A Origem do Mundo

Juliana Notari revoluciona ‘A usina de Arte’ com sua “Diva”. ‘A Usina de Arte’ (aberta em 2015) é uma formidável iniciativa da família Pessoa de Queiroz em Água Preta, Zona da Mata Sul de Pernambuco, local hoje de uma grande controvésia cultural. A Usina surge como uma provocação para ressignificar o passado e redesenhar as […]

Juliana Notari revoluciona ‘A usina de Arte’ com sua “Diva”.

‘A Usina de Arte’ (aberta em 2015) é uma formidável iniciativa da família Pessoa de Queiroz em Água Preta, Zona da Mata Sul de Pernambuco, local hoje de uma grande controvésia cultural.

A Usina surge como uma provocação para ressignificar o passado e redesenhar as perspectivas de futuro. Um ajuste de foco, em que a decadência da monocultura canavieira dá lugar à potência plural e transformadora da arte. Antigo ícone da indústria sucroalcooleira no estado, a Usina Santa Terezinha passa a abrigar um parque artístico-botânico e impulsiona uma nova forma de ocupação ambiental, econômica e cultural da região. Uma dezena de grandes instalações de artistas brasileiros tomam conta da paisagem. Mas o que queremos enfatizar hoje é, em parceria do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Mamam (Recife), a incrível coragem de ter inaugurado em dezembro passado a obra chocante e avassaladora (no bom senso das palavras ) da artista Juliana Notari (nascida em 1975 em Recife).

“Diva” é uma instalação escultórica em concreto pintada em uma resina de vermelho ardente, medindo 33 metros de comprimento, 16 metros de largura e 6 metros de profundidade colocada na encosta de uma colina suave que torna a obra visível a grandes distâncias. Ela parece ser a vulva de uma mulher. A obra pontua questões marcantes da poética da artista, que desde 2003 é atravessada pela anatomia feminina e busca provocar discussões em torno dos tabus sexuais impostos às mulheres.  Mas o campo de interpretação da obra se abre para outras dimensões, como a da exploração da terra pelo capitalismo

Está em consonância com obras que marcaram as grandes polêmicas dos últimos séculos. É claro que estamos pensando em “A Origem do Mundo”, a famosa pintura de Gustave Courbet de 1866 que, entre outras coisas, pertenceu ao psicanalista Jacques Lacan, exibida no Musée d’Orsay desde 1995. Mostra explicita e frontalmente o o ventre e a virilha de uma mulher nua deitada em sua cama.

“A Origem do Mundo”, Gustave Courbet, 1866

“A Origem do Mundo”, agora apresentada sem coberturas, encontrou o seu devido lugar na história da pintura moderna, mas não deixa de colocar a questão do olhar de uma forma inquietante. Essa é a mensagem que Juliana Notari quer passar. A arte muitas vezes nos tira da nossa zona de conforto para repensar o nosso mundo. Devemos ir além do chocante para tentar pensar mais longe, especialmente em um momento em que várias revoluções intelectuais estão em pleno andamento como com o movimento #MeToo e a pergunta feita e baseada na autorização ou não do aborto como ainda é o caso em muitos países da América do Sul.

Juliana Notari vem se juntar a alguns de seus colegas como o famoso artista britânico Anish Kapoor, que causou escândalo em 2011 com seu Dirty Corner (“Canto Sujo”, em tradução literal, e que foi chamado pelos jornalistas de “vagina da rainha”) nos jardins de Versalhes. A recepção foi um ódio violento espontâneo e a obra foi vandalizada várias vezes. Diante das inscrições feitas em sua escultura, o artista havia declarado de maneira soberba: “Essas palavras infames fazem parte do meu trabalho, vão além, estigmatizam-no em nome de nossos princípios universais. […] agora desafio museus de todo o mundo a mostrá-la como ela é, carregando o ódio que atraiu. Este é o desafio da arte”.

Anish Kapoor, Dirty Corner, 2011.

Instalado no eixo principal do parque, no Tapete Verde, a obra era um túnel de aço enferrujado de 60m de comprimento que se abria em direção ao castelo através de uma espécie de tronco, descrito como “muito sexual” por Kapoor. O túnel é cercado por escavações e enormes blocos de pedra (até 25 toneladas), alguns pintados de vermelho sangue. Nos jardins solares e geométricos de Le Nôtre, o artista buscou o lado negro e o caos original do lugar. Versalhes antes de Versalhes, as trevas que viram o nascimento do Rei Sol, o regresso da desordem onde André Le Nôtre colocou tanta determinação e genialidade para domar a natureza e espartilhar as suas paisagens… Esta é história que Anish Kapoor viera contar.

Também no Brasil Juliana Notari foi precedida em 2010 pelo ilustre colega Henrique Oliveira que apresentou na 29ª Bienal de São Paulo sua imensa instalação em forma de caverna em que convidava o público a “entrar”: “Origem do terceiro mundo”, feita em madeira, madeira compensada, PVC e metal, 4,9 x 45 x 5 m. A fenda pela qual o público entrou não deixoou muitas dúvidas à sua intenção. Lembre-se do que Ricardo Resende escreveu: “Neste trabalho tridimensional, inverteu-se a posição do espectador. Via-se de dentro para fora. Como um corpo que se abria para o público…” Resende sublinha a relação com a obra do artista alemão Kurt Schwitters (1887-1948) “Merzbau”, sabendo que o nome original que dera a esta construção era Catedral da miséria erótica, cujo conteúdo também era tão chocante para a época do quanto qualquer coisa que os artistas radicais de hoje possam produzir. “um artista determinante no desdobramento do processo artístico de Henrique Oliveira. A Merzbau trataria grosso modo a ideia de uma grande colagem construtiva e tridimensional, uma casa feita com pedaços de madeira. Uma colagem-escultura que lembrava o interior de cavernas. Ou ainda, os corpos cavernosos constitutivos da vagina. A instalação A origem do terceiro mundo, da Bienal de São Paulo de 2010, de certo modo retoma a ideia da Merzbau….É como se fôssemos jogados no túnel em que caiu Alice, no País das Maravilhas. Uma caverna sem fim. É como se fôssemos jogados no abismo, nas entranhas de uma pintura, com todos os seus pigmentos em grande escala. … é como se estivéssemos sendo jogados dentro do corpo humano. Um corpo feminino mais precisamente. Por dentro de um enorme útero.”

A origem do terceiro mundo, Henrique Oliveira, Bienal de São Paulo, 2010.

Desejo a Juliana Notari que, após esta onda de rejeições e ataques, este trabalho venha como um magnífico gatilho para reações adultas e incentivo ao pensamento. Mas, principalmente para concluir, é bom ver que no Brasil a Cultura está longe de estar morta e ainda está viva e bem. Tantos bons motivos para se alegrar e agradecer essa nova ousadia da artista!

Diva, Juliana Notari, 2020.

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