimista que, nesta exposição nos jardins do Rosewood, procura mostrar como o caminho do ouro conduz ao nosso eu interior. Denise gosta de explorar as relações entre os infinitos pequeno e grande. Suas inspirações quem busca o invisível que nos faz viver, dirigem as suas criações de escrituras de bronze, pedras, fósseis e cristais para transcrevê-los em criações infinitas. Escultora? Geralmente, ela não transforma materiais, mas os monta, dando rédea livre a uma brilhante intuição. Poeta? Seu trabalho visual é frequentemente acompanhado por versos vertiginosos, como hoje na exposição “Respiração da Terra”. Visionária? Ela expande e cruza seus conhecimentos enciclopédicos com todas as disciplinas artísticas e científicas para cristalizar seu gesto criativo para nos reconciliar com as pulsações de uma Terra que não conhecemos.

Foto por Leonardo Finotti

Com base da instalação Olhar Mater na entrada dos jardins do Rosewood, escultura que foi instalada o ano passado e deu logo a impressão de se casar mesmo com a energia do lugar, propomos a exposição ‘Respiração da Terra’. Cinco novas obras nas outras partes dos jardins, criam um percurso artístico único. Esse trajeto amplia a narrativa da obra já instalada, introduzindo uma evolução temática e visual que guia o transeunte em uma jornada existencial, enriquecendo sua experiência no espaço. Para isso, foram escolhidos os Estromatólitos, fósseis muito antigos testemunhas dos primeiros organismos a realizar a fotossíntese oxigênica. São responsáveis pelo gás oxigênio que surgiu no planeta há cerca de 3,5 bilhões de anos. O nome vem do grego antigo (strôma/strṓmatos) ‘camada, estrato’, e (líthos) rocha) e é designado a rochas biosedimentares laminadas, formadas por atividade microbiana em ambientes aquáticos desde o pré-cambriano.

Foto por Leonardo Finotti

Para entender melhor a sua proposta, a artista oferece todas as chaves no seu poema Respiração da Terra, poema cujo título foi escolhido para esta exposição:

Como a luz que viaja de estrela em estrela,

o caminho de ouroluz

conduz

 ao nosso eu interior 

O olhar atravessa a matéria 

 vê no elemento primordial

não o ouro da posse,

mas o ouro do espírito —

Ouro alquímico,

nasce do fogo e memória 

Em suas formas, não há apenas gesto:

há evocação do ar —

o invisível que nos faz viver.

Em oceanos  primitivos

os estromatólitos, 

origem da vida no planeta

abriram caminhos 

liberaram o oxigênio 

a Terra respira pela primeira vez.

Tudo o que vive passa a pulsar.

Esse mesmo gesto

que traz a respiração 

despedra a matéria,

desperta a consciência 

Na origem das línguas,

na matemática sagrada,

saberes esquecidos, vibram

 nos sussurram —

de onde viemos,

quem somos,

para onde vamos.

Que o ar, sopro primordial,

ouroluz interior,

 irradie, inspire, conduza 

mais uma vez 

ao caminho do amanhã

Entre o enigma e a maravilha enciclopédica

Esta nova série de esculturas é uma maneira de Denise Milan conectar a obra de arte a culturas, crenças, sonhos e ficções, conferindo profundidade histórica e antropológica a muitas de suas reutilizações e apropriações. Ela ilumina esta citação do famoso filósofo grego antigo Aristóteles (384-322): “A arte imita e completa os movimentos que a natureza nem sempre leva ao seu fim.”

Celebração da Gaia

Nos jardins de Rosewood, ela celebra Gaia, a terra. A primeira obra, “Olho Mater”, surge como um radar que nos conecta ao mundo, ao mesmo tempo que simboliza um halo estelar que nos conecta ao infinitamente grande. É também como um olho, o olho de uma mãe protetora. A figura da mulher que dá a vida, que nutre, nunca está longe em muitas das obras apresentadas nesta exposição. A pedra central de bronze dourado da escultura anuncia a viagem e o convite para adentrar as profundezas dos jardins para descobrir esse caminho dourado. Como indica seu poema, nesse caminho tão brasileiro, mas também na grande tradição alquímica proposta pela artista, ela convoca uma trama de inúmeras referências. Caberá ao espectador desvendá-las e então dar livre curso às suas próprias inspirações.

