Mostra Da natureza para a obra, A.Galeria, Florianópolis. Foto: Sidney Kair.

Da natureza para a obra

Da natureza para a obra, o título da exposição também poderia ter sido Da obra para a natureza. O que se procura mostrar aqui são as idas e vindas entre a inspiração dos artistas diante da natureza

POR MARC POTTIER

Da natureza para a obra, o título da exposição também poderia ter sido Da obra para a natureza. O que se procura mostrar aqui são as idas e vindas entre a inspiração dos artistas diante da natureza, objeto de fascínio e impressões poéticas, objeto simbólico que nos leva a posicionar o homem em seu ambiente e, finalmente, objeto político no mundo antropoceno de destruição maciça do meio ambiente. Todos os artistas que “vêm entre nós” oferecem a natureza para compartilhar.

Como uma tomada de posição

As coleções de arte contemporânea e os amantes da arte que as iniciam desempenham um papel importante em um mundo da arte em constante crescimento. Na era da comercialização excessiva e da globalização do mercado da arte, esses entusiastas investem seu tempo e dinheiro na criação contemporânea, muitas vezes sem contar. Mostrá-los é revelar uma parte de sua intimidade e, por isso, uma parte de sua visão da arte e da vida que se descobre. Uma coleção particular pode se tornar um veículo de transmissão cultural e uma ferramenta de preservação do patrimônio. A partir de um certo tamanho, uma coleção é um verdadeiro compromisso de vida e um veículo de compartilhamento. Isso resume bem a aventura da coleção de Andrea e José Olympio Veiga Pereira, da qual a A.Galeria tem hoje o privilégio de mostrar uma seleção com Da Natureza para a obra.

Andrea e José Olympio Veiga Pereira, um casal de amantes apaixonados, próximos dos artistas, que só concebem a sua vida no meio da arte

Mostra Da natureza para a obra, A.Galeria, Florianópolis. Foto: Sidney Kair.

Muito rapidamente, no início do casamento (há 44 anos), a arte passou a fazer parte da construção do casal, como um cimento, um diálogo único entre eles, uma forma singular de estarem juntos, mesmo que, por vezes, José Olympio tome algumas decisões sozinho. Isso faz parte de um jogo entre eles, com o olhar carinhoso de Andrea, que admira o lado muito estudioso do marido. Após uma primeira aquisição no início dos anos 1990, uma obra de Carlos Vergara, os primeiros passos foram dados com a orientação de galeristas como Thomas Cohn, Marcantonio Vilaça, Raquel Arnaud, Luisa Strina e a Dan Galeria. Aos poucos, a “família” cresceu com a amizade de artistas como Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Tunga, Luiz Zerbini, Leonilson, Iran do Espírito Santo… Hoje, sabemos que eles têm familiaridade com quase todos os artistas desses primeiros tempos até as gerações mais jovens de hoje.

Esse “hobby” inicial assumiu proporções tais que eles naturalmente perceberam a responsabilidade que lhes cabia. Decidiram criar, em 2018, um espaço aberto ao público para abrigar a coleção, o Galpão Lapa, na Vila Anastácio, em São Paulo. Uma vez por ano, um curador convidado monta uma exposição a partir das obras da coleção. A visita é feita mediante convite ou agendamento. Eles também se tornaram muito presentes nas grandes instituições culturais brasileiras e internacionais: enquanto Andrea está envolvida com o MAM de São Paulo, José Olympio, o estudioso, acrescentou a Bienal de São Paulo, da qual foi presidente de 2019 a 2023, o MASP e o MoMA de Nova York, a Tate Modern, em Londres, e assumiu a sucessão de seu grande amigo e saudoso Gilberto Chateaubriand na Fundação Cartier, em Paris, sem esquecer o Latin American and Caribbean Art Fund. O objetivo é, naturalmente, promover internacionalmente a arte brasileira, incluindo artistas tanto em exposições quanto em coleções permanentes.

