Com espírito radical, os irmãos Campana alertam para as metamorfoses do mundo

Seu sucesso como designers não deve obscurecer a inspiração desses mágicos de materiais recuperados, desviados e reinventados. Os irmãos brasileiros Fernando e Humberto Campana assumem uma antropofagia das culturas popular e ocidental para melhor alertar sobre as metamorfoses do mundo. Estes dois amigos franceses têm lugar na exposição Face à Arcimboldo, do Pompidou Metz até […]

Seu sucesso como designers não deve obscurecer a inspiração desses mágicos de materiais recuperados, desviados e reinventados. Os irmãos brasileiros Fernando e Humberto Campana assumem uma antropofagia das culturas popular e ocidental para melhor alertar sobre as metamorfoses do mundo. Estes dois amigos franceses têm lugar na exposição Face à Arcimboldo, do Pompidou Metz até 22 de novembro.

Fernando & Humberto Campana | FOTO: © Fernando Laszlo

Em sintonia com os tempos

O primeiro se recusou a usar sapatos e afirmou que queria ser um índigena amazônico. É Humberto, que nasceu em 1953. O segundo sonhava em ser astronauta, Fernando nasceu em 1961. Para quem tem a cabeça cheia de sonhos e de utopia, nenhuma história se escreve com antecedência e nenhum sonho fica atrás da porta por um muito tempo. A “história de sucesso” dos Campana não foi premeditada e parece ter excedido seus próprios desejos.

No final da década de 1970, já formado em direito, Humberto deixou a carreira jurídica e o barroco baiano para voltar a São Paulo com o mantra de “ganhar a vida com as mãos”. Assim, passou a participar de oficinas de escultura em ferro e terracota. Rapidamente foi criada uma pequena oficina de produtos artesanais para fazer cestos e espelhos emoldurados com conchas. Para atender a muitos pedidos durante as festas de fim de ano, o arquiteto cadete foi chamado para ajudar. A dupla está formada. Desde 1983, quando foi criado o Studio Campana, os paulistas nunca mais se separaram. A força motriz por trás desses “buscadores de formas”, que são mais artistas do que designers, é estar sempre em sintonia com seus tempos.

Exposição dos Irmãos Campana no Museu Oscar Niemeyer, 2017 | FOTO: Henrique Towns

O “Manifesto Antropofágico” como fonte de inspiração.

É para a Bahia que Humberto sempre gosta de voltar. Salvador, esta praça portuguesa exportada para os trópicos onde dorme a “Roma negra”, memória da África que soube resistir à invasão holandesa, uma cidade cheia de excessos, de edifícios coloridos bagunçados e igrejas barrocas com peles douradas vibrando num ambiente de atmosfera culturalmente “canibal”. Este caleidoscópio de referências transparece nas obras dos irmãos Campana, que não param de se inspirar em diferentes culturas. Eles respondem bem ao manifesto radical de 1928 de Oswald de Andrade (1890-1954) defendendo a ingestão simbólica do colonizador e de sua cultura. O grande poeta reivindicou uma apropriação dos valores morais e estéticos europeus inspirados no canibalismo dos Tupi. Não é por acaso que Humberto cita como mentoras Lygia Clark (1920-1988) e seus objetos relacionais ou mesmo Tunga (1952-2016), conhecido entre outras coisas por suas esculturas-instalações devorando espaços e criadas com materiais inesperados.

Gallon Lamp III phase One | FOTO: © Ed Reeve

O material indica o que quer se tornar

Para esses inventores de técnicas e materiais, os próprios materiais determinam projetos e conceitos. São eles que indicam o que “querem ser”, dizem os artistas. Material, forma e função são articulados juntos. Apaixonados desde o início por materiais baratos e naturais, esta agora é uma escolha reivindicada com o compromisso ambiental dos irmãos. A identidade brasileira é outro eixo forte de sua criação. Muitas de suas obras retiradas da rua reinterpretam recuperação, reciclagem ou desvio de objetos comuns em comunidades carentes. A cadeira Favela, criada em 1991 com pedaços de madeira recuperada montados artesanalmente, causa sensação.

