Com Miguel Rio Branco, Deus perde o poder, e o homem já não é mais sua imagem e semelhança.

É a representação do irrepresentável que interessa a Miguel Rio Branco, e suas obras revelam o nada da humanidade. Ele tira a essência de sua escrita das imagens dos desertos do mundo, no limite mais tênue entre os vivos e os não vivos, entre o humano e o inumano, entre a forma e o desforme, […]

É a representação do irrepresentável que interessa a Miguel Rio Branco, e suas obras revelam o nada da humanidade. Ele tira a essência de sua escrita das imagens dos desertos do mundo, no limite mais tênue entre os vivos e os não vivos, entre o humano e o inumano, entre a forma e o desforme, onde ele “sufoca a realidade ”. Hoje, ele  desperta a nossa curiosidade no BAL e nas paredes da Gare de l’Est.

Um trabalho sobre o tempo e as cicatrizes da existência.

“Qualquer fotografia é por natureza um documento, mas a minha intenção nunca foi documentar. Capturo através da fotografia fragmentos dissociados e dispersos da realidade, tentando responder visceralmente a uma pergunta: por que a vida deve ser assim”, confidencia Miguel. Conhecido pelas suas fotografias,  ele é, de fato, um verdadeiro pintor. Suas fotografias, seus filmes, suas instalações multimídia contam com um incrível senso pictórico e mostram o quanto ele é um colorista de referência. Seus quadros costumam ser justos com um fundo que perde toda a profundidade, colocando seus personagens e o observador de volta nas paredes. Quando fala sobre suas influências, é aos pintores a quem se refere. Ele pensa na audácia de Robert Rauschenberg (1925-2008), que disse querer trabalhar no fosso entre a arte e a vida. Os dois artistas têm em comum o desejo de abolir o princípio da autoexpressão na arte. As superfícies de suas composições-montagens híbridas são espelhos prontos para acolher o reflexo do mundo. Chaïm Soutine (1893-1943), é claro, vem no topo de sua lista, com seu mito do artista amaldiçoado e seu fascínio pela carne e pelo sangue do cadáver em sua nudez final.

Um camaleão atento.

Esse filho do diplomata, nascido em Las Palmas em 1946, é um artista franco-brasileiro desenraizado que assumiu a identidade de todos os países ou grandes cidades onde teve oportunidade de viver: Argentina, Portugal, Suíça, Nova-York… teve uma infância quase marginal, vítima de bullying no Brasil porque falava português com sotaque de Portugal. Muito exigente com os outros, mas principalmente consigo mesmo, Miguel Rio Branco, atualmente incomodado com a vulgaridade do mundo político que o cerca, agora vive entrincheirado com a família na sua grande casa em Araras (Petrópolis, nas alturas do Rio): com a filha Clara, sua esposa, a artista servo-húngara Isidora Gajic, e seu filho Dimitri. Ele agora dirige remotamente suas exposições, que ele chama de “póstumas”, rindo. Assim, ele saberá exatamente como elas serão depois dele!

Independência e curiosidade acima de tudo

Sempre com um pé do lado de fora, este neto da grande aristocracia brasileira não hesitou em morar nos bairros pobres do East Village de Nova York, onde fez amizade com seu icônico compatriota Hélio Oiticica (1937-1980), este último bem conhecido, entre outros, por sua pergunta “Marginal ou herói? Margens e heróis? ” De volta ao Brasil, Miguel Rio Branco morou sucessivamente no Nordeste, com caçadores de esmeraldas, e também no bairro na época insalubre chamado Pelourinho, em Salvador da Bahia, que então abrigava famílias carentes e prostitutas.

“Out of nowhere”

Sua colaboração com a agência Magnum na década de 1980 foi uma forma de afirmar seu trabalho pessoal. Acima de tudo, ele guarda boas lembranças de seu projeto realizado em meio os Caiapó no sul do Pará. Isso lhe deu a oportunidade de criar sua primeira instalação de projeções de imagens “Diálogo com Amaù” que exibiu na 17ª Bienal de São Paulo (1983). Esta é uma série de retratos de Amaù, um índio pária da tribo, surdo e mudo, cuja doçura e melancolia Miguel captou. Na sua instalação se confundem imagens que remontam ao Brasil da mineração de ouro.