Esta exposição na A.Galeria é a quarta do gênero no Brasil, após uma seleção apresentada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, 1981/2021: Arte Contemporânea Brasileira na Coleção Andrea e José Olympio Pereira, no CCBB Rio de Janeiro, e De Onde Surgem os Sonhos | Coleção Andrea e José Olympio Pereira, apresentada no Museu Vale, no Espírito Santo.

A coleção é, portanto, muito viva. Até o momento, nenhuma decisão foi tomada sobre o seu futuro. A boa notícia é que os dois filhos do casal, um dos quais “pegou o vírus” ao se tornar artista, se interessam pela paixão dos pais.

A coleção não tem uma abordagem declarada sobre a questão ecológica. Mas a reunião das obras para esta exposição na A.Galeria não é nenhuma surpresa para eles. Embora não tivessem percebido que havia tantas obras que se enquadravam no tema — poderíamos ter montado uma exposição muito maior —, eles acham isso natural, pois é um assunto que sempre os tocou, conscientes do impacto diário dos malefícios do aquecimento global.

Para a coleção, a 34ª Bienal de São Paulo (2021), intitulada Faz escuro mas eu canto, foi um ponto de inflexão. Foi a Bienal em que os povos indígenas estiveram particularmente bem representados, marcando um momento histórico com uma forte presença de artistas indígenas, entre eles Jaider Esbell, presente em nossa seleção. Mas Andrea e José Olympio já haviam sido tocados por essa arte “nova” dos guardiões da floresta na grande exposição da Pinacoteca de São Paulo, Véxoa: Nós Sabemos, inaugurada no final de 2020 com 23 artistas e coletivos indígenas, marcando uma presença histórica da arte indígena contemporânea no museu.

A coleção CAJOVP homenageia os artistas brasileiros. É importante para o casal reunir um conjunto consistente de cada artista, que pode ser representado por cerca de vinte ou trinta obras. As revendas são quase inexistentes.

Zé Carlos Garcia. Foto: Sidney Kair.

Da natureza para a obra, um apelo poético

Natureza é renascimento, ela te alimenta e abriga. Nela plantamos e colhemos, mas ela também se revolta quando é muito desmatada. É o rio que corre como sangue da terra, a mata que ensina silêncio. Quando cuidamos da natureza, cuidamos de nós, porque a vida não se separa.” — Kaya Agari

Esta exposição apresenta uma pequena parte da coleção, mas continua generosa em sua proposta, reunindo 22 artistas. Assim, oferece uma grande diversidade artística: quatro artistas do universo das tribos indígenas, guardiões da floresta (Jaider Esbell, Kaya Agari, Mahku — incluímos também nesta parte Claudia Andujar) fazem parte do conjunto que reúne também representantes da herança africana (Ayrson Heráclito), da arte popular (José Bezerra e Veio), do espírito pop art (AVAF)… sem esquecer o grande artista histórico que foi um dos primeiros a “gritar” para alertar sobre os perigos dos maus-tratos à natureza (Frans Krajcberg).

As fotografias fazem parte da série Bori: oferenda para cabeça (2008–2022). Esse trabalho se desdobra em três dimensões: a série fotográfica, uma performance ao vivo e um filme realizado em colaboração com Lula Buarque de Holanda. A proposta de ‘nutrir a cabeça’ na episteme afro-brasileira é estabelecer uma conexão com as forças da natureza, que nos oferecem nosso maior bem: os alimentos. No conjunto de 12 fotografias, cada uma apresenta os principais alimentos votivos dos principais orixás do candomblé. Dar comida para a cabeça é nutrir a nossa alma. Alimentar a cabeça com comidas para os deuses é evocar proteção. Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranquilidade, saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade.” — Ayrson Heráclito

Ayrson Heráclito. Mostra Da natureza para a obra, A.Galeria, Florianópolis. Foto: Sidney Kair.