Cadeira Favela © Edra

Usos e referências pervertidos

Quando pegam elementos históricos usando materiais “nobres” como mármore e bronze, planejam “pervertê-los”, eles dizem, de sua função, uso e até mesmo natureza. Procuram fazer “a arqueologia recomposta a partir desses elementos desorganizados de forma a obter uma colagem pessoal, um agenciamento de elementos recompostos de uma nova forma”. Sua prática experimental assume esta Arte Povera que desafia a indústria cultural e a sociedade de consumo. No entanto, vivendo hoje neste coração econômico da megalópole da América do Sul que é São Paulo, seu trabalho também constrói pontes entre o universo do artesanato original e o mundo industrial. Embora afirmem que “o verdadeiro luxo é ter a oportunidade de trabalhar em projetos que possibilitem a realização de protótipos sem ter que atender às demandas da indústria. ”

Una Famiglia chair – Transplastic Collection, 2006 | FOTO © Fernando Laszlo

O São Paulo Studio à sua imagem

Nada é pretensioso. Tudo é “sorridente” e tranquilo nestes andares de um pequeno e estreito edifício onde convivem as equipes de trabalhadores, rodeadas por uma agradável confusão de obras e protótipos. É um verdadeiro laboratório que incuba a diversidade de influências, a mistura social e a economia de meios característica de seus trabalhos. São fragmentos de vidro de Murano, colagens de couros nordestinos, poltronas repletas de brinquedos ou bichinhos de pelúcia, tubos plásticos, tiras de tecido ou cordas (sua famosa cadeira Vermelha), macacos chamejantes, criações transgênicas com tranças de fibras de Apuí (Ficus amazônicos) parecendo sufocar assentos de plástico…

Estudio Campana | FOTO: Cortesia do Estudio Campana

As formas são propositalmente “imperfeitas”, lembrando-os de que eles chamaram sua primeira coleção de “desconfortável”. Cada peça é única, mesmo em séries que nos lembram que a imaginação prevalece sobre o conforto. As obras são esculturas mesmo que às vezes possam ter funcionalidades. São sobretudo histórias que nos contam sobre o Brasil e suas viagens, das quais a mais recente foi ao Quênia. Ficamos esperando com impaciência para saber o que mais eles poderão sugerir.

Um universo composto

A obra evoca prontamente a natureza. Elementos decorativos frequentes lembram referências ao Barroco, mas também encontramos as tradições das tribos indígenas do Brasil. O mundo animal é onipresente com crocodilos, rinocerontes, gorilas e veados… um universo às vezes beirando o “pop”, “kitsch”, mas também flertando com o “regionalismo”.

35 anos de criações

Café Campana, no Musée d’Orsay | FOTO: © Musée d’Orsay – Sophie Boegly

Apaixonados pela cultura francesa, muitas vezes os encontramos convidados por casas como a Lacoste para uma linha de camisas pólo onde mostram uma multiplicação invasiva de crocodilos ou também com Bernardaud, com a coleção “Nazareth”, um conjunto de xícaras, castiçais de porcelana mostrando uma imagem surrealista composta de braços e pernas emaranhados. Em 2011, o arranjo do Café de l’Horloge no Musée d’Orsay foi uma das suas mais recentes criações notáveis ​​na França, onde criaram uma atmosfera “onírico-aquática”, inspirada no ilustre vidreiro Emile Gallé, símbolo da Art Nouveau. Lá,  encontramos uma das cadeiras Campana, cujas formas orgânicas evocam nenúfares e compartimentação de espaços com grandes desenhos de nuvens laranja. É assim que podemos descobrir o quanto eles gostam de pensar também nas cenografias de suas próprias exposições como foi o caso durante sua última ocupação-retrospectiva no MAM do Rio de Janeiro no início de 2020, comemorando seus 35 anos de criações. Foi uma experiência imersiva entre paredes de tijolos, tetos de bambu e tubos de plástico. Eles gostam de florescer com a arquitetura e paisagismo, como também foi o caso de seu quiosque La gloriette para a Veuve Clicquot.

Exposição dos Irmãos Campana no MAM-RJ | FOTO: Fernando Laszlo

Planeje e preserve o futuro

Os dois irmãos são generosos e sempre acreditaram nas trocas. Frequentemente, conduzem workshops para artistas-artesãos e/ou alunos nas cidades onde são convidados. A criação em 2009 do Instituto Campana institucionalizou essa vocação. A associação privada sem fins lucrativos está desenvolvendo um formidável programa social e educacional usando o design como fonte de reflexão e criação. A inspiração e o cruzamento de técnicas artesanais tradicionais de diferentes regiões do Brasil e do mundo impulsionam as ações e programas realizados com três eixos principais: a renovação do artesanato tradicional, o desenvolvimento da inclusão social e a educação como meio de melhorar a vida das populações e, finalmente, manter e preservar seu acervo e sua memória. O acervo do instituto inclui muitas obras originais, protótipos, documentos, fotografias e publicações que contam a história de sua trajetória desde a criação em 1983.

