POR MARC POTTIER
Com uma energia rara e um olhar que engloba a diversidade da humanidade do passado e do presente, Daniela Busarello compõe o poder poético de Corpos-Paisagens. Seu apetite humanista é transcendido em uma obra composta onde o mistério da vida é concentrado e revelado por fragmento. Independentemente dos diferentes materiais que utiliza, inspira-se nas paisagens e pessoas que encontra, no cotidiano, nas coisas simples e nas sensações que a percorrem ou a apoderam; raios de sol, chuva, vento, os aromas das plantas, o mar, o canto dos pássaros… As diferentes cores de luz, dia e noite também (re)passam a sugerir o corpo humano com sua carne, seus órgãos, seu sangue, suas lágrimas, seus orgasmos que se misturam com os oceanos e a seiva numa grande sinfonia colorida.
SOBRE 12,4%
Hoje, a Mata Atlântica é a mais devastada do Brasil, onde edifícios e árvores altas vivem lado a lado. Ela foi urbanizada a tal ponto que a floresta se tornou quase inexistente, representando apenas 12% de sua cobertura original. Apesar desta realidade de destruição visível, a floresta se regenera de forma invisível, dando origem à novas plantas todos os dias. Isto é Esperança!
“12,4%” fala então da Mata Atlântica Urbana, onde ela mergulhou para ver e entender a devastação de que a floresta é vítima. Daniela transformou plantas em pigmentos, 170 diferentes. Foram colhidas nas calçadas da cidade, que farão presente essa floresta machucada em algumas de suas obras para nos alarmar metaforicamente sobre os ataques que a natureza sofre.
EXPOSIÇÃO NA A.GALERIA. NO PASSEIO CULTURAL PRIMAVERA
Após as exposições das irmãs Marcia Milhazes e Beatriz Milhazes e de Luiz Zerbini, onde a questão da ligação entre Arte e Natureza foi levantada através de obras substanciais que falavam de reciclagem ou da “saudade” de paisagens em desaparecimento, esta terceira exposição na A.Galeria oferece uma visão política mais aprofundada. Se não derivamos de uma obra pictórica tão sutilmente construída, por outro lado, o “manifesto” implícito que sustenta esta exposição “12,4%” oferece um ângulo de reflexão muito amplo sobre as referências incomensuráveis de uma artista que inscreveu em inglês em seu epígrafe perto da sua assinatura dos e-mails: Advocating respect for all forms of life (defendo o respeito por todas as formas de vida).
OS LIVROS SÃO PIGMENTOS
A artista frequentemente se aprofunda nas florestas e no interior do Brasil. Ela já viajou, entre outros lugares, pela Amazônia. Em todas as suas viagens, colhe plantas, minerais, águas, entrevistas e trás de volta como relíquias, materiais testemunhos. Esses pigmentos são como renascimentos dos lugares visitados e servem a uma obra pontilhista, em grande parte construída à partir de pequenos e delicados toques onde coexistem cores naturais. Ela cria formas abstratas que parecem estar sempre em movimento em telas que vão até oferecer uma certa transparência, às vezes sem moldura. Mas o que também deve ser considerado é que suas obras também são inspiradas em suas muitas leituras, onde a artista chega a considerar os livros como pigmentos complementares.
Assim, suas obras são também uma forma de transcrição de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Pietro-Maria Bardi, Claude Lévi-Strauss, Eduardo Viveiros de Castro, Ailton Krenak, para citar apenas alguns dos autores de suas inúmeras leituras, cujos livros estão presentes e podem ser consultados nesta exposição. Em suas séries “Pau Brasil”, “Vanitas Iemanjá”, sua instalação “Oráculo”, seus desenhos e vídeos inspiram e respiram “Tristes Trópicos”, “L’Inconstance de l’Âme Sauvage”, o “Manifesto Antropofágico”, “Idéias para Adiar o Fim do Mundo”… “no princípio era o verbo”, Daniela nos fala sobre a potência criadora e sua mensagem.
A própria palavra, é tão importante que a artista tatuou as janelas do espaço cultural A.Galeria com “Vida”, “Amor”, “Respeito”, “Somos todos um”. Suas mensagens simples e abrangentes são como mensagens em uma garrafa no mar. Daniela convoca à conscientização sobre a importância do respeito em seu sentido mais amplo, ao meio ambiente, às mudanças climáticas e à necessidade de preservar saberes e práticas ancestrais. Daniela celebra a igualdade das culturas e critica o chamado progresso do pensamento ocidental. Seu Manifesto tácito também enfatiza a importância da troca e da reciprocidade nas sociedades humanas. Ela incentiva a viver uma vida verdadeira, longe de artifícios e falsos valores, favorecendo relacionamentos humanos autênticos e a busca pela verdade, próxima ao “perspectivismo” do famoso antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro.