Nossos trabalhos, de uma forma geral, e especialmente nossas instalações multissensoriais, têm como objetivo máximo a criação de energia — antes mesmo da criação de um ‘objeto de arte’. A cor é um de nossos instrumentos para a transmissão de energia. Queremos energizar o espectador e, assim, utopicamente, ajudá-lo em suas lutas e desafios do dia a dia. Paralelamente a isso, também esperamos proporcionar a ele (o espectador) a calmaria que sentimos quando nos deparamos com algo que é intrinsecamente ‘nosso’ e que nos define. Nesse sentido, uma inspiração recorrente para os nossos projetos é a contemplação da natureza. Vemos nossas instalações como um reflexo amoroso e energético de um dia de sol tranquilo e deslumbrante em uma praia deserta: céu azul intenso sem nuvens, o calor dos raios solares amaciando sua pele, a areia branca acolchoando nosso corpo, o mar transparente e refrescante flutuando sua mente, o som do vento fazendo as folhas das palmeiras de verde brilhante estalarem docemente, o som das ondas lentamente se aproximando de nós, as maritacas fofocando sem parar. Nossos trabalhos buscam essa contemplação radiante, um turbilhão de energia que nos leva ao silêncio interior pleno, momento em que estamos completamente cientes de quem somos e do que nos dá prazer.” — AVAF

AVAF. Mostra Da natureza para a obra, A.Galeria, Florianópolis. Foto: Sidney Kair.

Esta exposição também mostra a diversidade dos meios utilizados: pinturas, esculturas, instalações, fotografias, desenhos, vídeos… Alguns artistas utilizam elementos retirados da natureza (Daniel Steegmann, Krajcberg), outros utilizam imagens (as folhas de Paulo Nazareth ou os peixes de Jonathas de Andrade)… Algumas obras não são representações da paisagem, mas lugares de memória (Lucas Arruda, Paulo Pasta).

O Peixe se conecta a essa conversa sobre a natureza e a forma como nós, humanos, nos relacionamos com ela, uma relação sempre atravessada por amor e conflito, dominação, afeto e violência. O Peixe nasce do convite a um grupo de pescadores para realizar um gesto até então inédito para eles: abraçar um peixe ainda vivo após a pesca (pescadores da foz do Rio São Francisco, em Alagoas, meu estado natal). A cena é como uma espécie de ritual de despedida, com a estética documental do 16 mm dialogando com certa tradição do cinema etnográfico dos anos 1970, como os filmes de Jean Rouch. Atua fortemente em uma imagem ambígua entre amor, violência e força erótica, que nos convida a refletir sobre nossos limites e contradições nas relações interespécies.” — Jonathas de Andrade

Sempre gostei de pinturas de paisagens. Fiz muitas quando comecei a pintar, geralmente vistas da minha região de origem. Na sua maioria, eram imagens dos canaviais que lá existem. Não ia ao campo para fazê-las. Usava a memória, o que conferia aos canaviais uma grande simplificação e uma quase idealidade.
Procurava retratá-los nas várias horas do dia, em estações diferentes e debaixo dos mais variados céus. Hoje, quando olho para esses trabalhos, percebo que essa marca da memória, no sentido amplo, constitui sua característica mais forte. Essas paisagenzinhas já eram uma tentativa de unir a pintura, a história da pintura, que via nos livros, com minha própria história e circunstância. Era como se a pintura pudesse criar essa ponte difícil entre o Eu e o mundo.
Foi a pintura que me ensinou a ver a paisagem, por exemplo, e não o contrário. Se via um quadro, via o mundo… Fiz as primeiras lembrando-me de Corot e de Daubigny, dois dos pintores de Barbizon admirados por Van Gogh… Passei a trabalhar lembrando daquelas mesmas paisagens do início, só que agora modificadas pela técnica e pelo acréscimo de tantas outras experiências.
Quando olhei para o conjunto que elas formaram na parede do ateliê, constatei, um pouco encabulado, que estava ainda uma vez descobrindo a mesma coisa: de novo, era por meio da pintura que os arredores de uma cidade do interior paulista conversavam com o campo francês, e que a luz do interior do estado encontrava correspondência com o céu da Holanda. É a pintura que proporciona para mim essa união entre o ontem e o hoje, o desejo e o real. Ela foi e ainda é essa ponte, que comporta momentos de fluxo e de interrupção.” — Paulo Pasta

É interessante observar como o surrealismo está presente nesta exposição. Lembremos que, surgido do dadaísmo após a Primeira Guerra Mundial, o surrealismo busca reconstruir o mundo valorizando a imaginação e a revolta. Ele explora o inconsciente, o sonho e o “surreal” (a união do sonho e da realidade) (Bruno Novelli, Jonathas de Andrade, Mario Cravo Neto, Zé Carlos Garcia…). A natureza não poderia escapar dessa forma artística.