“O Instituto foi criado com o objetivo de divulgar o nosso universo – visão e linguagem – através da divulgação do nosso acervo e da promoção de atividades culturais e educativas. A vida nos deu muito, agora é a nossa vez de retribuir o favor”, diz Fernando.

Jardim Suspenso – fase 2, 2019 | FOTO: Fernando Laszlo | Cortesia do Estudio Campana

Ações de campo

Se é difícil elencar todas as ações do Instituto Campana, citemos as oficinas com a comunidade Aliança de Misericórdia, localizada em Piracicaba, interior do Estado de São Paulo, que recebe moradores de rua de todo o Brasil e os ajuda a reconstruir suas vidas. Outras oficinas com jovens do Arrastão visam estimular a criatividade na produção de objetos considerando a reciclagem, transformação e reinvenção a partir de peças de jeans… O apoio à ONG Orientavida e seu projeto “Geração de Renda” visa proporcionar educação, formação profissional e integração no mercado de mulheres vulneráveis ​​por meio do artesanato. Em 2015, impressionados com o rompimento dramático da barragem de Mariana em Minas Gerais, os irmãos Campana decidiram criar o tijolo “Mão”, uma edição que representa o formato de uma mão, símbolo das tragédias causadas. Parte das vendas das obras são revertidas para comunidades atingidas por desastres…

Cobogó Mão, 2016 | FOTO: Courtesia do Divina Terra e Instituto Campana

“Procuramos colocar as pessoas no processo de fabricação” F & H C

Como você deve ter percebido, reduzir o trabalho dos Campana ao reconhecimento ocidental de “Designers do ano” (Design Miami, 2008 – Maison & Objet, 2012 – Wallpaper 2014, …) é perder as questões mais globais da sociedade e das ambições sociais, que combinam visão e estado do mundo, mitologia contemporânea e utopia. Através dos seus materiais, na sua maioria reciclados, os irmãos Campana tornam-se denunciantes de um planeta cujos recursos se esgotam e desigualdades se agravam num materialismo exacerbado que deixa demasiadas pessoas de lado.

Saiba mais sobre os irmãos Campana

Le Studio Campana
L’institut Campana
• La Carpenters Workshop Gallery
• A Galerie Kréo distribui exclusivamente Fata Morgana Mirror do Studio Campana Studio

Exposição dos Irmãs Campana no Museu Oscar Niemeyer, 2017 | FOTO: Henrique Towns

Ter

– até 22 de novembro, Frente a Arcimboldo no Centro Pompidou Metz:

Assim como os 130 artistas confrontados com as criações antropomórficas do pintor lombardo Giuseppe Arcimboldo (1526 – 1593), os irmãos Campana agarraram avidamente o convite de Chiara Parisi, diretora, e Anne Horvath, pesquisadora, do Centre Pompidou Metz. “Foi a nossa forma de apresentar a sua herança ao público, à medida que entravam naquele portal de entrada na mostra, com cores apelativas, design provocador e incrível atenção aos detalhes, sugerindo aos visitantes que, mesmo seis séculos depois, as questões de Arcimboldo são mais relevantes do que nunca” enfatiza Fernando, que apresenta cinco obras.

Centre Pompidou Metz | FOTO: Jacqueline Trichard

Colocado na entrada da exposição, “Vigilância” é um véu de seda dupla face nas cores azul escuro e amarelo dourado, que chama a atenção pelos 1000 olhos de vidro costurados à mão espalhados por toda a sua superfície. Ao insistir na sensação de ser constantemente observado pela nossa sociedade do “reality show”, lança uma luz inédita sobre o universo misterioso do pintor do século XVI tão apreciado pelos surrealistas.

“Cativeiro” é um castiçal composto por um conjunto de cabeças e pés de galinhas fundidas em bronze. Ele aborda a sensação de prisão e dificuldades encontradas em uma das piores pandemias que enfrentamos hoje.

Por fim, os sofás Antropofágico e Anhanguera, da coleção “Barroco Brasileiro” (2012), homenageiam o aspecto decorativo da obra de Arcimboldo por meio de seu pastiche complexo de elementos de bronze ricamente decorados.

Sofá Anhanguera | Galleria O

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