ORÁCULO
Daniela invoca a Pítia de Delfos, famosa por suas profecias enigmáticas, o oráculo de Dodona, cujas profecias eram transmitidas pelo som das folhas de um carvalho sagrado, uma fonte e um gongo, ou mesmo os oráculos de Anfiarao e Trofônio? Com seu trabalho de “oráculo”, Daniela tem os pés firmemente assentes (assentados?) na terra. Ela é uma intermediária entre a realidade da Natureza (deuses) e nós (meros mortais), oferecendo previsões ou conselhos sobre o futuro, muitas vezes por meio de profecias poéticas e artísticas ou convites para interpretar sinais, não divinos, mas vindos da terra onde ela esteve. Daniela fala de um oráculo, mas tem as mãos firmemente na terra!
A obra é um grande círculo em suspensão. Símbolo de infinito, de continuum, símbolo de reunião e união. É um grande espelho redondo, símbolo do mais precioso objeto de troca dos Europeus com os Povos Originários. Este círculo é um símbolo concreto da memória. É também um portal —uma passagem para “o outro lado” — de conexão com a Terra, com o Cosmos, com os mundos visíveis e invisíveis. A artista convido à sentar-se nesta roda de conversa. Este é o poder sagrado do seu Oráculo escutarmos uns aos outros, nos conectarmos com a Vida.
MATA ATLÂNTICA
Como já mencionamos, Daniela viajou bastante pelo Brasil. Hesitamos muito em criar uma exposição “rio” que refletisse essa multiplicidade de experiências, concentrando-nos em sua série sobre a Mata Atlântica. Como vimos, Daniela é uma artista, mas também uma mulher do terreno, da qual extrai seus pigmentos. Mas seu profundo conhecimento dos lugares também lhe permite observar a realidade da conservação da natureza. Ela observa que a Mata Atlântica que abrange cerca de 15% do território nacional, em 17 estados. é o lar de 72% dos brasileiros e concentra 80% do PIB nacional. Dela dependem serviços essenciais como abastecimento de água, regulação do clima, agricultura, pesca, energia elétrica e turismo. Hoje, restam apenas 24% da floresta que existia originalmente, sendo que apenas 12,4% são florestas maduras e bem preservadas. Ela observa que precisamos monitorar e recuperar a floresta, além de fortalecer a legislação que a protege. (fonte da Organização SOS Mata Atlântica)
Em 2020, ela iniciou a série de pinturas Mar Verde, sobre a Mata Atlântica Urbana, sobrevivente ao ato de ‘conquista’ do urbano. Resta apenas 1% da Mata Atlântica em a sua terra natal, Curitiba, que tem 3 milhões de habitantes e é considerada a “Capital Ecológica Brasileira, se lamenta a Daniela. Hoje, mesmo existindo em uma escala ínfima dentro das nossas cidades, sua força é monumental. Cada árvore em meio ao asfalto, transmite a força de Vida e de conhecimento do conjunto de toda a Mata Atlântica – do presente, passado e futuro.
O poder de uma obra de arte é transmitir mensagens de forma mais alusiva, menos frontal, se assim se pode dizer, menos agressiva e, portanto, menos repulsiva. Cabe ao público desta exposição querer buscar as mensagens ocultas por trás da beleza de suas obras e, talvez, esperar que, com mais respeito à natureza, a artista possa continuar a colecionar seus pigmentos. Em 2019, Ailton Krenak publicou uma coletânea de textos, “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, sobre as cosmovisões indígenas americanas e sua capacidade de “criar mundos”. A exposição de Daniela é um magnífico convite a (re)pensar e (re)criar o mundo. Por trás de seus pigmentos, esconde-se a vida, a vida real, que ela foi reunir para lançar um olhar generoso e amoroso sobre o universo.
12,4% A.Galeria, no Passeio Cultural Primavera em Florianópolis
Primavera office, 7° andar. Rod. José Carlos Daux, 4150 (SC-401)
Até o dia 30 de Outubro de 2025
A obra díptico mostrada na Casa Hurbana Bocaiuva intitulada Lusco-Fusco de três sois, 2021, é como um braço da exposição no centro da cidade.
R. Bocaiúva, 2013 – Centro, Florianópolis
Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional do projeto do Pompidou-Paraná.


