Eu penso essa pintura como uma imagem sobre quando a natureza vira mito, uma síntese do mundo vivo como força e metamorfose. O leão aparece como um ser híbrido, quase um guardião: ele não está simplesmente dentro da paisagem, ele parece feito dela, o corpo vira escama, folha, camuflagem. Ao mesmo tempo, existe embate entre as formas de vida. A presença da serpente, com esse volume de um corpo saciado (como se tivesse acabado de se alimentar), reforça uma ideia de continuidade e ciclo, um mundo onde tudo se transforma, se consome e se renova. A minha relação com o mundo vivo passa por esse lugar: não como cenário, mas como presença viva, instintiva. E o verde, aqui, não é só cor, é atmosfera, respiração, um mundo inteiro.” — Bruno Novelli

Romper com temas que prendem em rótulos, esta exposição coletiva celebra a diversidade artística sem guetizá-la. Aqui, a política se apaga em favor da estética. Sob a perspectiva “Arte e Natureza”, criadores afrodescendentes ou de raízes múltiplas, indígenas e LGBTQIAPN+ escapam do agrupamento identitário forçado para compartilhar uma visão universal. Eles são, acima de tudo, artistas. Trata-se de um apelo poético, bem como de uma tomada de posição comprometida, essencial e sem barreiras sobre o mundo atual.

Mais do que nunca, no limiar de uma era sombria em que a natureza está prestes a ser condenada pela loucura das políticas e do chamado progresso, esses magos da natureza iluminam o que resta do ser humano. O que esses artistas pioneiros nos oferecem é um convite para habitar o mundo como poetas, a fim de descobrir algumas de nossas razões para viver. As obras reunidas nesta exposição são como vários nasceres do dia!

Thiago Rocha Pitta vive e trabalha em um lugar que tem tudo a ver com os sonhos, com as cosmogonias, inclusive com uma imersão total na paisagem: é a Fundação Abismo, criada por ele mesmo na encosta de uma montanha, logo na entrada da cidade de Petrópolis, no interior do estado do Rio de Janeiro.

“A paisagem não é uma coisa separada de nós, não é uma janela: estamos imersos nela. Devido ao meu trabalho com a paisagem, investigada nem como figura nem como fundo — tento compreender todos os aspectos dela, da geologia à astronomia —, e ciente da urgência climática em que vivemos, fiz uma escolha de me afastar da cidade e viver imerso na floresta, conviver com outras formas de vida não humanas e experimentar um modo de vida mais sustentável. Afinal, o modo consumista em que vivemos está condenando à extinção infinitos outros modos…” — Thiago Rocha Pitta

Seleção da coleção Andrea e José-Olympio Veiga Pereira:

Acelino Sales Tuin MAHKU, André Komatsu, AVAF, Ayrson Heraclito, Cassio Vasconcellos, Claudia Andujar, Daniel Steegmann, Ernesto Neto, Franz Krajcberg, Jaider Esbell, Jonathas de Andrade, José Bezerra, Kaya Agari, Lucas Arruda, Marina Rheingantz, Mario Cravo Neto, Nara Guichon, Paulo Nazareth, Paulo Pasta, Rivane Neuenschwander, Sandra Cinto, Thiago Rocha Pitta, Veio, Vik Muniz, Zé Carlos Garcia.

Da natureza para a obra, está em cartaz na A. Galeria, em Florianópolis, de 15 de abril a 1º de agosto de 2026.

Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Ele também está envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, curador do novo espaço cultural A.Galeria. em Florianópolis, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer) em Curitiba e é o coordenador internacional do projeto do Pompidou-Paraná

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