Os primeiros sopros da Terra 

Lançado em 1968, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, o longa-metragem do diretor americano Stanley Kubrick (1928-1999) é hoje considerado um clássico entre os clássicos da ficção científica. Ilustra diversas sequências, notadamente um nascer do sol visto do vazio interestelar de “Assim Falou Zaratustra”. Esta obra simboliza o amanhecer do dia, mas também o despertar para a sabedoria na obra homônima de Nietzsche, e o nascimento da humanidade. As três evoluções do Homem descritas no filme são as mesmas realizadas por Nietzsche: o homem-macaco, o homem, o super-homem. Parece que é o monólito mostrado no filme que transmite a inteligência ao macaco para que este se torne homem. Muitas das obras de Denise são baseadas em pedras de basalto, como uma matriz que poderia nos lembrar das primeiras pulsações do mundo, dos primeiros sopros da Terra, deste momento de comunhão entre o Homem (que nao é mais animal) e a matéria, do nascimento dos primeiros impulsos…

Composições híbrida

Denise muitas vezes procura rochas com forma humana para aproximar o universo mineral do nosso, uma maneira de mostrar que somos parte integrante da Criação e, portanto, somos um dos elementos da Terra. As formas de suas esculturas são composições híbridas. Podemos ver na exposiçao do Rosewood, as Vênus do Paleolítico com corpos obesos revelando curvas generosas. De -38.000 a -17.000 anos atrás, essas estatuetas com características comuns foram esculpidas por toda a Europa: uma nudez cuja ligação com a fertilidade é consensual, considerada a representação de um ideal feminino, o arquétipo da beleza feminina do primeiro Homo sapiens. Mas esses perfis fantasmagóricos, que talvez alguns dos visitores da exposiçao não verão, também podem evocar os cadinhos onde o ouro é derretido ou, ainda mais prosaicamente, os anéis de crescimento das árvores, conectando as obras de Denise do nascimento à morte.

A eternidade 

Nascimento e morte, mas Denise Milan também aborda a eternidade. Esculturas em forma de “lemnisco” (8) pontuam a exposição, que termina com um halo de luz solar dourada. Ela quer nos falar de infinito, de harmonia, da ideia de um ciclo contínuo, sem começo nem fim. Este é, sem dúvida, mais um elo bem pensado para seu caminho do ouro que conduz ao nosso eu interior. O ouro é um metal com uma vida útil excepcional. Deve essa durabilidade à sua inércia, que impede esse material de reagir com outros elementos. Oferece excelente resistência à oxidação, corrosão, ácidos, decomposição e não enferruja mesmo em contato direto com água do mar ou água doce. A única solução para mudar a aparência do ouro é derretê-lo. Reconhecido desde os primórdios dos tempos como um material nobre, o ouro também tem sido associado ao sagrado, ao divino, aos poderes sobrenaturais e até mesmo à imortalidade. Denise Milan nos convida no renascimento e na eternidade do nosso pensamento. 

Esta exposição é uma verdadeira viagem pela História. Denise Milan, que imagina seu próprio corpo como um cristal, um corpo translúcido, atravessado pela luz, parece evocar o Big Bang. Ela inicia nossa jornada rumo à origem do Universo, que nasceu da expansão violenta de uma partícula extremamente densa e extremamente sensível, com a qual começou aos 13,8 milhoes anos atras. Ela nos envolve em um turbilhão que nos leva do cosmos ao nosso eu interior, revivendo e acelerando os impulsos originais da criação do mundo.

Como a luz que viaja de estrela em estrela,

o caminho do ouro conduz

ao nosso eu interior 

Foto por Lucas Mandacaru

 

Exposição de escultura nos jardins do Rosewood de São Paulo
Fotocolagens na Art Library e algumas paredes da entrada do hotel
(Fazem parte da série Mist of the Earth 2012)
Até fevereiro 2026.

 

Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional do projeto do Pompidou-Paraná.

VEJA ABAIXO GALERIA DE IMAGENS:

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