Um pavilhão em Inhotim

Encontramos esta obra no pavilhão a ela dedicado no famoso jardim botânico-instituto de arte contemporânea chamado Inhotim (experiência essencial para os amantes da arte que vêm ao Brasil).  Imagine um espaço escuro, projetado como uma experiência imersiva sem qualquer comunicação com o exterior.  Ali, o público, sem qualquer outra ‘distração’, é confrontado com  o ‘díptico do inferno’, ‘o toque do diabo’, ‘máscara da dor’, mas também a sua soberba série de 34 fotografias ‘Maciel’ (1979), nome de um bairro de Salvador da Bahia, quando se interessou em retratar a prostituição e as histórias de violência do lugar. “Blue Tango” (1984), outra série que pode ser encontrada hoje em tamanho considerável pendurada nos portões da Gare de l’Est em Paris, nos adiciona um pouco de humanidade. Vemos dois adolescentes dançando capoeira, uma arte marcial afro-brasileira, uma forma estilizada de combate onde ninguém tem o direito de se tocar, que tem suas raízes nas técnicas de luta dos povos africanos durante a escravidão.No Brasil, ela difere de outras artes marciais por seu lado lúdico e frequentemente acrobático.

A pele do tempo

Marcado na adolescência pela Revista Playboy e pelos livros sobre campos de concentração que encontrou na biblioteca do pai, Miguel Rio Branco capta na sua obra ‘purgatório’ os corpos do Homem, sua glória, mas especialmente seu cansaço, suas rugas e suas cicatrizes, sua modéstia, mas ainda mais seu exibicionismo. Tal como acontece com Le Caravaggio (1571-1610), as crianças têm as mãos sujas. Assim como o fotógrafo inglês Bill Brandt (1904-1983) que ele admira, não hesita em mostrar o corpo feminino nu, truncado ou distorcido. Todas essas imagens estão admiravelmente encenadas nos livros e cadernos que ele concebe como meio de expressão essencial e que fazem parte de seu discurso poético sobre as ruínas do mundo.

A capacidade de escutar o mínimo ruído

“Apenas um pequeno número de nós, em meio aos grandes eventos desta sociedade, ainda ingenuamente se pergunta o que eles estão fazendo com o mundo e o que estão armando contra nós. Essas pessoas querem decifrar o céu ou as imagens, ir atrás das profundezas e do infinito de estrelas. E dessas telas pintadas, como crianças procuram as aberturas em uma cerca, tentam olhar pelas frestas deste mundo”. Georges Bataille é frequentemente citado quando lemos sobre Miguel Rio Branco e seu “realismo exorbitante”.  Miguel Rio Branco avança com os olhos bem abertos. Através de seu trabalho aprendemos, confiantes ou com medo, a existência de caminhos desconhecidos. Fotografar, pintar, criar em geral é uma jornada vital para manter os olhos bem abertos e apreender o mundo. Ele nos fala sobre os lugares onde sua liberdade é exercida. Mostra-nos este tempo de escuta extrema onde é preciso ouvir, como um nômade no deserto, o menor ruído do mundo. E dessa experiência você nem sempre sairá ileso.

 

No dia 8 de dezembro, o Instituto Moreira Sales (IMS) inaugurou na sua sede da Avenida Paulista, a bela exposição de Miguel Rio Branco  “Palavras cruzadas, sonhadas, rasgadas, roubadas, usadas, sangradas”,  a exposição inclui o lançamento de um livro fotográfico. Na mesma data da abertura, também foi feita uma live com o fotógrafo no canal Instituto Moreira Salles no YouTube, com a participação do curador da exposição e coordenador do espaço IMS Contemporary Photography, Thyago Nogueira. Gravada, a live segue disponível.

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