Com seu livro-objeto Flor no Asfalto, Claudia Jaguaribe inspira o simbiótico

Em busca de um trabalho comprometido com as fronteiras da fotografia, design gráfico e editorial, Claudia Jaguaribe desenvolve uma narrativa original que transcende o Antropoceno para um novo mito simbiótico. Flor no Asfalto, seu novo livro publicado pela Bessard, lançado na Paris-Photo de 11 a 14 de novembro, carrega a ambição de questionar o significado […]

Em busca de um trabalho comprometido com as fronteiras da fotografia, design gráfico e editorial, Claudia Jaguaribe desenvolve uma narrativa original que transcende o Antropoceno para um novo mito simbiótico. Flor no Asfalto, seu novo livro publicado pela Bessard, lançado na Paris-Photo de 11 a 14 de novembro, carrega a ambição de questionar o significado e o futuro da paisagem urbana.

Menina na Lage, série Entre Morros, 2010

Natureza real e inventada.

De projetos fotográficos a performances, a autora brasileira tem cerca de quinze livros-obras em seu currículo. Claudia Jaguaribe gosta de brincar com a representação da realidade. Freqüentemente, ela recorta e remonta suas fotografias, brincando com formatos. Ela as transforma em esculturas ou instalações multimídia e nunca hesita em reunir percepções improváveis.

Resultam imagens que não são testemunhos nem do que existe nem do que se pode ver, um outro lugar que revisita a história e os códigos tradicionais da paisagem: visualmente esmagada, já não é representada como uma natureza intacta, mas como uma construção algumas vezes pitoresca, com aspectos idealizados ou mais frequentemente fantásticos. Claudia Jaguaribe nos convida, assim, a questionar e discutir os códigos de representação.

Claudia Jaguaribe, Flor no Asfalto (capa)

“Flor do asfalto”, um oxímoro ecológico?

Como a francesa Grand Corps Malade em seu álbum ‘Enfant de la ville’, Claudia Jaguaribe “embebe uma pluma no asfalto”. Este asfalto que foi extraído do Mar Morto (lago de asfaltite) para embalsamar os mortos no Egito e que Noé teria usado para garantir a impermeabilização de sua arca para salvar a vida selvagem. Esse material continua sendo uma importante fonte, infelizmente negligenciada, de poluição do ar hoje. É também uma superfície que apaga a natureza e evita o escoamento da água.

Claudia, que vive entre São Paulo, um oceano infinito de prédios cinzentos, e o Rio de Janeiro, a cidade-jardim por excelência, parece criar um oxímoro ao reunir essa mistura de betume-petróleo e agregados mortais com flores brasileiras e sua parte sexual que permite a reprodução.

As imagens sobrepostas de flores entram simbioticamente no corpo do asfalto recortado em forma de plantas. Do cinza ao neon artificial e saturado, ela nos oferece um triunfo lúdico do híbrido que celebra as núpcias de Eros e Tânatos.

Leporello, como um friso ininterrupto

Claudia Jaguaribe adora livros que considera obras de arte. “Flor no Asfalto” adota o formato de friso, a Leporello. Aqui não retoma as canções do famoso servo de Dom Juan cantando as conquistas de seu mestre anotadas em um documento dobrado em sanfona. A grande foto única que apresenta retoma a sua ideia de um jardim imaginário, de uma Natureza artificial ou “segunda Natureza” em que trabalha há muitos anos.

Desperte nossa consciência sobre o futuro do mundo.

Para este lançador de novas perspectivas, os jardins expressam melhor o que conecta o Homem e a Natureza. Ela os vê como um lugar icônico dos ciclos da vida (crescimento, florescimento e declínio) e os vê como um reflexo das sociedades que os moldam. A sua composição fotográfica situa-se entre a ideia da ruína de um mundo que parece caminhar para um desastre natural e um futuro a que sempre empresta uma força de resistência e resiliência.

As flores são como aparições no asfalto. Eles poderiam (re) assumir cores, a menos que seja quando eles vão ser absorvidos e desaparecer? Cabe ao espectador decidir.

 

Jardins híbridos

A coleção de obras da série “Meu Jardim Imaginário” mostra o encontro da flora exuberante com o ambiente urbano. As fotografias criadas celebram a excelência e a força do exotismo brasileiro, onde o artista utilizou imagens de jardins, parques tropicais como o de Inhotim em Minas Gerais ou o sítio do famoso paisagista carioca Roberto Burle Marx (1909-1994). São a base deste trabalho nos seus jardins híbridos sobrepostos a espaços urbanos e matas que sofreram danos ambientais, cujas cicatrizes podem ser vistas para que “Flor no asfalto” traga uma nova expressão.

O que acontece conosco quando perdemos um terreno?

Por meio de seu radicalismo poético e visionário, Flor no Asfalto nos lembra o de Glenn Albrecht, filósofo ambientalista australiano e autor o livro “As emoções da Terra” (Les Liens qui Libéré, 2020). Seu conceito de “solastalgia” refere-se à perda de um lugar natural único causado pelas transformações ocasionadas pelo nosso exponencial desenvolvimento industrial. Uma forma de “saudade” (mistura de melancolia, nostalgia e esperança, sentimento tipicamente lusófono) ou “A saudade de casa que ainda se sente quando ainda está no campo” é assim destacada nesta obra.

Na época do Antropoceno, os humanos se tornaram uma espécie tecnologicamente dominada, mas se distanciaram dos laços com a vida ao seu redor, deixando-os desamparados diante dessas mudanças ambientais. Claudia Jaguaribe nos alerta e nos convida a refazer laços vitais com a terra.

O nascimento de um novo mito simbiótico

A história se repete. As desordens e a cegueira levaram à decadência de Angkor, a cidade dos reis Khmer fundada no século IX, onde a Natureza reclamou seus direitos, devorando os templos, criando assim novos ambientes surrealistas. São estes últimos que captam, anunciam (?) as visões de Cláudia Jaguaribe. O livro é concebido como um filme cinematográfico de folhagens e flores tropicais que se confundem com suas esculturas de pedaços de asfalto perfurado. Tudo é banhado por uma perspectiva turquesa que flutua o todo e parece uma bolsa amniótica que pode se romper para dar origem a um novo mundo, um novo mito simbiótico.

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