Icaro Lira, 2019

A arte antropológica de Icaro Lira incorpora uma poética do traço

Se as composições poéticas delicadas ou lúdicas de Icaro Lira seduzem, também carregam uma dimensão política ao escavar os interstícios históricos oficiais. A coletiva “The Use of Riches” na galeria Salle Principale até 20 de março, em Paris, permite examinar os traços do artista brasileiro. Uma contra-história estética e política Objetos insignificantes, materiais ‘pobres’ muitas […]

Se as composições poéticas delicadas ou lúdicas de Icaro Lira seduzem, também carregam uma dimensão política ao escavar os interstícios históricos oficiais. A coletiva “The Use of Riches” na galeria Salle Principale até 20 de março, em Paris, permite examinar os traços do artista brasileiro.

Uma contra-história estética e política

Objetos insignificantes, materiais ‘pobres’ muitas vezes encontrados e reaproveitados, elementos do cotidiano, onipresentes e invisíveis … Icaro Lira os coloca sem nenhuma noção real de hierarquia, às vezes no chão, ou presos em pranchas de construção, bancos de vime… sem o filtro ou a distância do quadro … Um amontoado de fotografias de arquivo, páginas de livros ou jornais, pedras brutas ou pedaços de madeira, redes de pesca entrelaçadas com tecidos … justapostas com uma incrível economia de meios. A atenção do artista aos objetos, às histórias que eles podem contar ou liberar, encoraja mudanças potenciais em direção a outras memórias; esses traços de vida e intimidade renovam e desafiam tanto o lado estético, o gênero da “natureza-morta”, quanto o lado histórico, com suas falsificações de relatos oficiais. “Por isso procuro não ficar preso a teorias e ideias anteriores, estou aberto a descobertas, ramificações e montagens nas histórias pelas quais luto. Ele confia com sua voz calma e suave.

Reportando histórias íntimas de estranhos “Minha formação como artista vem do cinema: edição e cinematografia. Acho que isso explica um pouco a minha maneira de pensar sobre esses objetos, fotos, vídeos … Eles vêm da minha memória de lugares. Muitas de suas composições são colagens esteticamente eficazes que podem ser independentes. Mas isso seria perder toda uma dimensão fascinante deste trabalho que é mais profundo do que parece; essas colagens estão carregadas de histórias íntimas, não de grandes homens, mas de estranhos. “São noites de silêncio, vozes que chamam num espaço infinito” (São noites de silêncios, vozes que clamam num espaço infinito) evocadas pelo Padre Tito de Alencar. Na verdade, é uma “contra-história” única que o artista brasileiro construiu pacientemente durante anos: “Considero todo o meu trabalho como um único trabalho, uma pesquisa permanente sobre os movimentos de migração forçada. Procuro não colocar as coisas em caixas, as peças são ideias abertas e a sua formalização num “museu” ou “galeria” também segue este caminho. Não existe uma forma definitiva, mas em constante evolução. ”

Veja os interstícios da história brasileira Nascido em 1986 em Fortaleza, onde volta sempre que pode, embora também tenha um estúdio em São Paulo, o artista brasileiro é também editor, pesquisador, cineasta de uma

trabalho que pode ser descrito como “antropológico”. Tem como foco principal a história do Brasil por meio de uma abordagem que engloba ficção, documentário, arquivo e arqueologia. Para ele, “a arte pode ser construída com uma miríade de contextos sociais, políticos e culturais que nos levam a olhar para os interstícios – não inteiramente otimistas – da história brasileira. ” Nessa perspectiva, seu trabalho afirma ser político, ao confrontar temas que vão desde a polêmica rota transamazônica (1968-1974) que dizimou milhares de indígenas, até o “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”. movimento, que faz campanha para que camponeses não proprietários tenham terras aráveis)… “O sertão nordestino me interessa em geral. Não posso separar esse levantamento de Canudos das outras que faço há três anos na região. Todos eles têm em comum a questão dos movimentos de migração forçada e exclusão social. Ele comentou, lembrando que aos 13 anos já havia conhecido os fundadores da ‘Critica Radical’, grupo de estudantes de esquerda radical que passou à clandestinidade durante a ditadura militar.

Utopia da cidade de Canudos

“A ideia utópica de fundar uma cidade no meio do sertão, onde tudo se dividisse nos moldes do comunismo cristão” o comove e o leva a sublinhar a persistência do apartheid social que os meios de comunicação empregam para ocultar. A linhagem da luta em nome dos princípios coletivistas pela terra é recorrente em sua obra. Afirma, entre outras coisas, a revolta de cerca de 30 mil colonos que fundaram sua própria comunidade no nordeste da Bahia em Canudos. Este episódio é um dos mais sangrentos da nação brasileira; em 1897, a aldeia foi esmagada, a maioria dos habitantes mortos ou deportados. Ao fazê-lo, Ícaro desperta a memória coletiva por meio do poder evocativo das imagens para inscrever a história na realidade contemporânea, expondo as raízes do passado colonial.

Mentores exemplares

Um de seus primeiros mentores foi Leonilson (1957-1993). Nascido como ele em Fortaleza, foi o primeiro artista que expôs aos 13 anos em sua cidade natal. Isso revolucionou sua vida e imediatamente o fez perceber que ele também poderia se tornar um artista. Encontramos em Leonilson uma certa suavidade que aproxima os dois artistas, numa obra bastante autobiográfica para a qual também utilizou costura e bordado. Mas depois de descobrir que tinha AIDS, ele vai enfatizar a fragilidade da vida, fragilidade que também está onipresente na obra de Ícaro. Também na lista de afinidades essenciais está o americano Jimmie Durham (1940-), que conheceu durante uma residência artística em Nápoles. Grande ativista dos direitos civis, membro ativo do Movimento Indígena Americano, ambos têm um trabalho entre o ativismo poético e o pós-modernismo apropriacionista. Suas obras jogam com duplicidades socioculturais por meio de desvios, apropriações e hibridizações.

Icaro © Icaro Lira (carre)

Artistas que captam as convulsões da história

Bispo de Rosario (1911-1988), também do Extremo Nordeste, descendente de escravos negros, foi um artista autodidata que foi voluntariamente internado no hospital psiquiátrico da Colônia Juliano Moreira no Rio de Janeiro onde dedicou sua vida ao um inventário poético do universo. Este trabalho considerável tocou Icaro, cujos inventários sublinham uma relação óbvia. Outra figura só conseguiu manter a amizade, que é Paulo Nazareth (1977-). Ambos cujo trabalho e vida pessoal são inseparáveis, baseiam-se em ideias, ações e coleções de objetos para revelar as conexões que existem entre as pessoas e seu ambiente com assuntos frequentemente relacionados à raça, à ideologia e à distribuição desigual de desenvolvimento. Paulo viaja pelo mundo seguindo as rotas das migrações. Como Ícaro, ele traça as tensões sociais, disparidades e histórias da memória coletiva. Vídeos, documentos e fotos permanecem de suas viagens, a maioria dos quais pode ser acessada em um blog que alimentou ao longo de sua aventura. O “antropólogo Icaro”, por sua vez, vai aos lugares cuja história quer resgatar, mergulha neles e não conta o tempo de amadurecimento da obra que mostrará quando julgar que pode valer a pena. Vale a pena. Faça inventários de uma história oficial

Foi durante a 3ª edição da Bienal de Salvador da Bahia em 2014 que conhecemos Icaro Lira. Abordou os limites dos padrões e definições oficiais que agrupam nove regiões em uma palavra, resultando na criação de um estereótipo e homogeneização dos habitantes. Desconfiado das interpretações historiográficas evolutivas, sua proposta incluía convidar pesquisadores e artistas (entre eles Paulo Nazareth) a refletir sobre as condições da histórica batalha de Canudos propondo uma ‘experiência limítrofe’ vinculada a projetos étnico-sociopolíticos. O objetivo era criar um inventário-conto intransigente varrendo os fundamentos da história oficial. O resultado de sua expedição-proposta etnográfica foi um livro (Icaro também é editor e já tem mais de dez livros em seu crédito). Estabelece ligações entre sua obra e o livro Os Sertões de Euclides da Cunha (1866-1909) em 1902 (O sertão significa “sertão” é uma área geográfica do Nordeste brasileiro), uma obra crucial na literatura brasileira principalmente descrevendo a tentativa de definir a identidade da nação brasileira. As imagens e metáforas utilizadas por Cunha foram reinterpretadas pelo artista para se aproximar da ardente verdade histórica: “Os estrangeiros”, portanto, são todos aqueles que não são “nós”.

Icaro Lira, 2019

Desfaça histórias pela estética dos traços

Desde 2015, seu Museu do Estrangeiro vem reportando os movimentos das populações dentro do Brasil, do norte às grandes cidades do sul para servir de mão de obra. Essa memória retoma múltiplos relatos que se entrelaçam e abrangem cerca de cinco séculos de indagações sobre o racismo e a sociedade brasileira. Suas referências enciclopédicas, o arranjo plástico de suas composições em um permanente “work-in-progress” pincelam tanto uma narrativa poética quanto sacodem os versos. Cada exposição do “museu” associa estratificações cênicas em evolução, com suas “colagens” de objetos, arquivos, recortes de jornais e textos de referência como, por exemplo, “Ecorces” de Didi-Huberman, fotografias, gravações de áudio mostrando depoimentos de imigrantes com com quem conviveu … Estas ‘estratigrafias’ de fatias da vida convidam o público a mudar pontos de vista e histórias. “Não estou a tentar produzir um objecto final acabado, quero que todas estas acções do Museu do Estrangeiro ressoem mais do que simplesmente nesta fotografia, nesta caixa ou nesta gravação. Talvez essa expansão signifique que no final nada é alcançado. Eu não sei. Talvez fosse esse o meu papel, desfazer o que havia sido feito. “A obra preenche, assim, os espaços expositivos com o acervo pessoal de Icaro, que traz histórias que giram constantemente em torno dos vestígios que coleciona. Um trabalho como ideias abertas Com uma obra aberta à sua arqueologia criativa pessoal, Ícaro Lira assume a pluralidade das narrativas, e demonstra uma empatia generosa em relação às experiências anônimas de ontem e de hoje. Uma abordagem “vidente” estimulante em um mundo conturbado que requer alguns faróis.

“Frente de trabalho“, 2018, Galeria Jaqueline Martins

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